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Postado em 08/10/2018 11:12

O afro-americano que foi perseguido por defender a liberdade e igualdade nos EUA após visitar a URSS

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Cena do filme ‘O imperador Jones’ (1933), com Paul Robeson e Dudley Digges.
Falar sobre injustiça, preconceito e exploração era considerado uma atitude antiamericana, e a caça às bruxas do governo McCarth levou o cantor Paul Robeson, no auge de sua carreira, a ser diagnosticado como ‘psicopata’. No maior clima de ‘vai pra Cuba’, ele respondeu a um congressista por que não ia à URSS: ‘Porque meu pai era escravo e meu povo morreu para construir este país, e ficarei aqui e terei parte no país, assim como você’.

Em 1934, o cantor, ativista, ator e atleta Paul Robeson  foi convidado a visitar a União Soviética. A viagem o colocou em contato com um mundo que não o julgava pela cor de pele. Mas este caso de amor entre Robenson e a URSS não terminaria bem para o “Artista do Povo”.

Quando a situação racial nos Estados Unidos se deteriorou, logo após a Grande Depressão, a população negra buscou apoio com a União Soviética, que tinha um feroz discurso antirracista.

Em 1932, metade da população afro-americana estava desempregada. Em algumas cidades do norte dos EUA havia até apelos pela demissão de pessoas que não fossem brancas para não deixar os brancos desempregados. No sul, a violência racial aumentou muito em 1933, e os casos de linchamentos saltaram de 8, no ano anterior, para 28.

Robeson (1898 - 1976), ensaia em clima descontraído ao piano em 1958.

Enquanto isso, na URSS, o artigo 123 da Constituição contra a discriminação compunha o internacionalismo promovido por Vladímir Lênin – que, por determinado tempo, deu voz aos oprimidos.

Isto se referia a gente como Paul Robeson, que estava tão encantado pelo país, que gravou uma versão do hino soviético em 1949. Toda a URSS se encantou com a voz dele, que também interpretou canções folclóricas russas.

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A maior parte dos afro-americanos que foram para a Rússia na onda de imigração da Grande Depressão buscava uma vida melhor. A URSS precisava de educadores, engenheiros, especialistas em agricultura e outros trabalhadores qualificados.

Assim, a experiência de levar afro-americanos à URSS foi um sucesso: eles não apenas relataram ter sido tratados com dignidade pela primeira vez na vida, como também encontraram bons empregos, com benefícios e férias.

Cerca de 18.000 norte-americanos responderam ao chamado soviético na década de 1930, de acordo com o que disse o professor de história da Universidade de Boston, Allison Blakely, em entrevista à Universidade de Boston.

Os anos McCarthy e o trágico destino de Paul Robeson

Robeson chegou a ser, por certo período, o mais famoso afro-americano dos EUA – e, possivelmente, do mundo todo. Suas músicas foram traduzidas para 25 idiomas em quatro continentes.

Isto lhe rendeu o título de cidadão do mundo, e ele fez amizades com gente como o líder africano Jomo Kenyatta e o indiano Jawaharlal Nehru, além de intelectuais judeus na Rússia daquela época.

Robeson diz em seu livro “O Povo Negro e a União Soviética”: “Sinto que vou além de meus sentimentos pessoais e coloco meu dedo no verdadeiro cerne do que a União Soviética significa para mim, ou seja, para um negro que é norte-americano. A resposta é muito simples e muito clara: a própria existência da União Soviética, seu exemplo perante o mundo de abolir toda a discriminação de cor ou nacionalidade, sua luta em todas os cenários de conflitos mundiais por uma democracia verdadeira e pela paz, tudo isto deu a nós, negros, a chance de alcançar nossa completa libertação dentro de nosso próprio tempo, dentro desta geração”.

Cartaz do filme

A família deste barítono passou por muitas dificuldades. Seu pai era um escravo que havia fugido e a mãe vinha de uma família quaker abolicionista. Robeson, portanto, tinha um discurso muito claro sobre políticas discriminatórias e as políticas de divisão norte-americanas daquela época.

Com um aumento da fama de Robeson, sua posição sobre a escalada da Guerra Fria com a URSS também ganhou os holofotes. Assim, seu ativismo logo levou a interrogatórios do Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara e a acusações de ele ser comunista.

Logo após isto, Robenson teve 80 apresentações canceladas e dois shows em Nova York atacados por grupos racistas sem qualquer intervenção da polícia.

“Vou cantar onde as pessoas quiserem me ouvir cantar e não vou me intimidar com as cruzes queimando em Peekskill ou em qualquer outro lugar”, foi sua resposta então.

Os anos 1950 foram diferentes. A dissidência se tornou uma “doença”, a “ameaça vermelha” se espalhou como fogo. Durante a guerra, a opinião de Robeson sobre a União Soviética não causava furor, já que os EUA eram aliados dos soviéticos.

Nem mesmo o criticado Pacto Molotov-Ribbentrop – que era visto por Robeson como uma forma positiva para deter o massacre nazista na ausência de qualquer cooperação da Grã-Bretanha e da França – tinha sido usado contra ele antes.

Mas o governo McCarthy mudaria tudo isso, revogando seu passaporte e proibindo que ele viajasse além de adicioná-lo à lista negra de Hollywood, pondo um ponto final a sua carreira como ator.

Mas Robeson não parou. Ao invés disso, ele se encontrou com Albert Einstein para discutir a paz mundial, publicou uma autobiografia e começou a falar também mandarim.

Psicopata?

A gota d’água foi o discurso de Robeson na Conferência de Paz de Paris, em 1949, quando ele teria clamado que os negros americanos se recusassem a pegar em armas contra a União Soviética.

Isto resultou em sua rotulação como traidor. Apesar de seu discurso exato ser tema de muito debate, Robeson nunca negou veementemente ser comunista, o que dava ao governo os motivos de que ele precisava para sua perseguição.

Robeson com pioneiros (movimento soviético equivalente ao dos escoteiros) no acampamento internacional Artek, na Crimeia.

De acordo com ensaio do pesquisador Tony Perucci, o governo dos EUA contava então com a colaboração de psicanalistas como arma de perseguição, e juntos eles buscavam “eliminar a dissidência contra a ordem política norte-americana”.

Para eles, os comunistas eram mestres do disfarce, e tão bons nesta arte que apenas a psicanálise podia fazer cair sua máscara. Assim, não demorou muito para eles encontrarem uma solução: quem defendia ideias comunistas era declarado louco.

Falar sobre a Guerra Civil Espanhola, trabalho internacional, segregação e colonialismo, tudo isto era considerado uma atitude antiamericana – e levou Robeson a um diagnóstico de “psicopata”.

Robeson como membro do Conselho da Paz Mundial em Moscou, em junho de 1958.

De acordo com artigo do pesquisador Matthew Wills, um congressista do Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara perguntou a Robeson, em 1956, por que ele não se mudava para a URSS se amava tanto o lugar, ao que ele respondeu: “Porque meu pai era um escravo e meu povo morreu para construir este país, e ficarei aqui e terei parte no país, assim como você”.

Só em 1958 o passaporte de Robeson foi restabelecido, graças à Suprema Corte dos EUA. Ele viveu o resto de seus dias na obscuridade, e sofreu física e mentalmente até a morte, em 1976.

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