Beto Almeida
Há 20 anos, em 23 de março de 1988, travou-se no sudeste de Angola a decisiva Batalha de Cuito Cuanavale, na qual tropas angolanas, de Cuba e da SWAPO, movimento armado de libertação da NamÃbia, unidas, derrotaram tropas do regime racista da Ãfrica do Sul, que tinham o apoio da Unita e dos EUA.
Não surpreende que os meios de comunicação comerciais, sempre tão zelosos em comemorar as datas mais banais, seja sobre um desfile de moda, uma festa grã-fina ou um festival de cerveja ou de rock, tenham a mais completa insensibilidade para um registro, ainda que informativo, sobre esta Batalha de Cuito Cuanavale, epopéia tão marcante na caminhada da humanidade para enterrar um dos mais selvagens e brutais regimes da história, o apartheid mantido por décadas pela oligarquia racista da Ãfrica do Sul, obviamente, com a sustentação da "democracia" norte-americana.
Vale relembrar. Em 1987, a situação em Angola se agravara drasticamente. Aliás, nunca tinha sido tranqüila a situação para o movimento de libertação de Angola, desde o inÃcio de sua luta contra o colonialismo português. Depois de fundado no inÃcio dos anos 60, o MPLA, dirigido pelo poeta e médico Agostinho Neto, consegue grandes avanços a partir da Revolução dos Cravos, quando o movimento de militares revolucionários derruba a ditadura salazarista em Portugual, a 25 de abril de 1974. O colonialismo português entrava em colapso total, o novo governo português, dirigido por militares revolucionários adota posição de solidariedade para com os movimentos de libertação das ex-colônias portuguesas. A 11 de novembro de 1975 as tropas do MPLA tomam a capital Luanda e declaram a Independência e a fundação da República Popular de Angola. Mas, não houve paz. Imediatamente, os EUA que já haviam patrocinado com dinheiro e armas a criação da Frente Nacional para a Libertação de Angola, dirigida por Holden Roberto e com apoio total do governo reacionário do Zaire, de Mobuto Sezeke, e também a Unita, dirigida por Jonas Savimbi, com apoio direto do regime racista da Ãfrica do Sul, determinam ações para desestabilizar o novo governo angolano, impedindo que a independência fosse seguida da reconstrução de um paÃs dilacerado pela guerra colonial. A guerra recrudesce em Angola, paÃs rico em diamantes e petróleo; o exército da Ãfrica do Sul intervém diretamente.
Brasil reconhece Angola e Kissinger vem ao Brasil
Agostinho Neto solicita ajuda militar de Cuba, que, com o apoio da URSS, atende. Um fato notável é que o primeiro paÃs a reconhecer o novo governo de Angola é o Brasil, então presidido por Ernesto Geisel. A posição brasileira causou grande insatisfação junto ao governo dos EUA. Aliás, o reconhecimento brasileiro á Independência de Angola inseria-se num leque de medidas da polÃtica externa brasileira de então - tais como o reatamento com a China, a Romênia, o acordo nuclear Brasil-Alemanha e o rompimento de um Tratado Militar com os EUA e outras - que já indicava um outro alinhamento internacional do Brasil, chegando a motivar uma visita repentina do Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger , ao Brasil. Segundo os relatos, Kissinger teria reclamado junto ao presidente Geisel da polÃtica externa brasileira. Teria mesmo dito, em tom de ingerência, que a postura brasileira reconhecendo o governo de Agostinho Neto representaria na prática "fazer o jogo do comunismo internacional, o Brasil alia-se a Cuba". A resposta de Geisel teria deixado Kissinger surpreendido e irritado: "Senhor Secretário, a nossa polÃtica externa não está em debate com o senhor!" Bem diferente da diplomacia de "pés descalços" e subserviente que o Brasil veio a experimentar nos anos 90, a era da privatização
Cuba pega em armas contra o apartheid
Apesar da solidariedade militar cubana a Angola, a crescente intervenção dos EUA no conflito, através da Ãfrica do Sul, faz com que boa parte do território angolano escape do controle do governo angolano. Em outubro de 1987, o Presidente angolano José Eduardo Santos expõe a Fidel Castro as dificuldades monumentais e o risco de uma derrota militar. Solicita, uma vez mais, que Cuba conceda mais apoio militar. A dramática situação angolana é analisada exaustivamente pela direção cubana que decide empenhar-se ainda mais decisivamente na guerra de libertação do povo angolano, baseando-se nos princÃpios do Internacionalismo Proletário, inscrito na Constituição Socialista de Cuba.
As tropas angolanas e cubanas posicionadas na localidade de Cuito Cuanavale, estavam sob intenso bombardeio do exército racista da Ãfrica do Sul. O risco de massacre era iminente. Enquanto resistiam, um novo plano estava sendo elaborado em Cuba para inverter esta situação desfavorável. Em sucessivas viagens de 15 horas de Havana até Luanda - num itinerário inverso ao dos navios negreiros - aviões transportam dezenas de milhares de soldados cubanos. Há também o fornecimento de mil tanques, milhares de baterias anti-aéreas e num prazo recorde de 60 dias é construÃdo um aeroporto com estrutura suficiente para pouso e decolagem dos modernos aviões Mig-23, de fabricação soviética, que Cuba também forneceria a Angola, juntamente com seus melhores pilotos. O plano estava traçado para a Batalha final de Cuito Cuanavale: 40 mil soldados cubanos bem armados e treinados, 30 mil soldados angolanos e 3 mil guerrilheiros da SWAPO, o exército de libertação da NamÃbia, paÃs que também estava ocupado por tropas da Ãfrica do Sul.
Â
Rumo ao sul
Fidel havia encarregado o general Cintra Frias, veterano guerrilheiro de Sierra Maestra, do comando destas operações em território angolano. Na oportunidade, Castro teria confessado ao lÃder do Partido Comunista da Ãfrica do Sul, o branquelão Joe Slovo, que a estratégia seria como a de um boxeador: "Enquanto seguramos o inimigo com a mão esquerda (Cuito Cuanavale) , vamos atacando com o punho direito". A situação militar se inverte graças a esta massiva e preparada intervenção cubana, paÃs que chegou a enviar a Angola, ao longo anos, cerca de 350 mil homens e mulheres internacionalistas, garantindo de fato a verdadeira independência na jovem nação africana.
Não suportando os golpes recebidos, em especial uma grande surra promovida pela atuação dos pilotos cubanos nos MIG-23, a Batalha decisiva ocorre no dia 23 de março de 1987, uma derrota fundamental das tropas da Ãfrica do Sul que Nelson Mandela assim descreveria: " Cuito Cuanavale foi a virada para a luta de libertação do meu continente e do meu povo do flagelo do apartheid!"
Sem dúvida, a luta de libertação da NamÃbia também recebia um grande impulso, e dois anos mais tarde, este paÃs também declararia a sua Independência. Entretanto, o governo racista de Botha preocupava-se, pois pela potência e envergadura da estratégia armada por Cuba no sul de Angola chegou a imaginar que as tropas cubanas pudessem dirigir-se rumo ao sul, ou seja, rumo a Pretória.Na fuga, as tropas racistas bombardearam pontes, revelando medo de uma ofensiva rumo ao sul. Enquanto as batalhas ocorriam, com sucessivas derrotas impostas à s tropas da Ãfrica do Sul, ocorriam no âmbito da ONU as famosas negociações em busca de um acordo, negociações em que os representantes dos EUA exibiam toda sua hipocrisia. Mas, há um diálogo que merece ser relembrado, quando o representante do regime racista nestas negociações pergunta ao representante de Cuba, Jorge Risquet, se havia a intenção de uma ação militar rumo ao Sul, a resposta é dessas que entram para os anais de história militar: "Se eu lhe disser que vamos rumo ao Sul isto seria tomado como uma ameaça, se eu lhe disser que não vamos rumo ao sul, isto seria para vocês um calmante". Deixou o racista atônito e confuso. E em outra oportunidade deu o toque de realismo que a arrogância sul-africana não queria reconhecer. "A Ãfrica do Sul não tem condições de impor na mesa de negociações uma situação de vantagem quando no campo de batalha está sendo fragorosamente derrotada." De fato, os negociadores sul-africanos diziam que se retirariam "para a NamÃbia". A história foi diferente, tiveram que sair também da NamÃbia.
Condolezza e o Ministro Negro
Exatamente quando a Secretária de Estado dos Eua, Condolezza Rice visitava o Brasil, onde, entre muitos temas mais importantes e nada divulgados, assinou um Plano de Ação pelo qual Brasil e EUA decidem atuar conjuntamente para "eliminar a discriminação racial", a TV Cidade Livre, o canal comunitário de BrasÃlia, realizava um debate sobre a Batalha de Cuito Cuanavale, com participação de embaixadores de Cuba, Angola, NamÃbia e Ãfrica do Sul, agora livre do apartheid. O texto firmado por Condolezza e o Ministro da Igualdade Racial, Edson Santos, afirma que Brasil e EUA "partilham a caracterÃstica de serem sociedades democráticas multi-éticas e multi-raciais", o que teria motivado um comentário de Fidel Castro em uma de suas Reflexões do Comandante: "É assombroso. Penso que é exatamente o contrário o que acontece nos EUA".
Sem dúvida, basta verificar as condições de vida da população negra que ainda hoje vegeta sob os escombros do Furacão Katrina, em Nova Orleans. Ou contar o contingente de negros nas prisões norte-americanas. Ou a quantidade de eleitores negros que foram sub-repticiamente retirados do cadastro eleitoral para assegurar a vitória suspeita de Bush nas decisivas eleições presidências na Flórida em 2000.
Quanto ao Brasil, sabemos que os negros são maioria nas prisões, nas filas do desemprego, entre os que recebem os salários mais baixos, entre os que vivem nas favelas, entre os que estão nas fazendas com trabalho escravo. Num quadro dantesco como este, a simples existência de um Ministério da Igualdade, pode ser uma boa notÃcia, demonstrando a sensibilidade que o presidente Lula tem para a questão racial, afinal, um de seus grandes amigos na época da fábrica era um negro. Também é importante que uma das primeiras leis por ele sancionada é exatamente a que introduz a disciplina História da Ãfrica nos currÃculos da escola brasileira.
Qual foi a nossa solidariedade?
No entanto, não se deve deixar passar a oportunidade para uma reflexão bem mais profunda, por exemplo, a partir da divulgação pela TV Brasil da histórica importância da Batalha de Cuito Cuanavale para a libertação da Ãfrica do Sul e para o começo do fim do apartheid, permitindo à s novas gerações tomar conhecimento de que houve um povo capaz de levar sua solidariedade à expressão máxima de concretude: Cuba socialista foi o único paÃs que pegou em armas para combater o apartheid e para defender a independência de uma nação irmã ameaçada pela ação colonialista dos EUA em apoio à Ãfrica do Sul e ao exército mercenário da Unita. Ou seja, nada pode ser mais assombroso, como disse Fidel, que a Condolezza venha reivindicar seu paÃs como uma democracia multi-racial e multi-étnica.
Cuito Cuanavale deve servir também para os movimentos sociais, especialmente ao movimento negro brasileiro, para refletir que a solidariedade deve ter tradução real, pois não se tem notÃcia de que os nossos irmãos angolanos tenham recebido do movimento negro, em solidariedade, uma aspirina que fosse. Enquanto que Cuba enviou para Angola 350 mil homens e mulheres, de lá trazendo apenas seus mortos e as medalhas desta vitória que jamais poderá ser apagada da consciência da humanidade. Muito se exalta que o Brasil é o paÃs como maior população negra fora da Ãfrica, mas qual foi a nossa solidariedade concreta quando ela foi tão necessária? Quando vários estudos registram o seqüestro impiedoso de contingentes negros africanos para formar o escravagismo nas Américas, e isto é uma verdade cruel e inapagável, Cuba foi capaz de inverter o itinerário: negros, brancos e mestiços partiam do Caribe para a Mãe Ãfrica que estava sendo estuprada pelo apartheid e pelos EUA para oferecer solidariedade, para lutar com armas nas mãos, ombro a ombro com angolanos e namibiamos e impor a primeira derrota, que tinha que ser militar, ao apartheid. Como disse Mandela, em Cuito Cuanavale se deu a virada. Mas, uma virada marcada pela consciência das tropas cubanas de serem a continuidade histórica do internacionalismo proletário, de fazerem reviver o brado heróico de Stalingrado, de retomarem o exemplo revolucionário das massas vietnamitas que também derrotaram os EUA. Para a Ãfrica Cuba enviou negros, brancos e mestiços alfabetizados, cultos, um exército bem treinado, com consciência socialista, e que não esteve em Angola para rapinar petróleo ou de diamante, como hoje fazem de modo selvagem e assassino as tropas norte-americanas no Iraque. E a solidariedade cubana com a Ãfrica não se esgotou naquela histórica epopéia militar: hoje milhares de médicos e professores cubanos trabalham em dezenas de paÃses africanos. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o contingente de médicos cubanos na Ãfrica supera o número de médicos que todos paÃses ricos somados têm hoje naquele continente que tanto rapinaram....Por isso, é indispensável um debate mais aprofundado sobre o papel de Cuba e Angola na luta contra o apartheid, pois, não faz nenhum sentido falar da luta contra o racismo desconhecer esta contribuição, ignorar a dimensão histórica da Batalha de Cuito Cuanavale e, ao mesmo tempo, tomar como exemplo de luta anti-racial o modelo norte-americano, quando foram os EUA os principais sustentadores do apartheid.
Recomendação ao Ministro Edson Santos: que tal promover um debate sobre a Batalha de Cuito Cuanavale na TV Brasil, exibindo lá os excelentes documentários cubanos sobre esta guerra de libertação, com o que poderÃamos furar este enorme bloqueio informativo contra esta verdadeira façanha histórica realizada por Cuba para derrotar o criminoso regime do apartheid? O momento é importante, não apenas pela data, mas também porque uma das missões que trouxe Condolezza Rice ao Brasil é a de intimidar a comunidade de paÃses sul-americanos diante da excelente proposta brasileira de criação de um Conselho de Defesa do Atlântico Sul. Há quem acredite que ela veio aqui para combater o racismo, mesmo sendo tão assombroso acreditar nisto.
23 de Março de 2008
| Texto: Beto Almeida / Postado em 22/04/2008 ás 22:46 |