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Entrevistas

Postado em 11/02/2017 10:44

Jorge Lezcano: Fidel é o sol da vida do povo cubano.

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Valter Xéu *
Jorge Lezcano possui uma extensa folha de serviços prestados a Cuba, tendo participado na clandestinidade do Movimento 26 de Julho, foi dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e da Central dos Trabalhadores de Cuba (CTC). O seu desempenho como dirigente do partido Comunista de Cuba na Província de Camaguey durante a safra do ano de 1970 e depois como Secretario Organizador do Comitê Provincial do Partido nessa província.  Foi de 1974 a 1980 Coordenador Nacional dos Comitês de Defesa da Revolução (CDR), desde essa responsabilidade foi promovido a membro do Comitê Central do PCC e do Conselho de Estado, foi deputado da Assembleia Nacional e reeleito para diversos mandatos. Foi Vice Presidente da Assembleia Nacional do Poder Popular e Presidente da Comissão de Relações Exteriores tendo integrado a Equipe de Coordenação e Apoio do Comandante Fidel Castro. Durante 10 anos ocupou o cargo de Primeiro Secretario do Comitê Provincial do Partido Comunista de Cuba em Havana e membro do Birô Politico do Comitê Central e embaixador de Cuba no Brasil durante o primeiro mandato do presidente Lula. Em que esteve por diversas vezes na Bahia realizando palestras em Salvador, Itabuna, Jequié e Feira de Santana onde esteve por três vezes. Lezcano lembra das diversas viagens que realizou para a Bahia a convite do Pátria Latina e das inúmeras amizades que fez na boa terra que segundo ele é o único lugar do Brasil que mais se parece com Cuba e lembra da recepção oferecida a ele em feira de Santana pelo jornalista Antônio José Laranjeira e sua esposa Kika, das palestras que realizou em Jequié para mais de mil pessoas no auditoria lotado do Centro de Convenções, na UEFS em Feira de Santana e a da UESC em Itabuna.

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‘Lezcano é um revolucionário de primeira linha. Com vários livros publicados sobre Cuba.
Nesse bate papo ele fala de Fidel com emoção e o que ele representa não somente para o povo cubano, mas para o mundo com seu ideal libertário.
Lezcano sempre foi e continua sendo um entusiástico leitor e incentivador de Pátria Latina, jornal que edito e que cuja ideia surgiu em outubro de 2001 em conversações com Fidel e já em Fevereiro de 2002 saia o primeiro numero impresso.

Exibindo _DSC0071.JPGCom Fidel e Raul

Convidado do governo de Cuba para as homenagens póstumas a Fidel, visitei Lezcano e sua esposa Maida em sua residência em um bairro da capital Havana acompanhado de outro grande amigo, Jorge Ferrera Diaz, que foi conselheiro da embaixada cubana no Brasil e que também esteve na Bahia por diversas vezes.
Valter Xéu – Com o era a sua relação com Fidel?
Lezcano – Eu estou preso, totalmente preso a Fidel, preso como um simbolismo. Estou preso simbolicamente. Eu só vou entregar este último trabalho, que eu disse que faria, eu vou entregá-lo convertido em um livro, sobre Fidel e os CDR’s. Registro  toda a história que vincula Fidel aos CDR’s. Explico como Fidel converteu os CDR’s em uma escola política de um novo tipo, em Cuba. Explico como Fidel, através dos Cedros, conseguiu ter um instrumento capaz de educar massivamente, educar, politicamente e ideologicamente o povo. Explico tudo isso. E outras coisas mais, como tu verás, eu te mostrarei. Isso eu disse por ocasião do nonagésimo aniversário do Fidel, um evento histórico onde ele apresentou uma palestra e eu apresentei outra. Aí, na dedicatória, que é o que eu quero te dizer, eu falo que Fidel é o sol do povo cubano.

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Xéu – Como se da isso?
Lescano – Isso está relacionado à sua morte, e eu nem estava pensando nela, neste momento. Veja, o sol ilumina permanentemente, dá luz permanentemente. O sol ilumina sempre, não se apaga nunca. O sol dá vida sempre, não se apaga nunca. Assim é Fidel, para o povo. Um sol que não se apaga nunca, que sempre nos dará a luz, que sempre nos dará a Vida. É um símbolo, de coração, é como eu penso nele.
Xéu – Em todos os lugares que ando em Cuba nesses dias encontro a frase estampada nas casas onde o povo diz ser Fidel…
Lezcano – Por estes dias, em todas as entrevistas, para todo mundo, tem coincidido o seguinte, está ocorrendo em todas as entrevistas que tem sido feitas. Quem é Fidel?  Fidel é o povo. O povo nunca morre, então, se o povo não morre, Fidel não pode morrer, porque Fidel está no coração e na consciência do povo .E esta será a continuidade da obra de Fidel em cada um de nós. Fidel não ensinou em um momento em que parecia que a agressão dos EUA era iminente? Ele já pensava que poderia cair nessa luta, como poderia ter caído  em Sierra Maestra, em Moncada, em Granma. E o que dizia Fidel ao povo? O povo tem que aprender, cada cubano tem que aprender que cada um é seu próprio comandante-em-chefe. Quando encontrar-se sozinho, tem que pensar que é o próprio Fidel, que é o comandante-em-chefe da Revolução neste momento, onde que esteja. Então, por isso que toda a gente diz “Eu sou Fidel!” E onde quer que esteja um cubano, vai estar Fidel. E vai estar Fidel em seu pensamento, em sua obra, em sua ação. Por isso é muito difícil que alguém possa passar por cima de um sentimento tão profundo, de uma consciência tão profunda como esta. Nada será igual, vão mudar os métodos, vão mudar as formas de administrar, mas não vão mudar o povo no sentido do patriotismo, de unidade, de independência, de soberania. O povo nunca, nunca vai aceitar que Cuba seja uma colônia dos EUA, nunca vai aceitar isso. E nunca aceitará como nunca aceitou, desde 1805 (1805!), quando Thomas Jefferson se propôs invadir Cuba, se a Inglaterra entrasse em guerra com a Espanha. Se acontecesse isso, iriam invadir Cuba. Então, o propósito dos Estados Unidos sempre foi apoderar-se de Cuba. Todos os presidentes quiseram fazer o mesmo.

Exibindo _DSC0073.JPGCom a esposa Maida e Fidel

Xéu – Como ocorreu com Porto Rico …
Lezcano – Sim, como aconteceu com Porto Rico. Houve três presidentes, na história dos Estados Unidos, que quiseram comprar Cuba e a Espanha nunca quis a vender, porque tinha Cuba como a principal das suas colônias.
Exu – E Cuba era conhecida como “A Jóia da coroa espanhola”, ( risos ), certamente que a Espanha nunca iria querer  vendê-la (risos)
Lezcano – A jóia da coroa espanhola, isso está na história, vou te entregar um documento, para que tu o tenhas. Então, eu creio que independentemente se avançamos mais ou menos economicamente, de que sejamos mais pobres ou mais ricos, independentemente das relações Cuba e Estados Unidos, independentemente se melhorem um pouco mais ou fiquem como está, ou se piorem, com a eleição de Trompa, o povo cubano está preparado para resistir. E vai haver uma direção, quem quer que ocupe o cargo onde por enquanto está Raul, resolvendo os problemas.
Raul é o continuador da obra de Fidel. Quem vier depois de Raul deverá fazer o mesmo, pois o povo não permitirá que seja diferente. Como não permitiu Machado, como não permitiu Batista, como não permitiu a ninguém que tenha querido impor-se sobre sua vontade.
Xéu – Morre Fidel e em que condições deixa o povo?
Lezcano – Deixa um povo mais culto, um povo mais preparado militarmente, um povo mais preparado politica e ideologicamente, com uma cultura superior, com conquistas que não pode perder, porque seria retroceder ao capitalismo. O nosso povo, em quaisquer condições, em qualquer direção que vá, vai seguir defendendo a conquista da Revolução, as ideias de Fidel, os conceitos de Fidel e tudo o que ele nos legou. Por isso digo quem pensa que com a desaparição física de Fidel vamos retornar ao capitalismo. É um grande engano, pois Cuba não retornará ao capitalismo.   Não é que vamos ter mais ou menos.

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Xéu – Há quem pense no extremo, um capitalismo cubano (risos).Lezcano – O que acontece é que este povo não está preparado para retroceder ao capitalismo. Este povo não suportará voltar ao capitalismo. E, sobretudo, o que Fidel entregou ao povo, acima de riquezas materiais, da educação e da saúde, acima de tudo isso, entregou a sua dignidade e sua Liberdade. Nenhum povo estará disposto a perder isso, sua dignidade e sua liberdade.
Então, é assim que eu vejo o futuro, vejo o futuro assim como isso que acabei de ver na TV, e chorei.

Exibindo _DSC0066.JPGJorge Lezcano com Ernesto Che Guevara

As lágrimas me caem cada vez que penso nisso, tenho que me aguentar para não chorar. Veja se um povo que é capaz disso, que vou contar agora, pode se render. Não se renderá, não vai atraiçoar o ideário de Fidel. Tu conheces o que é a Comenta **, o grupo da Colmenita, não? Um grupo de crianças, que cantam, dança, este grupo encantou Fidel em seu aniversário de 90 anos. …….. (“Colmenita” é um Projeto Artístico Cultural que agrega crianças a partir de 5 anos e jovens até 14 anos. Foi criado em 1990 e é uma experiência pedagógica de cultivo de valores humanos). Então, a chefe da Colmenita, um artista muito importante em Cuba, estava com um grupo de crianças pequenas, de 4 e 5 anos, e uma das meninas levava o nome de Fidel escrito na testa, em plena praça.  E a repórter lhe pergunta: como explicas a teus amiguinhos e a outras crianças porque colocaste o nome de Fidel na testa? Ao que ela respondeu: “Coloquei na testa porque não posso abrir meu peito e colocá-lo no meu coração”!
Xéu – Uma criança de uns seis anos, vi na TV e a emoção foi tão forte que ate a repórter que fez a pergunta ficou travada.
Lezcano – É o que eu digo um povo assim, não vai mudar, não acontecerá nada que mude esse sentimento. E é como pensam todas as crianças, como pensam todos os jovens….
Xéu – Perguntei a uma amiga italiana que encontrei aqui em Havana e ela disse o que tu esta me dizendo nessa entrevista que Fidel foi uma espécie de farol para o mundo. A mesma coisa me disse uma jovem que trabalha em uma das lojas de artesanato lá da Rua Obispo, que Fidel se foi, mas o farol que ilumina os cubanos e os povos livres do mundo continua aceso.
Lezcano – Perceba, depois da Revolução, e a Revolução é Fidel e Fidel é a Revolução, a América Latina é diferente, é outra. Se pode dizer que Fidel transformou a América Latina. Suas ideias, sua solidariedade, seu apoio, suas relações com o povo, com os dirigentes progressistas, isso transformou a América Latina.  Mudou. Os Estados Unidos tiveram que mudar sua política com a América Latina por causa da Revolução Cubana e por causa de Fidel. Depois do que Fidel fez em Cuba, em África, África foi outro caso, a África mudou. Escute-se o que dizem todos os líderes africanos, que reconhecem o papel de Cuba para a verdadeira independência da África, para libertar os povos que sofriam com as colonizações europeias.

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Xéu – O povo sul-africano também, a libertação de Mandela…
Lezcano – Sim, da Namíbia, os povos todos, a solidariedade de Cuba hoje está em mais de 130 países. Com médicos, com professores, com engenheiros. Isso é uma obra, uma obra permanente, que perdura. Até para os povos desenvolvidos da Europa, aí há um segmento da população que adora Fidel. Os ricos da Europa, os ricos do mundo sabem que Fidel contribuiu para que também eles, os ricos, fossem mais respeitados pelos Estados Unidos. A ideia de Fidel sobre salvar a Humanidade, sobre salvar a espécie humana, sobre a necessidade de que o mundo se una, justamente para que a Humanidade não desapareça, sobre Justiça Social, isso está também profundamente incrustrado na mente e no espírito dos povos da Europa e dos países desenvolvidos. Inclusive os dirigentes europeus que porventura o advirtam e não compartilhem de seus critérios, não compartilhem suas concepções e não compartilhem sua política, sabem que também lhe devem, a Fidel, por seu enfrentamento ao propósito dos Estados Unidos de apoderar-se do mundo. Sabem que lhe devem também seu quinhão. E por isso eu creio que é uma perda irreparável também para o mundo a desaparição física de Fidel. Porém, como ocorreu com Che, a partir de agora, Fidel passa a ser cada vez maior, não apenas para Cuba, não apenas para a América Latina, mas também para a África e para todo o Mundo.
 * Colaborou, Maria Cristina Vargas da Silva

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