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Postado em 09/03/2017 10:43

A Nova Ordem Midiática Mundial

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È um excelente e revelador artigo sobre a mídia de hoje, um dos braços do sistema financeiro internacional – a banca. Quando Thierry Meyssan, cartesianamente, pergunta qual a força que move o trust midiático, a resposta é o sistema financeiro.

Thierry Meyssan*

Em alguns meses, o conteúdo das mídias nacionais e internacionais mudou profundamente no Ocidente. Assistimos ao nascimento de uma Entente da qual não conhecemos nem os verdadeiros iniciadores, nem os objetivos reais, mas de que observamos de imediato as consequências diretas contra a democracia.
Rede Voltaire | Damasco (Síria)  

O Ocidente atravessa uma crise sistêmica sem precedentes: forças poderosas orientam progressivamente a totalidade das mídias numa única direção. Simultaneamente, o conteúdo das mídias transforma-se: ainda no ano passado, elas agiam com lógica e tendiam à objetividade. Traziam pontos de vista diferentes dentro de uma sã emulação. Agora, agem como bandos, baseiam a sua coerência em emoções e tornam-se maldosas face aos indivíduos que denunciam.

A ideia de uma Entente das mídias é o prolongamento da experiência do International Consortium for Investigative Journalism «Consórcio Internacional para o Jornalismo de Investigação» (ICIJ) , o qual não associa as mídias, mas unicamente jornalistas a título individual. Ele tornou-se célebre ao publicar informações roubadas das contabilidades de dois escritórios de advogados das Ilhas Virgens Britânicas, do escritório da PricewaterhouseCoopers (PwC), do Banco HSBC, e do escritório panamenho Mossack Fonseca.

Estas revelações foram sobretudo utilizadas para desacreditar dirigentes chineses e russos, mas também, por vezes, para salientar delitos reais cometidos por Ocidentais. Acima de tudo, com o louvável pretexto da luta contra a corrupção, a violação do sigilo dos advogados e dos bancos desferiu um pesado prejuízo a milhares dos seus clientes honestos sem nenhuma reação das opiniões públicas.

Desde há uns quarenta anos, assiste-se a um agrupamento progressivo das mídias no seio de trusts internacionais. Atualmente, 14 grupos partilham entre si mais de dois terços da imprensa ocidental (21st Century Fox, Bertelsmann, CBS Corporation, Comcast, Hearst Corporation, Lagardère Group, News Corp, Organizações Globo, Sony, Televisa, The Walt Disney Company, Time Warner, Viacom, Vivendi). Agora, a aliança operada pelo Google Media Lab e a First Draft tece laços entre estes grupos que detinham já uma posição dominante. A presença nesta Entente das três principais agências de imprensa do planeta (Associated Press, Agence France-Presse, Reuters) assegura-lhe uma influência hegemônica. Trata-se sem nenhuma dúvida de uma «entente ilícita», que não é estabelecida com um objetivo de fixação de preços, mas de fixação das mentes, de imposição de um pensamento já dominante.

Pode-se observar que todos os membros —sem exceção— da Entente do Google têm já, no decurso dos seis últimos anos, dado uma visão unívoca dos acontecimentos passados no Médio-Oriente Alargado. Não havia, no entanto, alinhamento prévio entre eles, ou, pelo menos, não sabíamos de nada. É intrigante que estejam presentes nesta Entente cinco das seis televisões internacionais que participaram na célula de propaganda da OTAN (Al-Jazeera, BBC, CNN, France24, Sky, mas aparentemente não a Al-Arabiya).

Nos Estados Unidos, na França e na Alemanha, o Google e First Draft («primeiro rascunho») reuniram as mídias presentes tanto localmente, nesses países, como outras presentes à escala internacional para verificar a autenticidade de certos argumentos . Além de que se ignora quem se esconde por trás da First Draft e que interesses políticos têm puxado uma sociedade comercial especializada em informática a financiar esta iniciativa, o seu resultado não tem muito a ver com o retorno à objetividade.

Primeiro porque as imputações verificadas não são escolhidas pelo lugar que têm no debate público, mas porque elas foram citadas pelos indivíduos que esta Entente das mídias entende denunciar. Pode-se crer que estas auditorias nos permitirão chegar perto da verdade, mas não é nada disso: eles confortam o cidadão com a impressão de que estas mídias são honestas, enquanto as pessoas que elas denunciam não o são. Esta abordagem não visa levar a uma melhor compreensão do mundo, mas a colocar de joelhos as pessoas a abater.

Em seguida, porque uma regra não escrita desta Entente das mídias impõe que só se verifique as imputações de fontes exteriores à Entente. Os membros interditam-se de exercer um espírito crítico entre eles. Trata-se de reforçar a ideia de que o mundo se divide em dois : «nós» que dizemos a verdade, «os outros» que são mentirosos. Esta abordagem mina o princípio do pluralismo, condição prévia à Democracia, e abre a via a uma sociedade totalitária. Não é nada de novo porque já o vimos em ação na cobertura das Primaveras Árabes e das guerras contra a Líbia e a Síria. Mas, pela primeira vez, ela atira-se a uma corrente de pensamento ocidental.

Finalmente, porque as acusações que terão sido qualificadas como «falsas» jamais serão encaradas como erros, mas sempre como mentiras. Trata-se a priori de atribuir aos «outros» intenções maquiavélicas para os desacreditar. Esta démarche prejudica a presunção de inocência.

É por isso que o funcionamento do ICIJ e que a da Entente criada pelo Google e a First Draft violam a Carta de Munique adotada pela Organização Internacional de Jornalistas (Título II, artigos 2, 4, 5 e 9).

Não é indiferente que ações de justiça aberrantes contra os mesmos alvos visados pela Entente das mídias tenham sido postas em ação. Nos Estados Unidos, ressuscitou-se a lei Hogan contra a equipa Trump, quando este texto nunca, absolutamente nunca, foi aplicado desde a sua promulgação, há dois séculos. Na França, ressuscitaram a lei Jolibois contra os tweets políticos de Marine Le Pen, quando a jurisprudência tinha limitado a sua aplicação à distribuição sem “blister” de algumas revistas ultra-pornográficas. Sendo o princípio da presunção de inocência das pessoas erradicado, é possível sujeitá-las a investigação sob qualquer pretexto legal. Além disso, as ações intentadas contra a equipe Trump e Marine Le Pen em nome de leis adormecidas deviam sê-lo contra inúmeras outras pessoas, mas não o são.

Por outro lado, os cidadãos não reagem quando a Entente das mídias dissemina, ela própria, falsas imputações. Assim, nos Estados Unidos ela imaginou que os Serviços Secretos russos tinham um dossiê comprometedor sobre Donald Trump e o chantageavam. Ou, na França, onde esta Entente inventou que se pode empregar ficticiamente uma assistente parlamentar e acusou disso François Fillon.

Nos Estados Unidos, as grandes e as pequenas mídias membros desta Entente atiraram-se ao Presidente. Eles sacam as suas próprias informações de escutas telefônicas à equipe Trump abusivamente ordenadas pela Administração Obama. Eles estão coordenados com magistrados que os utilizam para bloquear a ação do governo atual. Trata-se, sem dúvida, de um sistema de mafioso.

As mesmas mídias norte-americanas e franceses atacam dois candidatos à eleição presidencial francesa: François Fillon e Marine Le Pen. Ao problema geral da Entente das mídias junta-se a impressão errada que estes alvos são vítimas de uma cabala franco-francesa, quando o principal mandante é norte-americano. Os Franceses constatam que as suas mídias são manipuladas, erradamente interpretam esta campanha como estando dirigida contra a Direita, e continuam ainda erroneamente a buscar os manipuladores no seu país.

Na Alemanha, a Entente ainda não está em ação e só deverá estar atuando nas eleições legislativas.

Quando do Watergate, as mídias reivindicaram formar um «Quarto Poder», após o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. Elas afirmaram que a imprensa exercia uma função de controle do governo em nome do Povo. Descontemos o fato de que o que foi censurado ao Presidente Nixon era comparável ao que fez o Presidente Obama : colocar a sua oposição sob escuta. Sabe-se hoje, qual a fonte do Watergate, «Garganta Profunda», longe de ser um «revelador» cidadão era, na realidade, o diretor do FBI, Mark Felt.

O noticiário sobre este caso foi uma batalha entre uma parte da Administração e a Casa Branca, na qual os eleitores foram manipulados pelos dois campos ao mesmo tempo.

Aceitar a ideia do «Quarto Poder» implica que se assimile a mesma legitimidade aos 14 trusts, que controlam a grande maioria das mídias ocidentais, que aos cidadãos. O que é afirmar a substituição da Democracia por uma oligarquia.

Resta um ponto a esclarecer : como são os alvos da Entente escolhidos? A única ligação clara entre Donald Trump, François Fillon e Marine Le Pen é que eles desejam restabelecer contatos com a Rússia e lutar junto a ela contra a matriz do jiadismo: os Irmãos Muçulmanos. Embora François Fillon tenha sido Primeiro-ministro de um governo implicado nestes acontecimentos, os três juntos encarnam a corrente de pensamento que contesta a visão dominante das Primaveras Árabes e das guerras contra a Líbia e contra a Síria.

Thierry Meyssan, escritor e jornalista

Tradução Alva

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