Brasília, 21 de abril de 2019 às 23:46
Selecione o Idioma:

Cultura

Postado em 31/01/2019 9:10

No filme “Apóstolo” o assassinato e a mentira fundam seitas e religiões

.

por Wilson Ferreira/Jornal GGN

Há um “modus operandi” na fundação de seitas e religiões: um assassinato que se transforma no sofrimento necessário do mártir; e a mentira decorrente dessa narrativa. Em consequência, o Sagrado mistura-se com o profano, e o Divino com a violência. Como é possível emergir amor e compaixão nesse modelo psíquico doentio? Essa é a questão principal do filme “Apóstolo” (“Apostle”, 2018). Um jovem ex-religioso, descrente de tudo após um passado traumático, tem a missão de resgatar sua irmã, raptada por uma estranha seita reclusa em uma ilha. Ele se infiltra entre os seguidores de um profeta enlouquecido, mas estranhamente não consegue determinar, afinal, o quê aquela seita adora. Através do horror gore (nada gratuito, já que o tema do filme é como sangue e violência são a outra face das seitas e religiões), o protagonista mergulha em uma sociedade que se pretendia utópica, mas que revela uma questão bem atual: o flerte da religião com o poder político por meio do Estado Teocrático. Filme sugerido pelo nosso incansável leitor Felipe Resende.

Seitas e religiões são formadas a partir de dois eventos fundadores: o assassinato e a mentira. No livro “O Assassinato de Cristo”, o médico e psicanalista austríaco Wilhelm Reich fez uma análise em psicanálise da cultura para descrever esse modus operandi: como Jesus foi assassinado em um dia para ser glorificado no outro. Depois do assassinato por motivações políticas (o novo modelo ético que propunha era contrário à lógica da colonização do Império Romano), Jesus foi eleito como o messias e passou-se a lhe atribuir o papel de líder religioso.

E a maior mentira: Ele não foi assassinado. Ele morreu por nós, para nos redimir do pecado presente em cada um de nós. E a partir daí, há mais de 2000 anos, diariamente, em algum lugar do planeta, Cristo continua a ser crucificado no sádico ritual da missa: bebemos o sangue e comemos o corpo de Cristo simbolicamente através do vinho e da hóstia. O sagrado misturou-se com o profano, o Divino com o monstruoso.

Esse modelo mental foi tão bem-sucedido (matamos Cristo diariamente como bode expiatório da nossa própria impotência) que se tornou modelo para todas as religiões e seitas do futuro, conquistando sempre novos corações e mentes.

Não é para menos que o filme Apóstolo (Apostle, 2018) destaca, numa das primeiras sequências, uma inscrição sobre a lareira de uma casa vitoriana: “O poder da ressurreição está no sofrimento Dele”. Como é possível emergir desse mecanismo psíquico denunciado por Wilhelm Reich algo que possa ser chamado de amor, compaixão ou liberdade?

 

 

Horror gore e política

Apóstolo é um conto ultraviolento sobre um profeta louco no qual, por meio de uma estética de horror gore (com muito sangue e violência), com forte temática social e política – em uma ilha, uma seita quer criar uma sociedade utópica anarco-capitalista (“sem cobradores de impostos do Governo na saída da Igreja”, como brada o líder). E também, sem um Estado, agora reduzido à função repressiva com uma ronda policial que reprime dissidentes (“pagãos”) ou aqueles que ousam sair de casa depois do toque de recolher.

Mas o horror gore de Apóstolo não é gratuito ou apenas com a finalidade de fazer o espectador saltar da cadeira. Afinal, sangue e violência são elementos fundadores de religiões e seitas. Mas o diretor e roteirista Gareth Evans (The Raid) vai um pouco mais além, entrando no campo gnóstico: transforma aquela ilha da estranha seita num microcosmo terrestre – um ecossistema no qual para que florestas e colheitas floresçam, exige o próprio derramamento de sangue humano. 

Uma estranha seita que, a princípio, não sabemos o quê seus integrantes exatamente idolatram. Porém, a seita parece estar sincronizada com a própria ontologia desse mundo que é hostil para nós: a vida não opera por soma, mas com subtração – entregamos nossa fé e sangue, e em troca recebemos submissão e dor.

Apostolo eleva essa tese da crítica social para o campo da ontologia gnóstica.

 

 

O Filme

No alvorecer do século XX (estamos em 1904) Thomas Richardson (Dan Stevens) desperta de um estupor de ópio com tempo suficiente para aceitar a missão da sua família de classe alta que finalmente encontrou um propósito para o seu filho ovelha negra – resgatar a sua irmã Andrea (Lucy Boynton), raptada pelos fiéis seguidores de uma seita liderada por um profeta enlouquecido chamado Malcolm (Michael Sheen).

Sua missão é se infiltrar na embarcação que levam novos seguidores para uma ilha na qual a seita constrói uma sociedade utópica com ares anarco-capitalista: rebelaram-se contra o regime monárquico vitoriano, não querem mais cobradores de impostos e tentam viver num sistema de autogestão. Como o leitor observará, essa é a crítica política nas entrelinhas da narrativa – a crítica ao Estado resultou em uma nova encarnação de um Leviatã teocrático com funções puramente repressivas.

Já na embarcação que leva todos à ilha, Thomas percebe que há algo estranho nessa seita: há convicções religiosas, mas não se sabe, exatamente, o quê os seguidores adoram. Da pior forma possível, o protagonista descobrirá que as noções de sagrado e profano se unirão com sangue.

Há uma estátua feminina no centro da vila, mas a natureza ou origem dessa deusa são obscuras, inclusive para muitos seguidores. 

Mas algo está dando muito errado com o sistema de autogestão da seita. Malcolm e sua equipe de administradores escondem que as colheitas estão morrendo e a fome aguarda a comunidade num futuro próximo. O sequestro de Andrea foi uma forma de, com o dinheiro do resgate, injetar algum dinheiro naquela economia em crise.

>>>>>Continue lendo no Cinegnose>>>>>>>

Vídeos

Veja o vídeo
“Apóstolo” (Gareth Evans, 2018) – trailer legendado

Comentários: