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Postado em 15/03/2016 4:42

Lavajato quer tirar Brasil do BRICS e CELAC

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Não deveria ficar em segundo plano os impactos internacionais que a Operação Lavajato pode trazer, com a possibilidades de alterar, sobremaneira,  o xadrez  geoestratégico mundial . Aliás, alguns destes impactos já estariam  ocorrendo, na medida  em que   jornais especializados em economia, destinado a público empresarial, alertam para a “insegurança jurídica” que já teria desencorajado  aos investidores que formam parte de projetos liderados pela Petrobrás e pelas grandes empresas de engenharia nacional, responsáveis por obras indispensáveis, tanto no Brasil como no exterior.

Durante muitos anos, a Petrobras e suas subsidiárias galgaram posições em numerosos projetos energéticos em países da América Latina, Oriente Médio e África. A ampliação da presença da maior estatal brasileira, um dos frutos principais da Era Vargas,  foi  acompanhada pela presença de empresas de engenharia brasileira, reconhecidas internacionalmente pela sua excelência, que também  assumiram obras de grande porte em diversos países destas regiões citadas. Essa ampliação do raio de ação começou bem antes de Lula ter chegado à presidência, ainda no regime militar.

Petrobrás: presença do Brasil no mundo

As relações estratégicas do Brasil com determinados países sempre foi assunto de indisfarçável importância  na geopolítica mundial. Jango expandiu significativamente as relações de cooperação entre Brasil e URSS, e também com a China, quando foi surpreendido pelo golpe cívico-militar organizado a partir da Casa Branca, com volumoso uso de recursos financeiros para interferir no Congresso Brasil e nos meios de comunicação. Com a instalação da ditadura, o afastamento entre Brasil e URSS e China foi uma imposição norte-americana,  bem como a ruptura de relações com Cuba, só reatadas no Governo de José Sarney, em 1986.

Ainda no governo de Ernesto Geisel, o Brasil retoma um processo de reaproximação com  a China , a URSS e outros países do Leste Europeu, ao mesmo tempo que a política externa brasileira  vai colecionando áreas de conflitos com os EUA. Por exemplo, quando o governo brasileiro reconhece o governo de Agostinho Neto, em Angola, ainda no dia 11 de novembro de 1976. Kissinger veio ao Brasília e reclamou da posição brasileira em Angola, afirmando que o Brasil estaria fazendo o jogo de Cuba, impertinente admoestação que  Ernesto Geisel  respondeu afirmando que “a política externa brasileira não estava em discussão na agenda”.

Aquela política externa havia possibilitado a presença brasileira, sob a forma estatal ou de empresas de engenharia em numerosos projetos  de infraestrutura decisiva em  muitas regiões, especialmente em países com  políticas de soberania nacional e resistência às interferências indevidas dos EUA. Assim, vimos como os bombardeios da Otan, chefiada pelos EUA,  demoliram a infraestrutura do Iraque, em grande parte construída por  empresas brasileiras, muitas delas alvo, hoje,  da Operação Lavajato, tendo muitos de seus proprietários ou executivos, presos sem acusação definida,  prisões que exorbitam  toda a rotina judicial, colocando o direito de cabeça para baixo, no que adquire, portanto,  inevitável significado político.

Agressão da Otan prejudicou engenharia brasileira

Após os bombardeios, o Iraque foi ocupado por empresas petroleiras norte-americanas, como a Halliburton, de propriedade do então vice-presidente dos EUA , Dick Cheyne. Ou seja, as empresas brasileiras de engenharia também foram vítimas de operação militar imperial. O mesmo se repetirá, anos depois, quando 166 dias de bombardeio da OTAN  demoliu toda a infraestrutura da Líbia, em grande parte obra de empresas brasileiras, as mesmas que hoje encontram-se sob bloqueio da Operação Lavajato. A participação brasileira na economia da Líbia, havia colaborado para levar aquele país, então liderado por Moamar Kadafi, a se transformar na nação com os mais elevados indicadores de desenvolvimento humano de toda a África.  Com a vitória militar da Otan, lastreada em sanguinária ilegalidade, e ocupado o país,  as empresas brasileiras foram  afastadas, substituídas por outras dos EUA e da França , e a Líbia regride a níveis de barbárie, além de ser  alvo de rapina por parte de países que se consideram democráticos e humanitários.

Na medida em que operadores da Lavajato,  Justiça Federal e Ministério Público Federal,  levam informações estratégicas de Petrobrás a autoridades dos EUA, solicitando ajuda nas investigações,  a dimensão geopolítica desta operação salta à vista. O quadro é mais complexo se atentarmos para o convênio operacional  entre Polícia Federal e o FBI  –  convênio firmado no governo FHC e não questionado nos últimos anos   –  tendo em vista a forte influência exercida pela instituição norte-americana sobre a brasileira.

Apoio externo a manifestações no Brasil

As informações amplamente divulgadas dando conta de que organizadores das manifestações no Brasil, a partir de junho de 2013,  recebem apoio, inclusive financeiro, de fundações e entidades sediadas nos EUA, remetem à conexão que deve ser destacada entre os objetivos geopolíticos estadunidenses  , especialmente focalizados para  países com ampla riqueza petroleira e peso econômico e político internacional, como é o caso do Brasil, e os resultados práticos da Operação Lavajato.

A orientação política implementada por Lula, fortalecendo  a aliança estado e grandes empresas de infraestrutura, com capacidade de servir de alavanca na materialização de obras e projetos que viabilizam e reforçam a integração regional latino-americana  e uma presença brasileira efetiva  na África, despertou irritação imperial. Com o ingresso do Brasil nos BRICS, recuperando assim uma linha  estratégica que estava em curso no governo Jango  (abandonada na era FHC) ,  assume uma importância que projeta novo papel do Brasil no mundo, com destacado aliado de países que não se submetem a ditames de Washington.

Junte-se a  este cenário o reforço que os governos Lula e Dilma conferiram ao papel das Forças Armadas e à indústria bélica, que, durante o governo FHC registrou  um processo de demolição, e de raquitismo orçamentário, condizentes com o pensamento do presidente sociólogo de se submeter às ordens para implementar um desarmamento unilateral, reservando ao Brasil uma presença secundária e dependente na cena internacional. Pior ainda, dotado de amplo território e amplas riquezas energéticas, a política do ex-presidente FHC  colocara o Brasil em posição temerária, pois o desarme unilateral e a desindustrialização, inclusive bélica, ocorria no mesmo momento em que os países intervencionistas imperiais  ampliavam suas ações agressivas por via militar, expandindo sua presença  para os quatro cantos do planeta, para o que multiplicaram seus orçamentos militares ameaçadores.

Querem retirar o Brasil do BRICS

Assim, retirar o Brasil dos BRICS, afastá-lo de países como Rússia , China, Índia e África do Sul, é evidentemente uma pretensão de Washington, razão pela qual não se pode descartar conexões entre a Operação Lavajato e aquela pretensão, sobretudo para reduzir a presença efetiva do Brasil, política, mas também produtiva, nas iniciativas estratégicas como Celac, Unasul e , como já mencionado, os BRICS. Somente analisando por esta lógica se pode compreender a excepcional  e incompreensível punição de 19 anos de prisão, conferida pela Operação  Lavajato ao presidente da Odebrecht,  empresa que, em aliança operacional com o Estado Brasileiro, herdado da Era Vargas,  realiza obras de enorme envergadura estratégica , entre elas a construção do Porto de Mariel , em Cuba, capaz de promover uma revolução produtiva dentro da Revolução Cubana. Com isto, projeta  novo alcance estratégico para  a economia da Ilha e para toda aquela região, bem como para pavimentar maior presença da China na América Latina.

Ao ter como alvo uma paralisação produtiva da Petrobras, trazendo desemprego nas obras desta estatal em parceria com empresas também alvo de investigações e de ações paralisantes, a Operação Lavajato,  cria uma situação que favorece a presença de empresas estrangeiras em áreas estratégicas da economia brasileira.  No Iraque e na Líbia, esta pavimentação das empresas dos EUA e de outros países imperiais deu-se por meio de  bombardeio. Aqui no Brasil, este objetivo se pretende alcançar  por meio de uma ação paralisante da economia de boa parte do PIB, representada pela Petrobrás e sua cadeia produtiva, bem como por um conjunto de ações visando desestabilizar as forças políticas, seletivamente o PT, que foram capazes de dar sustentação institucional a esta aliança estado-empresas que vem sustentado a realizando de obras fundamentais de infraestrutura, mas também  na esfera social, como o Mais Médicos, Bolsa Família, Luz para Todos, financiados pelo aumento de arrecadação que aquela aliança estado-empresas  possibilitou.

Lula, ministro

Lula deixou a presidência da república com 80 por cento de popularidade. Enquanto Bill Clinton é enaltecido pelas palestras que oferece em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, Lula, que é convidado a palestrar, em inúmeros países,  sobre como reduziu a miséria em seu governo, passa a ser questionado e acusado de cometer irregularidades ao defender interesses brasileiros em escala internacional. Os meios de comunicação brasileiros se associam a interesses externos em detrimento do estado, das empresas e do mercado de trabalho brasileiros, dando preferência a empresas estrangeiras, inclusive sustentando campanhas para a desnacionalização da Petrobrás e do petróleo pré-sal.

Vale contar uma história de como, em 1980, a Odebrecht perdeu uma concorrência no Chile de Pinochet. Recém eleito, Ronald Reagen, telefonou diretamente a Pinochet para interferir numa licitação para uma obra de infraestrutura no país andino, para que ela não fosse vencida pela Odebrecht e sim por uma empresa dos EUA, tal como ocorreu.  Reagan prometeu a Pinochet que desativaria a campanha de direitos humanos que o Presidente Carter vinha fazendo contra a sanguinária ditadura chilena.

Tanto a Operação Lavajato com a política dos meios de comunicação em sua sustentação, cúmplice de vazamentos seletivos de informações que deveriam estar em segredo de justiça,  servem ao mesmo objetivo de beneficiar , em última instância, a desnacionalização da economia brasileira, a demolição da engenharia nacional, a privatização da Petrobrás, e, com isto, a redução da capacidade do Brasil de ser alavanca apoiadora da integração da América Latina e de ter, com os países do BRICS, sobretudo Rússia e China, uma cooperação capaz  de fazer frente ao crescente intervencionismo dos EUA em várias regiões,  especialmente onde haja petróleo e riquezas estratégicas, das quais o Brasil é exemplo.

Soberania

Sob este mesmo ângulo de análise, não deve ser  esquecida a simbologia contida da controvertida prisão do Almirante Othon Pinheiro, uma das grandes cabeças do Programa Nuclear Brasileiro,  presidente da Eletronuclear,  valendo a lembrança de que o esforço nacional em matéria de energia atômica, iniciado também na Era Vargas, tendo à frente do Almirante Álvaro Alberto, sempre encontrou perseguição por parte dos EUA. Prova disso foi o sequestro de turbinas atômicas  que o Brasil encomendou à Alemanha, em pleno Porto de Hamburgo, em 1952, ´praticado por militares dos EUA.   Este objetivo, de impedir que o Brasil seja um protagonista também na indústria nuclear, sempre declarado pelos EUA, encontra, agora, um reforço na Operação Lavajato, que mantém preso,  há vários meses, um almirante respeitado em todo o mundo por suas qualidades de inovação científica e tecnológica no setor. O alvo, sem dúvida, declarado ou não, é impedir que o Brasil conclua seu projeto de construção do submarino nuclear, tão apoiado por Lula e Dilma., indispensável para assegurar soberania brasileira sobre o petróleo pré-sal.

Em se transformando em Ministro, com presença diária na definição de políticas de estado, priorizando as ações de impacto popular de curtíssimo prazo, não uma linha de recuperação convencional de longo prazo como, de modo alienado, vem sendo defendido pelo Ministro da Fazenda,  Nelson Barbosa. Lula ajudará com sua lucidez e visão geoestratégica na recuperação de condições políticas internas na recuperação da capacidade de iniciativas do governo para, com isto, dar continuidade a uma cooperação crescente do Brasil com os BRICS, a Celac e a Unasul, bem como uma presença efetiva na África, para onde os países imperiais só enviam contingentes militares. Assumindo o Ministério, Lula e o governo Dilma enviarão ao mundo democrático e progressista uma mensagem de esperança.

Beto Almeida

Jornalista, membro do Diretório Estratégico de Telesur

15.03.2016

Comentários:

Uma ideia sobre “Lavajato quer tirar Brasil do BRICS e CELAC”

  1. A SAÍDA

    “Aonde fica a saída, perguntou Alice ao gato que ria.
    Depende, respondeu o gato. De quê, replicou Alice.
    Depende de para onde você quer ir”. (Lewis Carroll)

    O mundo político, os veículos de comunicação e parte da sociedade brasileira discutem a saída para a atual crise que nos envolve. A primeira questão que formularia é: qual crise?
    Iniciemos pela crise política. O que mais evidente sobressai das manifestações da classe média alta, neste domingo 13 de março, é o desencanto com os políticos e a política. Tanto que, além das críticas e agressões ao Governo e ao Partido dos Trabalhadores, foram também vaiados e excluídos líderes oposicionistas como o Governador de São Paulo, o Presidente do PSDB e a Senadora Marta Suplicy.
    Mal informada e acrítica, esta parcela da sociedade adota como solução uma das causas da crise política: a judicialização da política. Grande parte desta situação cabe às mídias que, desde o julgamento do “mensalão do PT”, colocam como heróis os membros do judiciário que condenam parlamentares e dirigentes partidários do PT e de seus aliados.
    Ao erigi-los heróis, os magistrados se asseguraram de uma divindade que repele qualquer ingerência de outros poderes, normais tanto ao Executivo quanto ao Legislativo (TCU e vetos), e qualquer ressalva a suas atuações, mesmo quando em flagrante desrespeito às leis.
    Assim, estende uma crise política à econômica, que ultrapassa os limites do que é importado de um mundo em permanentes e sucessivas crises econômicas desde 1987.
    Verificar o exemplo norte-americano, tantas vezes chamado para orientar nossas decisões, é também relevante neste caso.
    Primeiro porque não há nos Estados Unidos da América (EUA), o Ministério Público, aqui já designado o Quarto Poder. Os promotores, procuradores são nomeados e demitidos politicamente ou eleitos por mandatos de 4 anos. Não há uma burocracia atuante e autônoma, mas uma política que defende um interesse conhecido.
    Depois, e mais relevante, as empresas norte-americanas são consideradas bens nacionais. É inimaginável uma Lava Jato destruindo um patrimônio técnico, econômico e administrativo nacional. O conhecido caso de corrupção da Lockheed foi resolvido com multa, demissão de alguns executivos e sem dano maior à empresa e sua atuação. Cito apenas um exemplo, mas todo profissional de empresa com alguma vivência internacional lembrará de centenas ocorridos nos EUA.
    Em recente programa de debate em televisão aberta, o participante, conhecido consultor de empresas norte-americanas, afirmou que qualquer resposta que fosse encontrada para a crise política brasileira (por sua participação, a saída da Presidente Dilma parecia ser sua escolha) o fim da Operação Lava Jato era indispensável. Este consultor sintetizava a crítica que vem sendo feita ao Judiciário, despreparado nas questões econômicas, sociais e políticas, atropelando, com a limitada ótica processual, qualquer ação governamental.
    Cita-se com frequência paradigmática a Operação Mãos Limpas de 1992, na Itália, um “espetáculo da mídia”. Naquele ano a Itália era a 5ª maior economia do mundo. Em 2015, conforme o World Economic Outlook Database, do FMI, passara para 9ª, atrás do Brasil em recessão.
    Vejamos a crise econômica.
    Desde 1990 o sistema financeiro internacional vem ganhando poder e se fortalecendo em todo mundo. Basta ver que a França, do socialista Hollande, a Alemanha, da democrata cristã Merkel, o Reino Unido, do conservador Cameron, tem rigorosamente a mesma política macroeconômica. Seria uma desconhecida identidade entre o socialismo, a democracia cristã e o conservadorismo ou um mesmo poder comandando estas políticas?
    A rebeldia nacionalista russa de Putin tem-lhe valido embargos econômicos, rebeliões em países de sua área de influência e movimentos de autonomia dentro da Federação Russa. Igualmente as políticas nacionalistas dos Kirchner, de Evo Morales, Rafael Correa os junta sob o pejorativo “bolivarianismo”.
    Seria então possível neste momento uma política nacionalista no Brasil? Assumiria o Estado sua função de alavanca desenvolvimentista com investimentos diretos e ações nas áreas de energia, infraestrutura, liberando a Petrobras para investir no pré-sal? E ao arrepio de uma oposição de ideário neoliberal?
    Vivemos um momento que exige coragem. O grande desafio será enfrentá-lo mantendo a democracia tão recentemente conquistada. Ou estaria a sociedade – e aqui me refiro aos negros, às mulheres, aos pobres, às classes médias e mesmo a elite – disposta a mais uma vez abrir mão de sua liberdade para um regime de força?
    Não sei qual pacto seria possível, mas como administrador penso que a própria Reforma do Estado deveria constar deste acerto.
    Pedro Augusto Pinho, professor e administrador aposentado

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