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Postado em 19/10/2018 3:15

O Che e a economia mundial

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por Rémy Herrera [*]

São numerosas as investigações sobre o pensamento de Ernesto Che Guevara quanto à economia, mas raras são as que abordam a sua dimensão em relação à economia mundial. Com efeito, este aspeto é frequentemente negligenciado, relegado para segundo plano em relação às posições que ele exprimiu a propósito da política internacional e, portanto, também mal compreendidas – ou mesmo manipuladas – tanto para o opor artificialmente a Fidel Castro, como para o virar contra a URSS.

Che não era economista (de formação académica); foi talvez o que lhe permitiu pensar, bebendo em vias heterodoxas, e pôr em causa verdades instituídas em economia, e aventurar-se em reflexões originais e corajosas na época. A realidade das suas responsabilidades no seio da direção da revolução cubana (comandante militar, dirigente do Banco central, ministro da Indústria…) obrigou-o a articular, nesta dimensão internacional, a dimensão nacional das questões estudadas. O seu pensamento sobre a política internacional não pode ser separado do seu pensamento sobre a economia mundial.

Comecemos por uma questão fundamental: Che apoia-se, nos seus raciocínios, no aparelho teórico-prático do marxismo-leninismo. Era comunista, quer queiramos ou não. Mas manifestou, desde muito cedo, uma certa inquietação face à insuficiência do socialismo existente em desenvolver os seus próprios mecanismos económicos para reforçar a sua posição na competição que lhe era imposta pelo sistema capitalista, que dominava à escala mundial. Tinha dito um dia: ” Pertenço, pela minha formação ideológica, ao campo dos que pensam que a solução para os problemas do mundo se encontra por detrás da cortina de ferro “. Mas não hesitou em criticar o uso não crítico das relações comerciais e monetárias no quadro das reformas adotadas pela URSS nos anos 60 – como, aliás, também o fez Fidel, por exemplo, no seu discurso no 6.º aniversário da revolução cubana (1965). É nesta ótica que é preciso interpretar os apelos lançados por Che aos países socialistas para apoiar os países do Terceiro Mundo e para formar, em conjunto com eles, uma frente comum, a fim de modificar a relação de forças mundiais, a favor do bloco progressista, especialmente para fornecer aos países que se tinham tornado independentes, os meios de dispor de um escudo de proteção, perante a agressividade do imperialismo.

Che certamente sentiu-se satisfeito com a cisão do sistema mundial – e o enfraquecimento das posições capitalistas – depois de os países do Terceiro Mundo se terem tornado independentes politicamente; mas também se mostrou preocupado perante as grandes dificuldades desses países em consolidar a sua independência política, dada a evidente dependência económica em relação às antigas potências colonialistas. No seu discurso em Argel, em fevereiro de 1965, pronunciado aquando do 2.º Seminário Económico Afro-asiático, Che declara: ” Sempre que um país se liberta, é uma derrota para o sistema imperialista mundial, mas o facto de conseguir libertar-se desse sistema não pode ser considerado como uma vitória com a simples proclamação da independência, nem sequer com o triunfo duma revolução pelas armas: só haverá vitória quando o domínio imperialista deixar de se exercer sobre um povo “.

Compreender isto exige pôr em interação as dimensões nacional e internacional, porque a base nacional dos países em causa é o subdesenvolvimento, Che define-o deste modo: ” Um anão com uma grande cabeça e um peito estreito é “subdesenvolvido” no sentido de que as pernas fracas e os braços curtos não estão em proporção com o resto da anatomia. O subdesenvolvimento é produto de um fenómeno teratológico (ou seja, relativo à ciência das anomalias da organização anatómica, congénita e hereditária, dos seres vivos… Che também era médico!) que distorceu o seu desenvolvimento. É isto que somos, nós que somos classificados com tanta delicadeza de “subdesenvolvidos”: países coloniais, semicoloniais e dependentes; países cujas economias foram deformadas pela ação imperialista, que desenvolveu anormalmente os ramos industriais e agrícolas, em complemento da sua complexa economia imperialista. O subdesenvolvimento, ou desenvolvimento disforme, implica especializações perigosas no setor das matérias-primas, que mantêm os nossos povos sob a ameaça da fome. Nós, os “subdesenvolvidos”, também somos os países da monocultura, da monoprodução, do monomercado “.

Che não se limita a caracterizar a realidade sociocultural dos países do Terceiro Mundo na sua componente interna; também explica os fatores que condicionam essa situação no plano internacional, na sua componente externa. Estes países estão deformados, diz ele, porque são explorados. É uma contribuição teórica, em relação ao corpo da economia do desenvolvimento dos anos 50. Mas, em certo sentido, também é um avanço em relação a Marx, na medida em que, durante muito tempo, Marx e Engels consideravam que a irremediável expansão do sistema capitalista conduziria à homogeneização do mundo, para generalizar a essa escala a oposição das classes burguesas/proletárias, ou seja, o antagonismo fundamental. Apesar de Marx e Engels, em certos casos, terem tentado articular a exploração de classes e o domínio de nação para nação. Ao insistir neste domínio internacional, Che neste sentido é muito leninista.

Segundo a definição do subdesenvolvimento que propõe, as economias do Terceiro Mundo não estão apenas deformadas – se assim fosse, podiam encontrar-se várias soluções. O que é mais grave é que essas economias estão dependentes e o domínio do exterior determina a reprodução das condições que geram e explicam o subdesenvolvimento. Com efeito, esse subdesenvolvimento não passa de uma forma distorcida do desenvolvimento nos países capitalistas do Norte, que se verifica no Sul. A natureza do sistema capitalista é assim contraditória: este sistema produz, no mesmo movimento, um desenvolvimento num polo e um subdesenvolvimento no outro polo. Para Che, é pois necessário insistir na necessidade da independência económica dos países do Sul, como meio de impedir a recolonização económica ou neocolonização pelo Norte.

Mas é preciso compreender os mecanismos específicos do neocolonialismo, que sabe reconhecer a independência dos Estados, formais, que se mantêm dependentes. Numa conferência de 20 de março de 1960, na ” Universidade popular ” em Cuba, Che diz: ” Os conceitos de soberania política e nacional mantêm-se uma ficção se não houver independência económica “. Ele apercebe-se da enorme importância da contribuição dos países socialistas para o esforço dos países do Terceiro Mundo para alcançar essa independência económica. É o que o leva a dizer: ” O desenvolvimento dos países subdesenvolvidos tem que sair caro aos países socialistas …”. Esta citação é muito referida, mas truncada, e distorcida, com a intenção de apresentar um Che oposto aos países socialistas da época, hostil à URSS. Com efeito, ele insiste, logo a seguir, na responsabilidade que também incumbe aos países do Terceiro Mundo para chegar à independência económica e contribuir para consolidar as forças revolucionárias, acrescentando: “… mas os países subdesenvolvidos também têm que se mobilizar e empenhar-se decididamente no caminho da construção duma sociedade nova. Não será possível ganhar a confiança dos países socialistas, tentando encontrar um equilíbrio entre o capitalismo e o socialismo, e utilizar essas duas forças em contrapeso uma da outra para tirar vantagens dessa concorrência “. Isto é tão claro como o início da citação – apesar desta clareza perturbar certas pessoas…

Também analisa os instrumentos utilizados pelo imperialismo para submeter e explorar os países do Terceiro Mundo, e sublinha o papel dos investimentos estrangeiros na tomada de controlo dos recursos naturais do Sul, ou o papel das trocas desiguais no comércio mundial. Podemos considerá-lo precursor das ideias terceiro-mundistas de defesa da soberania do Sul quanto às atividades económicas – reivindicação que veio a generalizar-se mais tarde, nos anos 70. Também põe a tónica no problema da dívida externa, no início dos anos 60, prevendo a crise que explodirá 20 anos depois. É mais uma contribuição de Che.

Aquando da 1.ª reunião da CNUCED, em 1964, em Genebra, Che vai denunciar os princípios – fictícios, segundo ele – da igualdade formal entre países, de reciprocidade nas relações comerciais, tal como a injustiça da ordem económica mundial, exigindo a sua transformação. Propôs instituir uma ligação entre os preços das matérias-primas e o pagamento de dividendos e de juros que antecipa a ideia da indexação dos preços das matérias-primas aos produtos manufaturados, que a CNUCED em breve iria promover.

A base do raciocínio de Ernesto Guevara é a identificação entre a luta contra o subdesenvolvimento, a luta contra o imperialismo e a luta contra a ordem mundial tal como ela é. Segundo ele, a saída do subdesenvolvimento não pode ser separada do anti-imperialismo, porque o imperialismo é o obstáculo que reproduz a dependência do Sul. Mas, ao mesmo tempo, não é possível lutar contra o imperialismo sem quebrar, concretamente, os instrumentos do exercício do seu poder. É por isso que defendeu uma “nova ordem mundial” e – para conseguir essa transformação – em favor da unidade do Terceiro Mundo. Em Argel, em 1965, declara: ” Se o inimigo imperialista, norte-americano ou qualquer outro, prossegue a sua ação contra as nações subdesenvolvidas e contra os países socialistas, uma lógica elementar impõe a necessidade da aliança dos povos subdesenvolvidos e dos países socialistas “. Portanto, ” se não houvesse outro fator de união, o inimigo comum devia ser suficiente “.

Falemos agora de uma questão delicada que é necessário abordar para dissipar um mal-entendido. A importância que Che atribuiu às relações Norte-Sul levou determinados comentadores a leituras erróneas do seu pensamento; como quando deram a entender que, segundo ele, a verdadeira contradição não residiria entre o capitalismo e o socialismo, mas entre países desenvolvidos e países subdesenvolvidos. É preciso perceber que, embora Che tenha sublinhado muitas vezes o papel determinante das relações Norte-Sul, nunca fez desaparecer o papel das relações de classes. Eu já o disse: Che era comunista, marxista-leninista. Os seus escritos e discursos dirigem-se todos para o objetivo da chegada do socialismo mundial. Nisso, é muito marxista. Porque é difícil, ou mesmo impossível, apreender o pensamento de Marx, tanto político como teórico, sem o relacionar sistematicamente com esta convicção da vitória mundial do socialismo.

Mas Che coloca os países socialistas perante as suas responsabilidades. Tinha consciência da exigência de consolidar as posições do socialismo mundial e criticou as ações que corriam o risco de afastar os países subdesenvolvidos do socialismo. Falou mesmo de uma troca desigual entre países socialistas e Terceiro Mundo, desta forma: ” Se estabelecermos este tipo de relações [de trocas desiguais] entre estes dois conjuntos de países, temos que concluir que os países socialistas, de certa forma, são cúmplices da exploração imperialista. Pode-se argumentar que o montante das trocas com os países subdesenvolvidos representa uma parte insignificante do comércio exterior desses países. É perfeitamente verdade, mas isso não elimina o carácter imoral da troca “. E conclui: ” Os países socialistas têm o dever moral de liquidar toda a cumplicidade com os países exploradores ocidentais “. Era corajoso. Mas isso não torna Che, longe disso, um inimigo da URSS. Porque a realidade não era essa. Che não era mais complacente nem menos crítico, em relação aos países do Terceiro Mundo, a quem se dirigiu para que eles liquidassem no seu solo os instrumentos de exercício do poder efetivo do imperialismo e decidissem ” empenhar-se resolutamente na via da construção ” do socialismo. A tarefa histórica dos povos do Sul consiste, portanto, em eliminar as bases do imperialismo nos seus países, ou seja, todas as fontes de lucros, de extração das matérias-primas ou de abertura dos mercados.

Para Che, o inimigo é o imperialismo, considerado também como um sistema mundial – como o diz na sua mensagem para a Tricontinental : ” O imperialismo é um sistema mundial, última etapa do capitalismo, que trata de vencer por uma grande confrontação mundial “; e, enquanto sistema dinâmico, adapta-se às condições em mudança do mundo e utiliza instrumentos sempre novos para atingir os seus objetivos de destruição dos países do Sul – foi o que declarou na conferência da Organização dos Estados Americanos, em 1961. Daí a sua estratégia revolucionária: a luta dos povos deve ser multidimensional, global, longa, deve mobilizar todos os países explorados pelo imperialismo, desenvolver-se em todos os terrenos. O imperialismo, sobretudo o norte-americano, é o inimigo comum da humanidade e, perante ele, os países socialistas e os progressistas devem unir-se, quaisquer que sejam as suas divergências pontuais. Essas divergências são uma fraqueza mas, sob os golpes do imperialismo, a união prevalecerá.

Passaram-se cinquenta anos sobre a morte de Che. O mundo mudou imenso desde então, mas o essencial do seu pensamento sobre a economia mundial conserva, segundo penso, a sua atualidade e pertinência.

[*] Investigador do CNRS (Centro de Economia da Sorbonne), remyherrera.com/index.php/fr/

Tradução de Margarida Ferreira.

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