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Postado em 03/03/2019 11:09

O Aquífero Furnas e a obstinação do lucro

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Publicado no Diário dos Campos em 02/03/2019.

O Aquífero Furnas é uma unidade rochosa situada debaixo de Ponta Grossa que atualmente já supre perto de 20% da água potável consumida na cidade, o que vem crescendo anualmente. É água de muito boa qualidade, um poço artesiano no Bairro San Martin produz água mineral natural que é envasada e comercializada em toda a região.

Na rocha a água encontra-se em fraturas e cavidades resultantes de erosão subterrânea, tal como se vê no Buraco do Padre. São as chuvas que recarregam as águas do aquífero: elas penetram no subsolo na parte leste da cidade, na área do Capão da Onça, Cachoeira do Rio São Jorge e da Mariquinha, do Buraco do Padre, onde os arenitos da Formação Furnas afloram na superfície do terreno. É a chamada área de recarga do aquífero. De lá a água caminha subterraneamente até o subsolo da cidade, onde é extraída pelos poços ditos artesianos.

Hoje essa água já tem importância decisiva no abastecimento da cidade, mas a previsão é que no futuro próximo tenha muito mais. A água subterrânea é abundante e de muito boa qualidade, dispensa tratamento, não depende de redes de distribuição nem das condições climáticas. E é bom lembrar que mesmo Ponta Grossa, situada em região com chuvas generosas, já tem tido complicações hídricas em consequência de problemas de tratamento e/ou distribuição e de estiagens prolongadas combinadas com verões tórridos.

Globalmente a água tem sido anunciada como o recurso natural mais escasso do Século XXI. Por isso os aquíferos têm um valor estratégico enorme. Mas correm o risco de serem poluídos, o que significaria perda irreversível, pois eles não são recuperáveis. Essa é a razão da legislação recente empenhar-se em proteger os aquíferos, alertando para a importância das águas subterrâneas no mesmo nível das superficiais.

Por esses motivos a legislação, mas sobretudo a ética e a responsabilidade, preconizam que, em existindo outras alternativas, as áreas de recarga dos aquíferos não devem ser locais de instalação de potenciais poluidores, tais como indústrias com efluentes, reservatórios de combustíveis, aterros sanitários e outros.

Por isso a PGA – Ponta Grossa Ambiental – e todos os cidadãos ponta-grossenses sensatos e responsáveis deveriam estar procurando resolver o urgente problema de disposição de resíduos sólidos na cidade noutro local que não justamente a área de recarga do Aquífero Furnas a leste da cidade, como é o caso do pretendido aterro sanitário privado da PGA junto ao Rio Verde. As obras do aterro estão embargadas por sucessivos processos desde 2009, com denúncias, entre outras, de risco ao Aquífero Furnas, impacto em áreas de proteção permanente (nascentes e veredas) e em unidades de conservação (Parque Nacional dos Campos Gerais, Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, Parque Municipal do Capão da Onça). Os processos em que a PGA é ré estão em trâmite na Justiça Federal, mas os empreendedores negam-se obstinadamente a reconhecer que o local é o menos indicado do município para um aterro sanitário.

O que estaria movendo tal obstinação? O desejo de resolver o crônico problema do lixo em Ponta Grossa? Ou a desmesurada ambição de lucro de um megaempreendimento destinado a receber não somente o lixo da cidade, mas também todo o lixo da Região Metropolitana de Curitiba, como chegou a ser anunciado em 2009?

Naquele ano os jornais estamparam que Ponta Grossa seria a capital do lixo do Paraná. Há quem ainda sonhe com isso.

Mario Sérgio de Melo, geólogo

 

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