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Postado em 28/07/2017 7:56

EUA e Rússia, entre o amor e o ódio

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A maioria dos russos consideram hoje os Estados Unidos como seu principal inimigo, e muitos norte-americanos olham com desconfiança a liderança política da Rússia. O projeto educativo chamado Arzamas decidiu investigar o tema com mais atenção, por meio de uma série de palestras em Moscou.

Presidente americano Ronald Reagan (esq.) dá aperto de mão em seu homólogo soviético Mikhail Gorbatchov, durante assinatura de tratado de armas em Genebra, em 1985 (Foto: Reuters)Presidente americano Ronald Reagan (esq.) dá aperto de mão em seu homólogo soviético Mikhail Gorbatchov, durante assinatura de tratado de armas em Genebra, em 1985 (Foto: Reuters)

Primeira patada

O primeiro momento em que políticos e jornalistas americanos tripudiaram a Rússia foi em 1813, logo após a vitória sobre Napoleão. Os EUA estavam em guerra com a Inglaterra, que havia bloqueado as rotas marítimas e estrangulado o comércio do país.

Comerciantes influentes na Nova Inglaterra, os mais atingidos pelo bloqueio, fizeram então um gesto público mostrando sua indignação com a guerra e sua empatia pelos britânicos – assim, organizaram diversos banquetes para celebrar a derrota da França.

Alguns jornais influentes, porém, decidiram tomar uma posição contrária e criticaram a Rússia, alegando que Napoleão só havia sido derrotado devido ao inverno rigoroso.

Na sequência, alguns políticos americanos saíram em defesa da Rússia, destacando o papel do tsar Aleksandr 1º e o progresso do país desde a época de Pedro, o Grande.

Ilustração de Ekaterina LobanovaIlustração de Ekaterina Lobanova

Fato é que ninguém estava realmente interessado na Rússia; em vez disso, a questão era apenas uma maneira de acertar as contas políticas internas. Uma vez que os EUA e a Rússia não eram vizinhos, não havia nada, de fato, para os países debaterem.

Democracia vs. autocracia

Ao longo dos anos, o Reino Unido se tornou um aliado próximo dos EUA, enquanto a Rússia permanecia cada vez mais distante da realidade americana.

O modo de governo implantado também destoava: nos EUA era dada ênfase à democracia; já a Rússia, identificava-se mais com a ideia de um governo autocrático.

A postura norte-americana em relação à Rússia degringolou em 1849, quando os russos ajudaram a Áustria e esmagar os insurgentes húngaros e mais uma vez mostrou seu apoio a monarquias absolutas.

Apesar do constante antagonismo, vale a pena mencionar, porém, que durante esses 200 anos de relações, Rússia e EUA nunca entraram em conflito direto, com exceção de um episódio quando os americanos enviaram tropas ao território soviético, durante a Guerra Civil do país, de 1917 a 1919, para lutar contra o Exército Vermelho.

Mas como os russos veem os americanos?

1. Nobres selvagens

No século 18, os russos mostravam interesse pelas ideias de Jean-Jacques Rousseau sobre o “nobre selvagem”, não contaminado pela civilização.

Era justamente assim que a Rússia imaginava os povos indígenas na América, e seus cidadãos demonstravam empatia pelos nativos, que foram oprimidos pelos europeus.

Ronald Reagan (esq.) e Mikhail Gorbatchov curtindo momento de descontração no rancho do americano na Califórnia, em 1992 (Foto: AP)Ronald Reagan (esq.) e Mikhail Gorbatchov curtindo momento de descontração no rancho do americano na Califórnia, em 1992 (Foto: AP)

No século 19, James Fenimore Cooper escreveu muito sobre os indígenas americanos, e tornou-se o primeiro escritor americano popular na Rússia. Até mesmo o tsar Nikolai 1º questionava os embaixadores do país se havia algum livro novo de Cooper.

Na URSS, as crianças assistiam a filmes do estúdio alemão DEFA em que os nobres selvagens no Velho Oeste eram apresentados lutando contra civilizadores europeus.

2. Liberdade

Os russos tinham outra imagem dos EUA durante a Guerra da Independência. Os primeiros revolucionários russos foram inspirados por esse conflito e falavam sobre a América como um exemplo de liberdade e governança justa.

Os anos da Guerra Civil foram o período mais quente nas relações. Naquela época, a Rússia apoiava o Norte, e, em 1867, vendeu o Alasca como um ato de amizade.

Essa imagem de “nação libertária” persistiu até os anos 1990, quando os russos tiveram a oportunidade de conhecer os verdadeiros americanos e visitar países estrangeiros. Ficou claro então que os EUA não eram tão livres quanto se imaginava.

3. Progresso tecnológico

Primeira ferroviária russa, em 1862 (Foto: Arquivo)Primeira ferroviária russa, em 1862 (Foto: Arquivo)

Os Estados Unidos sempre foram uma fonte de ingenuidade para a Rússia. Por exemplo, durante o reinado de Nikolai 1º, especialistas russos viajaram por todo o território americano pesquisando suas ferrovias, e decidiram construir o sistema ferroviário do país com base no modelo americano.

Além disso, o tsar chegou a convidar engenheiros norte-americanos para ajudar a construir a primeira estrada de ferro entre São Petersburgo e Moscou.

O desenvolvimento de linhas telegráficas também teve suporte dos Estados Unidos, assim como os armeiros americanos, especialmente Samuel Colt, ajudaram a Rússia durante a guerra da Crimeia.

Os EUA ainda tiveram participação no processo industrialização da Rússia, inclusive na construção de usinas hidrelétricas e fábricas. A empresa americana mais famosa no país então era a Singer, que construíra uma fábrica enorme nos arredores de Moscou.

Anúncio da fabricante de máquinas de costura Singer, em 1900 (Foto: Biblioteca Nacional da Rússia)Anúncio da fabricante de máquinas de costura Singer, em 1900 (Foto: Biblioteca Nacional da Rússia)

Alguns líderes soviéticos também cultivavam certo apreço pelos americanos, entre eles Nikita Khruschov. Durante uma visita aos EUA, Khruschov ficou obcecado com milho e ordenou que o alimento fosse cultivado em milhares de fazendas russas.

4. Ameaça mortal

A imagem dos EUA no século 20, cuja segunda metade foi marcada pela Guerra Fria é, naturalmente, a mais forte entre os russos ainda hoje. Isso porque até mesmo instituições culturais se ocuparam de criar e apoiar essa imagem em livros e filmes.

Embora os países fossem aliados na luta contra o nazismo durante a Segunda Guerra, a propaganda patrocinada pelo Estado soviética foi rapidamente capaz de mudar a imagem do país na mentalidade do povo local. À medida que o governo soviético tentava estabilizar seu país, os EUA eram cada vez mais percebidos como uma ameaça desestabilizadora.

Artigo baseado em materiais originalmente publicados em russo pela Arzamas.

https://gazetarussa.com.br/arte/historia/2017/07/26/eua-e-russia-entre-o-amor-e-o-odio_811410

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