Brasília - Quarta , 08 de Setembro de 2010 Página Inicial | Indique aos amigos
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Espanha: uma nação no topo do mundo! Mas qual nação?


André Cardoso

Neste domingo, 11/07/2010 a Espanha alcançou um grande feito que a colocou em destaque no cenário mundial. Ao vencer a Copa do Mundo na África o País Ibérico ganhou projeção no noticiário dos quatro cantos da Terra... menos em algumas localidades dentro do próprio país.

Tudo isso porque parte da população ignora a seleção do seu país por não se sentirem representados por esta bandeira. Esta questão ocorre em diversas partes do país, com destaque para três regiões: a Catalunha, a Galícia e o País Basco. A população originária destas regiões não se sentem espanhóis e reinvindicam a sua autonomia por terem cultura, costumes e idiomas próprios. Na verdade se caracterizam como nações, se não fosse a falta de um Estado autônomo que as legitimassem.  Os povos destas regiões se sentem como verdadeiros colonizados, como povos ocupados e oprimidos pelo Estado espanhol, não tendo neste nenhuma identificação. Além disso, repudiam tudo que vem da Espanha.

O repúdio a Espanha é tamanho que a população destas regiões relatam nem sequer conseguir torcer para que o país conquiste a Copa do Mundo e ignoram a participação espanhola no mundial. Criticam a falta de conhecimento histórico dos mais novos, dizendo que estes se deixam seduzir facilmente pela de “La Roja”, como é conhecida a seleção local. Na Galícia, os torcedores rejeitam incentiver a seleção nacional porque esta seleção não representa a cultura galega.

Na véspera da final da copa, uma grande manifestação com cerca de um milhão e meio de pessoas parou as ruas de Barcelona, capital da Catalunha. A manifestação ocorreu devido a negativa do Tribunal Constitucional da Espanha em reconhecer a Catalunha como uma nação independente e impediu que os catalãs usassem o catalão como única língua oficial, obrigando-os a utilizaram também o castelhanos como lingua oficial. A resolução do Tribunal disse que não existe outra nação senão a espanhola. Além disso assinalou que os catalãs tem todo o direito de se identificarem culturalmente, historicamente e terem uma língua própria, porém isto não lhes conferem o direito de serem uma nação.

Na região basca, os conflitos são ainda mais intensos devido a presença do grupo separatista ETA (Euskadi Ta Askatasuna), que quer dizer Pátria Basca e Liberdade. O ETA foi fundado em 1959 e entre os seus fundadores contou com diversos padres católicos, na maioria ligados a Teologia da Libertação, e que atuavam de maneira clandestina. A região do País Basco abrange também uma parte da França. Por lá o nacionalismo é tão exacerbado que um time de futebol da região, o Athletic Bilbao só aceita jogadores de origem basca. Além disso, o time, assim como outros do país como o Barcelona e o Espanyol, da Catalunha e o Celta de Vigo e o Deportivo La Coruña, da Galícia, rejeitam colocar a nomenclatura “Real” no nome do time, sendo esta uma alusão a Família Real espanhola. Homanagem esta prestada por outros times do país, como o Real Madrid, da capital, o Real Bétis, de Sevilla e o Real Zaragoza, como exemplos.Na verdade, esta é realmente uma questão histórica que se arrasta a cerca de 300 a 500 anos, quando estes povos tinham uma História independente até serem anexados ao reino de Aragão. A partir daí, o que se viu foi um verdadeiro desmonte cultural destas nações, que teve o seu auge durante a ditadura militar de Francisco Franco (1939-1975), quando estes povos foram proibidos de praticarem a sua cultura, inclusive sendo proibidos de falarem seus idiomas naturais, tendo que adotar o castelhano como única língua. Neste período, a história destes povos sofreu um sério agravantre, pois como eram proibidos de falarem seus idiomas de origem, muitos bascos, galegos e catalãs, hoje, não sabem o seu idioma natural. A marca que a dominção espanhola deixou nestes povos é semelhante com o processo ocorrido em Nossa América, onde fez desaparecer idiomas e outros aspectos culturais dos nossos ancestrais.

Mas ao olhar para a Espanha hoje, vemos e reconhecemos estas questões, mas é impossível não olhar para a seleção espanhola e não reconhcer nela os traços culturais destas regiões. Hoje, a Seleção da Espanha se destaca pelo seu jeto de jogar. Jeito este com fortes traços catalãs, já que dos onze titulares, seis atuam no Barcelona e levaram para a seleção toda influência do estilo catalão. Além disso, a Espanha se classificou para a final graças a um gol do catalão Puyol, que garantiu o triunfo sobre a Alemanha. Se tentarmos achar uma cara para esta seleção espanhola certamente veremos um rosto muito mais catalão do que madrilenho. Apesar disto, a população da capital não vê nenhum problema nisto, por se sentirem naturalmente membros da “nação espanhola”.

Para muitos, não torcer para a seleção espanhola por estes motivos não passa de uma grande bobagem, pois não se deveria relacionar questões políticas com o esporte. Porém, para estes povos, a questão da nacionalidade ainda está bem latente em suas vidas e para muitos esta opressão precisa ser revista e corrigido o quanto antes.

Texto: / Postado em 12/07/2010 ás 17:56

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