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Venezuela Resiste ao Império

Postado em 07/02/2019 9:37

Esquerda pequeno-burguesa esconde defesa de golpe na Venezuela com fraseologia esquerdista

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Diário Causa Operária
No dia 29 de janeiro desse ano, a organização Transição Socialista – antigo Movimento Negação da Negação – publicou, em seu sítio eletrônico, um artigo intitulado “Fora Maduro!”. Imbuído de uma série de frases floreadas e teorias mirabolantes, o artigo é uma defesa escancarada dos interesses do imperialismo.

O artigo já começa profundamente pró-imperialista e pomposo: “o único caminho para frente na Venezuela passa pela derrubada do governo de Nicolás Maduro”. Há de se perguntar: o que é um “caminho para frente?”. Para a direita, a vitória eleitoral de Bolsonaro deu início a uma “nova era” – e, não por acaso, Bolsonaro é a favor da derrubada de Maduro. A primeira frase do artigo é, portanto, bolsonarista.

Aumentando as firulas e o grau de completa distância da realidade da luta de classes, o artigo continua: “as energias da classe trabalhadora estão tensionadas e voltadas a isso, e se não se der vazão a tais energias, se não forem colocados para fora esse potencial e essa vontade de luta, necessariamente haverá depressão e melindre nas massas”. Embora o significado de “energias tensionadas” não seja claro, o fato é que não há qualquer disposição da classe trabalhadora em derrubar o governo venezuelano: milhares têm ido às ruas defender Nicolás Maduro e muitos dos protestos convocados por Juan Guaidó foram um verdadeiro fiasco.

A forte tendência à mobilização que se vê na Venezuela tem como questão principal a luta dos explorados contra o imperialismo. Assim, como o governo Maduro se encontra imerso em contradições com a burguesia mundial, a defesa do governo venezuelano é, nesse momento, fundamental para de organizar um movimento mundial pela expropriação da burguesia internacional.

Em seu segundo parágrafo, o artigo consegue atingir seu mais alto nível de cinismo: “‘Ah, vocês defendem hoje a queda de Maduro? E se isso apenas levar à ascensão da burguesia opositora a Maduro, com seu líder Juan Guaidó?’ — perguntam-nos. Ora, é um risco a se correr”. Ou seja, para os integrantes do Transição Socialista, a realidade da classe operária não importa. Se o imperialismo vai impor um regime de escravidão aos venezuelanos para tomar de assalto todo o seu petróleo, não importa. A única coisa que importa é seguir uma aventura política moralista segundo a qual Maduro seria um “ditador”.

Após atingir o mais alto nível de cinismo, o artigo afirma, pouco depois, que “o governo de Trump não pretende invadir militarmente a Venezuela para tirar Maduro”. Por que, então, estariam os norte-americanos interessados em invadir a Venezuela, para manter o chavismo no poder? Se assim fosse, os Estados Unidos não estariam comandando uma operação mundial para forçar todos os países do mundo a reconhecer o golpista Juan Guaidó e isolar o governo Maduro.

Para justificar a absurda ideia de que o imperialismo norte-americano não tem interesse em derrubar Maduro, o artigo apresenta o seguinte argumento: “em segundo lugar — e talvez mais importante —, porque essa instabilidade no mercado de petróleo aceleraria muito rapidamente a crise humanitária na Venezuela. Não se pode saber o que massas proletárias em desespero são capazes de fazer. Leia-se: revolução”. Trata-se, obviamente, de uma demonstração cabal da total incompreensão dos autores do que seja a luta de classes.

Esse argumento cretino de que o imperialismo não quer nenhuma crise humanitária porque isso desencadearia uma revolução é completamente falso e serve apenas para imobilizar os setores que querem lutar contra a direita. Na atual etapa em que se encontra o capitalismo, o objetivo fundamental dos capitalistas é sugar toda a força de trabalho e todo o patrimônio de países como a Venezuela, custe isso uma crise humanitária ou não. Além disso, a História já apontou inúmeros países que entraram em uma crise humanitária e não entraram em uma situação revolucionária.

Em todo o texto, os integrantes do Transição Socialista se negam a reconhecer a existência do imperialismo. O problema da Venezuela parece ser, portanto, o mero resultado de um conflito entre dois setores burgueses, que competem entre si sem haver uma relação de exploração entre eles. É baseada nessa incompreensão da luta xe classes que o artigo propõe o termo “descompressão política”.

Segundo o artigo, a tentativa de golpe dada por Juan Guaidó foi um “estímulo” dos Estados Unidos para que se criasse uma “oposição interna” na Venezuela. Uma vez criada essa oposição, a tendência natural do regime político seria migrar da “ditadura” de Maduro para um regime burguês democrático. Esse “estímulo” seria justificado pelo fato de que, para o artigo, a burguesia “prefere sua democracia à ditadura explícita”.

O argumento de que a burguesia prefere a democracia à ditadura é outro cretinismo para tentar impedir que os trabalhadores se confrontem com seus algozes. Se a “descompressão política” é algo natural – e, portanto, toda ditadura é inevitavelmente levada à ruína pela própria burguesia – por que os trabalhadores deveriam participar ativamente da luta de classes? Obviamente, o único objetivo de quem levanta a tese da “descompressão política” é tentar impedir que a classe operária seja protagonista nos conflitos mais decisivos para a situação política.

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