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Postado em 14/08/2017 8:24

Locarno: mulher saudita com niqab conquista o Festival

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Rui Martins/Direto de Locarno
Quase no mesmo dia em que Julian Assange tomou a perigosa decisão de defender um alto funcionário do Google, demitido por achar existirem diferenças que impedem a igualdade das mulheres com os homens, uma mulher saudita, Hissa Hilal, veio aqui a Locarno, convidada para o lançamento do filme A Poetisa (The Poetess), no qual defende maior liberdade e direitos para as mulheres na Arábia Saudita. Filme alemão de Stefanie Brockhaus e Andreas Wolf que estreou em Locarno, na mostra Semana da Crítica.

A poesia hoje no Brasil não reúne o mesmo público do passado e dificilmente as televisões brasileiras organizariam um concurso de poesias declamadas pelos melhores poetas e poetisas. Mas, no emirado árabe  Abu Dhabi, a televisão organiza há dez anos, na capital do mesmo nome, um concurso de poesias, com o título Poeta dos Milhões.

A poeta e dona de casa Hissa Hilal decidiu concorrer nesse concurso, no qual um júri, escolhe os vencedores, tornando-se a única mulher na competição. Seguindo as leis religiosas vigentes na Arábia Saudita, país teocrático muçulmano sunita, a poetisa compareceu vestida da cabeça aos pés, com o niqab, tendo só os olhos descobertos, como mostra a foto. E nas suas poesias criticou o extremismo e as fátuas, condenações religiosas à morte, que são também lançadas contra os próprios muçulmanos criando dramas nas famílias. Defendeu também maiores direitos para as mulheres e criticou o terrorismo.

Hissa Hilal se qualificou em terceiro lugar mas provocou a ira em muitos telespectadores que lhe enviaram ameaças de morte. O programa Poeta dos Milhões é realizado na base de eliminações e os dois cineastas alemães viajaram para filmar a final em Abu Dhabi e aproveitaram para acompanhá-la pela cidade e fazer algumas perguntas sobre a situação das mulheres sauditas

No filme A Poetisa, aparecem só os olhos de Hissa Hilal, que exprimem em grandes planos seus sentimentos, como o sofrimento, a cólera, a malícia e o prazer de viver. Mesmo só mostrando os olhos, a poetisa se transforma em star, mesmo porque sabe se exprimir com inteligência e eloquência.

Para ela, as mulheres são a alma da sociedade e isoladas, como ocorre na Arábia Saudita, é a sociedade quem sofre. Ela lembra que a razão da vestimenta niqab era para se proteger os beduínos do sol e dos ataques no deserto hostil e pouco povoado, mas nas cidades modernas constitui uma opressão para as mulheres. a intervenção corajosa de Hissa Hilal revolucionou o programa e deu uma plataforma para as reivindicações das mulheres.

Em Locarno, a projeção do filme terminou com uma standing ovation do público presente, coisa rara, e o provocou grande interesse no público e na imprensa presente, lotando a segunda exibição, enquanto foi organizada uma nova projeção no sábado a pedido das pessoas que não puderam entrar nas duas projeções.

A seguir, Hissa Hilal – como ocorre após cada filme – compareceu diante da cena para responder a perguntas junto com os cineastas. No cantão do Ticino, onde fica Locarno, cidade suíça de língua italiana, foi aprovada maa lei que proibe o uso do niqab e, assim, Hissa Hilal, protegeu seu rosto apenas com um véu para não ter problemas no seu retorno à Riad, na Arábia Saudita, onde vive.

Para ela, a questão vestimentar  não é a mais importante. Mas o formalismo toma parte muito importante na religião atual que, cada vez mais utilizada para controlar a sociedade da qual as mulheres são excluídas, disse ela.

Rui Martins está em Locarno convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

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