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Honduras

Postado em 13/07/2018 10:45

Honduras é um inferno: quem é responsável? – Hillary Clinton, imperialismo e compadrio com criminosos

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por Justin Raimondo [*]

Cartoon de Latuff. Perante dezenas de milhares de pessoas a agruparem-se na fronteira sul dos EUA, desencadeando agitação política nos Estados Unidos, surge a pergunta: qual a razão de haver tantos pedidos de asilo e migrantes a atravessarem ilegalmente as fronteiras de três países centro-americanos, designadamente a Guatemala, Honduras e El Salvador?

Para começar, não é nenhuma coincidência: estes são os três países “mais invadidos” ao sul do Rio Grande, isto é, invadidos pelos Estados Unidos e seus mandatários.

Durante os anos Reagan assistiu-se a um máximo de intervenção dos EUA na região, com medo de “Infiltração comunista” dando origem a uma ajuda maciça a déspotas locais e esquadrões da morte da direita em toda a América Central e do Sul: o medo que cubanos e soviéticos influenciaram conduziu a política dos EUA. Em El Salvador, uma feroz guerra civil entre os latifundiários e uma rebelião de esquerda custou dezenas de milhares de vidas e milhares de milhões de dólares em rendimento perdido.

Na Guatemala , com uma longa história de apoio dos EUA a uma elite insensível e violenta, uma guerra civil de 36 anos entre os latifundiários e uma guerrilha de liderança comunista devastou o país. Honduras foi cenário de um recente golpe de Estado apoiado pelos EUA e também de um romance de O. Henry, em que a frase banana republic se tornou símbolo. Dificilmente poderia ser imaginada uma frase mais apropriada para descrever este país centro-americano, tendo as bananas como a maior fonte de riqueza e periódicas intrigas políticas – sucessivos golpes, assassinatos, corrupção incrível, tudo isto presidido por senhores da guerra e seus protegidos de Washington e das grandes empresas.

Então, de que estão estes “refugiados” a fugir? É tão mau o pais que achem justificável pagar a contrabandistas para guiar seus filhos menores – viajando sozinhos! – através da fronteira EUA-México?

Ao contrário do resto dos media, que rotineiramente ignoraram o que se passava na América Latina, desde o fim da guerra fria, tenho feito a cobertura da região regularmente. Relativamente apenas às Honduras, veja aqui , aqui , aqui , aqui e aqui (desde 2006). Como escrevi o ano passado:

“Honduras tem sido sempre um joguete norte-americano, um joguete para o benefício de United Fruit (renomeada Chiquita) e a aristocracia latifundiária do país, sendo metido na ordem quando necessário: Washington enviou os seus fuzileiros navais num total de sete vezes entre 1903 e 1925. Os camponeses hondurenhos não gostam que as suas terras sejam confiscadas pelo governo e entregues a produtores estrangeiros, a quem foram concedidas franquias monopolistas por funcionários públicos corruptos. Apesar da dura repressão, revoltas rurais periódicas começaram a espalhar-se para as cidades. O país foi governado directamente pelos militares desde 1955 – voltando a ter um regime civil apenas em 1981”.

Este texto foi sobre o golpe de Estado endossado por Hillary Clinton contra o presidente democraticamente eleito, Manuel Zelaya. Um conservador que se tornou popular através de uma série de medidas destinadas a aliviar pobreza desesperada dos camponeses e transferir o poder dos militares para a Presidência, o que enfureceu a elite hondurenha. Esta agiu de imediato quando Zelaya se uniu à Aliança ALBA , de países latino-americanos, aliada da Venezuela de Hugo Chávez.

Embora a ALBA nunca representasse muito económica ou militarmente, o simbolismo deste movimento foi demasiado para o exército hondurenho adestrado nos Estados Unidos e generosamente subsidiado por Washington. Os generais rapidamente colocaram Zelaya num avião e despacharam-no para fora do país – enquanto ainda de pijama . Washington emitiu uma crítica superficial e rotineira, embora o Departamento de Estado de Hillary tivesse aprovado o golpe antecipadamente. Isto foi sempre assim e desta vez não foi excepção.

A história de Honduras é a história de uma luta de décadas contra o militarismo: os generais, apoiados pelos Estados Unidos ao longo das décadas, criaram um sistema socioeconómico, centrado em torno da supremacia do exército, que controla não só o cenário político, mas também domina a economia. Liberais reformadores como Zelaya começaram a investigar os abusos levados a cabo pelo antigo regime militar, os culpados não esperaram que a Procuradoria começasse a chamá-los: lançaram uma campanha terrorista de atentados e assassinatos. Como descrevi em 2009 :

“Um sector inteiro dos militares caiu na criminalidade sem rodeios: tal como na década de 1990 um típico ladrão de bancos, traficante de drogas, e/ou raptor-para-resgate era, muitas vezes, um oficial do exército hondurenho. Cartéis de droga colombianos estenderam seus tentáculos ao alto comando hondurenho e a violência e a repressão aumentaram”.

Os cartéis claramente restabeleceram a sua influência nas Honduras: o que estamos a presenciar é uma repetição da década niilista dos anos 90. De acordo com o Gabinete das Nações Unidas sobre Drogas e Crime , no período imediato após o golpe de Estado apoiado por Clinton a taxa de assassinatos aumentou de 60,8 por 100 mil em 2008 para 81,8 em 2010; 91,4 em 2011 e 90,4 em 2012 – das mais altas do mundo. O governo dos EUA emitiu um aviso para viajantes que diz aos turistas para permanecerem afastados .

Assim, a Hégira hondurenha para o Rio Grande é um resultado direto da política externa dos EUA: será o ricochete ou “blowback”, utilizando o jargão da CIA para as desagradáveis consequências das ações dos EUA no exterior? Seria fácil dizer que este é mais um exemplo de como a política externa dos EUA de intervenção global retorna para nos assombrar, porque isso é parte da verdade. No entanto, a velha história familiar de americanos arrogantes (Ugly Americans [1] a apoiarem o Déspota Local ainda pior não se encaixa nos fatos atuais: houve uma queda incrível na ajuda militar dos EUA para as Honduras. Em 2017 foram mais 19 milhões de dólares. Este ano são meros 750 mil dólares!

A história de Honduras antes da ascensão da hegemonia americana fez mais para moldar o país do que qualquer outro factor: a questão vital da propriedade da terra é central aqui e em todo o Sul. O feudalismo [2] nunca foi realmente abolido e os restos feudais que persistem até hoje na região atrasaram o desenvolvimento económico e tecnológico e mantiveram a maioria na penúria. A política externa dos EUA ajudou a sustentar esta repressão sistémica: não a criou. Quaisquer que sejam as “causas-raízes”, as consequências de toda esta história criaram algo muito próximo de um Estado falhado.

Por isso, dezenas de milhares de pessoas estão a fazer uma longa caminhada para a fronteira entre os EUA e o México: a base social e institucional da civilização humana está caindo em pedaços, não só em Honduras, mas em toda a América Latina. Apesar de tudo isto nem é novo nem é principalmente atribuível às acções dos Estados Unidos. Sim, nossa “guerra contra as drogas” tem criado uma classe criminosa capaz de rivalizar com o poder dos governos locais para manter a ordem, mas as drogas são ilegais em todos os lugares, não só na América do Norte.

As Honduras podem ser um Estado falhado, e a política externa dos EUA certamente não ajudou a melhorar – longe disso! – ainda que o fracasso seja tanto uma consequência de uma cultura política que antecede a influência americana, tal como o é dos mais recentes acontecimentos. Se isto dá direito a que hondurenhos atravessem a fronteira e reivindiquem asilo nos Estados Unidos é uma matéria que vou deixar para o julgamento dos meus leitores, mas meus os pontos de vista são bem conhecidos .

Basta dizer que a resposta à pergunta de porque tantos hondurenhos estão a reencenar The Camp of the Saints na nossa fronteira sul deve ser encontrado na complexa história daquela terra infeliz, que os “mestres da virtude” e falsos “especialistas”, que dominam o discurso dos EUA fariam bem em aprofundar. O que não farão, pois não é uma história propícia para as habituais asneiras dogmáticas.

Então, o que podemos fazer para aliviar o problema, causado em parte pela história das nossas relações com Honduras?

Parece-me que os apoiantes de Trump estão no caminho certo com sua redução radical da ajuda militar dos EUA ao corrupto governo hondurenho. E embora não devêssemos prosseguir uma política de mudança de regime, mesmo que apenas para desfazer a anterior mudança apoiada pelos EUA, os fala baratos da “promoção da democracia” no Departamento de Estado fariam bem em chamar a atenção para a acção destrutiva do regime actual. Afinal, isto é algo de que podem culpar a Hillary Clinton.

A administração de Trump deveria evitar o tipo de “causas fundamentais” sem sentido algum que precedem a entrega de grandes quantidades de ajuda económica. Invariavelmente, dinheiro que vai directo para os bolsos das autoridades locais.

A crescente presença nas Honduras de gangs como MS-13 é um problema de aplicação da lei, algo que não vai ser resolvido até que a cumplicidade governamental com essas gangs seja descoberta e erradicada. Este é um novo fenómeno pandémico na região: uma forma de capitalismo de compadrio, que eu chamo de cumplicidade com criminosos – o resultado direto de uma falha da “guerra contra as drogas”, o florescente mercado para opiáceos viciantes e muitas vezes mortíferos e a corrupção intrínseca gerada pela intervenção do Estado no tráfico.

A cumplicidade com criminosos que está a destruir a sociedade civilizada, ao sul da fronteira dos EUA não é algo que possa ser interrompido apenas se Washington “fizer algo”. Cabe às pessoas que vivem nesses países libertar-se de seus opressores. A América não vai resolver problemas, que remontam ao legado do colonialismo espanhol. O que é necessário é uma “América primeiro” uma política regional que abandone os erros do passado mais recente, voltando à sabedoria do passado – de John Quincy Adams, o melhor secretário dos EUA, que, quando pressionado por exaltados a apoiar a causa da independência grega, respondeu que a América “é criadora de desejos de liberdade e independência de todos. Ela é campeã e reivindica apenas a sua própria”.

[1] The Ugly American, romance de William Lederer e Eugene Burdick publicado em 1958. Foi transposto para o cinema em 1963.

[2] É altamente discutível caracterizar como feudal o modo de produção de Honduras ou de qualquer país latino-americano.   Resistir.info não tem de endossar tudo o que diz um autor quando publica um dos seus artigos.

[*] Director editorial de Antiwar.com e investigador do Instituto Randolph Bourne.

O original encontra-se em Antiwar e em www.informationclearinghouse.info/49748.htm

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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