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Frei Betto

Postado em 09/02/2017 8:31

Marisa Letícia

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Frei Betto

Se há uma mu­lher que não pode ser con­si­de­rada mero ade­reço do ma­rido é Ma­risa Le­tícia Lula da Silva. Conta a fá­bula que, tendo sido co­roado, o rei no­meou para o pa­lácio um le­nhador que, na in­fância, fora seu com­pa­nheiro de pas­seios pelo bosque. Sur­preso, o pobre homem es­cusou-se frente à tão ines­pe­rada de­fe­rência, ale­gando que mal sabia ler e não pos­suía ne­nhuma ci­ência que jus­ti­fi­casse sua pre­sença entre os con­se­lheiros do reino. “Quero-o junto a mim – disse o rei – porque pre­ciso de al­guém que me diga a ver­dade”.

Ma­risa não tem a vo­cação po­lí­tica de Lula, mas sua agu­çada sen­si­bi­li­dade fun­ciona como um radar que lhe per­mite captar o âmago das pes­soas e dis­cernir as va­riá­veis de cada si­tu­ação. Por isso, é capaz de dizer a Lula ver­dades que o ajudam a não se afastar de sua origem po­pular nem ceder ao mito que se cria em torno dele. A sim­pli­ci­dade talvez seja o pre­di­cado que ela mais ad­mira nas pes­soas.

Nas­cida em São Ber­nardo do Campo, numa fa­mília de pe­quenos si­ti­antes, ela guarda a fir­meza de ca­ráter de seus an­te­pas­sados ita­li­anos. Co­me­dida nas pa­la­vras, a ponto de pre­ferir não dar en­tre­vistas, não faz ro­deios quando se trata de dizer o que pensa, doa a quem doer. Por isso não pode ser in­cluída entre as ti­etes do ma­rido. Nos pa­lan­ques, pre­fere ficar atrás e não ao lado de Lula. A ad­mi­ração re­cí­proca que os une não im­pede que, ao vê-lo re­tornar de uma ma­ra­tona de reu­niões, às 3 da ma­dru­gada, ela o con­voque para cri­ticar o de­sem­penho dele numa en­tre­vista na TV ou com­par­ti­lhar de­ci­sões do­més­ticas.

Ma­risa é, com cer­teza, a única pessoa que, no cara a cara, não corre o risco de se deixar en­redar pela ló­gica po­lí­tica do ma­rido. De­fen­sora in­tran­si­gente de seu pró­prio es­paço, não chega a ser o tipo de es­posa que com­pete com o par­ceiro. Sabe que seus pa­péis são di­fe­rentes e com­ple­men­tares. Mas nin­guém é aceito na in­ti­mi­dade dos Silva sem passar pelo crivo dela, que sabe dis­tin­guir muito bem quem são os amigos do casal e quem são os amigos de Lula.

Tanto quanto Lula, Ma­risa co­nhece as di­fi­cul­dades da vida. Dé­cima filha de Antônio João Casa e Re­gina Rocco Casa, cresceu vendo o pai car­regar a char­rete de ver­duras e le­gumes que plan­tava e vendia no mer­cado. Se o sítio era pe­queno, su­fi­ci­ente para as­se­gurar a pre­cária sub­sis­tência da fa­mília de onze fi­lhos, o co­ração dos Casa era grande o bas­tante para aco­lher os ne­ces­si­tados. Dona Re­gi­neta – como era tra­tada sua mãe – ficou co­nhe­cida como ben­ze­dora em São Ber­nardo do Campo, pois, na falta de mé­dicos e de re­cursos, muitas pes­soas a pro­cu­ravam, es­pe­ci­al­mente quem pa­decia de bron­quite.

A filha es­tudou até a 7ª série. Ainda cri­ança, viu-se obri­gada a con­ci­liar a es­cola com o tra­balho, em­pre­gando-se como babá na casa de um so­brinho de Por­ti­nari. Aos 13 anos de idade, tornou-se ope­rária na fá­brica de cho­co­lates Dul­cora. Do setor de em­ba­lagem Ma­risa foi pro­mo­vida a co­or­de­na­dora de seção antes de, aos 20 anos, trocar a Dul­cora por um cargo na área de edu­cação da pre­fei­tura de São Ber­nardo do Campo, onde tra­ba­lhou en­quanto sol­teira.

Em 1970, ela se casou com Marcos Cláudio dos Santos, mo­to­rista de ca­mi­nhão. Seis meses de­pois, ele morreu as­sas­si­nado, quando di­rigia o táxi do pai, dei­xando Ma­risa grá­vida do filho Marcos, que Lula con­si­dera seu pri­mo­gê­nito. Em 1973, ao re­correr ao Sin­di­cato dos Me­ta­lúr­gicos de São Ber­nardo do Campo para obter um pe­cúlio dei­xado pelo ma­rido, Ma­risa co­nheceu Lula. De fato, foi pa­que­rada dentro de um ver­da­deiro cerco es­tra­té­gico mon­tado pelo pre­si­dente do sin­di­cato, que ou­vira falar de uma “lou­rinha muito bo­nita” que an­dava por ali. Lula tentou con­vencê-la de que também era viúvo, sem que a moça acre­di­tasse, até ver o do­cu­mento que ele, de pro­pó­sito, dei­xara cair no chão. A pri­meira mu­lher de Lula, Maria de Lourdes, mor­rera em 1971, com o filho que trazia no ventre, em con­sequência de uma he­pa­tite mal cu­rada. Em maio de 1974, Lula e Ma­risa se ca­saram. Da união nas­ceram os ir­mãos de Marcos: Fábio, Sandro e Luís Cláudio.

Nos pri­meiros anos de ca­sada, Ma­risa não gos­tava de po­lí­tica. O pro­gres­sivo com­pro­me­ti­mento de Lula com ati­vi­dades sin­di­cais al­te­rava a ro­tina da casa. Obri­gada a le­vantar cedo para des­pa­char as cri­anças para a es­cola, ela es­pe­rava o ma­rido re­gressar de reu­niões que se pro­lon­gavam ma­dru­gada adentro. No fogão, a co­mida pronta para ser re­quen­tada, já que Lula pre­fere não comer em res­tau­rantes.

De­pois de deitar os fi­lhos, ela acom­pa­nhava as te­le­no­velas sem en­tu­si­asmo. E, com razão, se quei­xava da di­fícil ta­refa de atender a mais de cem te­le­fo­nemas por dia, muitas vezes sem con­se­guir con­vencer os in­ter­lo­cu­tores de que ela não con­trola a agenda do ma­rido, não sabe se ele po­derá ou não par­ti­cipar de um evento em Porto Alegre ou no Re­cife e, muito menos, o que ele pensa do úl­timo pro­nun­ci­a­mento do mi­nistro da Fa­zenda.

Em abril de 1980, ela passou pela prova de fogo, quando Lula es­teve preso no DEOPS de São Paulo, de­vido à greve de 41 dias. Pre­o­cu­pada com a se­gu­rança dele, sempre fez questão de abrir a porta quando es­tra­nhos ba­tiam, evi­tando expor o ma­rido. No mesmo ano, fez o curso de In­tro­dução à Po­lí­tica Bra­si­leira, pro­mo­vido pela Pas­toral Ope­rária de São Ber­nardo do Campo. Fi­liada ao Par­tido dos Tra­ba­lha­dores, abriu sua casa para as reu­niões do nú­cleo pe­tista que se or­ga­ni­zara no bairro As­sunção, onde mo­ravam. O en­ga­ja­mento da mu­lher levou Lula a par­ti­cipar mais di­re­ta­mente das ta­refas do­més­ticas. Mas é ela quem cuida das fi­nanças da casa.

Dela de­pende também a lo­gís­tica pes­soal de Lula, cujas roupas é ela quem compra ge­ral­mente. Como ele cos­tuma andar de bolsos va­zios, se­quer tra­zendo con­sigo a car­teira de iden­ti­dade, da bolsa de Ma­risa surgem o talão de che­ques e a ca­neta com a qual Lula dá au­tó­grafos. Du­rante as cam­pa­nhas pre­si­den­ciais, Ma­risa sempre le­vava, nas vi­a­gens, uma co­leção de ca­misas para que, após cada co­mício, ele pu­desse trocá-las.

Em­bora Ma­risa pre­fira, em po­lí­tica, o papel de as­ses­sora mais ín­tima do ma­rido e não goste de fazer dis­cursos e nem mesmo ser o centro das aten­ções, ela não dis­pensa a opor­tu­ni­dade de par­ti­cipar de con­versas po­lí­ticas. Seja qual for o in­ter­lo­cutor, Lula ja­mais pede a Ma­risa que se re­tire, ex­ceto para buscar um café. No fogão, ela pre­fere o tri­vial: arroz, feijão, bife e sa­lada de al­face com to­mate, em­bora o seu prato pre­di­leto seja ca­ma­rões e um bom copo de vinho. O car­dápio es­pe­cial fica por conta do ma­rido que, de ita­liano, só tem o ape­tite: es­pa­guete a car­bo­nara. Para quem chega, há sempre uma xí­cara de café. Sair sem aceitá-la é con­si­de­rado quase uma ofensa. E ela se com­praz em ler toda a cor­res­pon­dência que o ma­rido re­cebe nos co­mí­cios, bem como em dis­tri­buir es­tre­li­nhas do Par­tido às cri­anças.

De­vota do Sa­grado Co­ração de Jesus, cuja fo­lhinha ja­mais dis­pensa, essa ex-filha de Maria tem, como Lula, a im­pressão de que Deus co­manda os seus passos. Mas, por cu­ri­o­si­dade, gosta de ler seu ho­rós­copo nos jor­nais.

Ha­bi­li­dosa na arte do silk-screen, Ma­risa fez a pri­meira ban­deira do PT, num te­cido ver­melho tra­zido da Itália. Em 1981, montou em casa uma pe­quena ofi­cina para es­tampar ca­mi­setas com sím­bolos do Par­tido, in­clu­sive cri­a­ções de Henfil. Para a cam­panha de Lula a de­pu­tado fe­deral, em 1986, ela chegou a es­tampar cerca de vinte mil ca­mi­setas, ven­didas para an­ga­riar fundos. Ciosa de sua pri­va­ci­dade fa­mi­liar vira uma fera quando a im­prensa tenta en­trar pela porta de sua casa ou in­cluir seus fi­lhos no no­ti­ciário. Em tais si­tu­a­ções, só o cui­dado das plantas é capaz de acalmá-la.

Des­pro­vida de vai­dade, Ma­risa se veste pelo fi­gu­rino do bom gosto, evi­tando a so­fis­ti­cação. Compra a roupa que lhe agrada, sem con­ferir a eti­queta. Ela sempre foi sua pró­pria ma­ni­cure e pe­di­cure. Avessa a pro­to­colos, gosta mesmo é de ficar entre amigos, cer­cada de muita planta e água, em qual­quer lugar em que os fi­lhos possam se di­vertir, li­vres das normas de se­gu­rança. Um bom jogo de bu­raco, o papo solto, o ma­rido de ber­mudas ao seu lado e o te­le­fone des­li­gado – é o que basta para deixá-la em paz.

Frei Betto

As­sessor de mo­vi­mentos so­ciais. Autor de 53 li­vros, edi­tados no Brasil e no ex­te­rior, ga­nhou por duas vezes o prêmio Ja­buti (1982, com “Ba­tismo de Sangue”, e 2005, com “Tí­picos Tipos”)

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