Brasília, 23 de setembro de 2018 às 20:36
Selecione o Idioma:

Brasil

Postado em 12/05/2018 10:15

Longe demais? Brasil pode sofrer prejuízo com tensão entre EUA e Irã

.

© AP Photo / Ebrahim Noroozi

Na terça-feira (8) o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a saída de seu país do Plano Conjunto de Ação Integral (JCPOA), também conhecido como acordo nuclear iraniano. Apesar da distância, a economia pode trazer impactos dessa tensão sobre o Brasil. A Sputnik ouviu uma especialista que explicou como isso pode acontecer.

A saída dos Estados Unidos do acordo repercutiu mundo afora, com reflexos diplomáticos de primeira grandeza. Países considerados parceiros dos EUA, como Alemanha, Reino Unido e França, emitiram declarações negativas sobre a atitude do presidente estadunidense.

O acordo foi assinado em 2015, e apontado como o fim de uma crise diplomática em torno do programa nuclear do Irã. Em troca da diminuição gradual de sanções econômicas sobre o país, Teerã concordou em reduzir seu programa nuclear e permitir livre a acesso de inspeções internacionais rigorosas de suas instalações científicas. As inspeções seriam uma forma de aferir se o programa manteve um desenvolvimento pacífico.O Irã tem hoje uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que o coloca em uma posição importante na decisão do preço desse mineral, ainda fundamental para o funcionamento da economia do planeta.

E é exatamente esse elemento que poderia trazer impactos significativos para a economia brasileira.

“Aparentemente a gente está falando de um conflito distante, mas nem tão distante assim. A gente está falando ali de uma região, o Irã, que está no Oriente Médio, onde acontece grande parte da produção de petróleo do mundo. […] Um possível conflito [nessa região] pode causar uma interrupção, uma redução da produção de petróleo no mundo e isso tornaria o petróleo que vem para o Brasil […] mais caro”, é o que afirmou à Sputnik Brasil a professora Juliana Inhasz, da Fundação da Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

“Aumentou o petróleo, aumenta tudo”

A professora também apontou algumas possibilidades de fatores de variação do preço da mercadoria com impacto no mercado brasileiro.

“Parece que está longe mas não está não. A gente está falando aí, muito provavelmente, com qualquer tipo de conflito que aconteça a partir de agora, de um encarecimento do preço do petróleo, seja por conta dessa dificuldade de transporte, seja pela dificuldade de fazer o deslocamento dessa mercadoria, seja mesmo pela própria interrupção ou diminuição da produção do petróleo”.

Inhasz afirma que o fator de primeiro impacto é o preço dos transportes no Brasil, que terão reflexo direto de qualquer variação no preço da mercadoria. Um situação indesejável, visto a abrangência da malha rodoviária brasileira.

“Para a gente issso é um problem muito sério porque o nosso sistema de distribuição de mercadoria, de escoameto, ele é feito praticamente, quase que totalmente em rodovias. Então a gente hoje têm um transporte que depende demais de derivados de petróleo, essencialmente diesel”.

Outro impacto possível é o preço da matéria-prima. Produtos que têm derivados de petróleo como matéria-prima poderiam ter acréscimo de preço para o produtor final. É, portanto, uma soma de fatores. “Aumentou o petróleo, aumenta tudo”, afirma a professora.

Efeito em cadeia pode impactar duplamente a inflação no Brasil

Juliana Inhasz, da FECAP, também falou à Sputnik da possibilidade de um efeito internacional do preço ter reflexos no Brasil.

“A economia americana também muito provavelmente vai sofrer com esse efeito. Acontecendo isso […] a inflação americana também sobe. E o aumento da inflação americana vai acabar pressionando a economia americana a também aumentar a taxa de juros deles, porque ele têm um sistema bem parecido com o nosso de metas de inflação”.

Com isso, segundo a professora, o mecanismo de regulação econômica tende a ser o mesmo utilizado no Brasil, a taxa de juros. Dessa forma, o investimento nos Estados Unidos, considerado menos arriscado, torna-se mais rentável e atraente, o que novamente aponta para um cenário negativo para os brasileiros.

Ainda na situação hipotética de flutuações causadas por atritos do Irã e reflexos de sua influência sobre a produção e circulação do petróleo, Juliana Inhasz afirma que: “Muito provavelmente a gente perde um pouco desses investimentos para a economia americana, e isso acontecendo a taxa de câmbios sobe mais ainda. E com a taxa de câmbio subindo mais ainda nossos produtos importados ficam ainda mais caros. Então a gente provavelmente vai ter um duplo efeito sobre a inflação caso aconteça qualquer tipo de descontinuidade da produção ou problemas de escoamento da produção de petróleo daqui para a frente”.Com a economia brasileira ainda em ritmo lento de recuperação, esses efeitos seriam maus ventos para a retomada econômica. Com produtos mais caros, menos investimentos e impacto na inflação, a economia brasileira torna-se uma fator a mais para torcer contra crise que se instala entre o Irã e os Estados Unidos.

Comentários: