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Postado em 14/05/2017 5:39

O declínio do Ocidente revisitado

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 Pepe Escobar, Sputnik
Europa, na mitologia grega, foi uma princesa fenícia raptada por Zeus e arrastada para Creta. Com o tempo, Europa viria a designar o extremo ocidental da Eurásia. Essencialmente, Europa foi a semente ocidental muito provinciana que gerou um polvo de mil braços: o ocidente global.

 

Mais de cinco séculos depois da Era dos Descobrimentos, todos sabemos que um longo ciclo histórico está chegando ao fim. O Declínio do Ocidente é forma abreviada de uma trama de complexidade imensa – diretamente proporcional à ascensão do século da integração da Eurásia, puxada adiante pelas Novas Rotas da Seda da China.

Sempre que cavo mais profundamente no Declínio do Ocidente, tenho de voltar às raízes. E isso significa – ecos de Stendhal, Keats, Nietzsche – uma Jornada à Itália. Recentemente embarqueilongo diálogo com Maquiavel em Florença. Dessa vez, a eleição presidencial na França se aproximava, amplamente comentada como momento em que o ocidente “civilizado” estaria diante de uma divisão crucial.

Decidi-me a ler Decadence, do explosivo filósofo e fundador da Universidade Popular de Caen,Michel Onfray.[1] Sua tese é devastadora: a civilização judaico-cristã, vale dizer, o Ocidente, foi erguida sobre uma ficção, “de um Jesus que jamais teve existência que não fosse alegórica, metafórica, simbólica e mitológica.” Mais de mil anos de história da arte lhe conferiram “o corpo de um homem branco, de cabelo alourado e barba rala” (e onde melhor examinar o tal corpo, se não mediante a arte do Renascimento?) E “nada que constitui esse retrato emblemático encontra qualquer justificativa em algum versículo, nem num único, que fosse, do Novo Testamento.”

Assim, Onfray escreve, “toda nossa civilização é baseada na tentativa de dar um corpo àquele ente que só tem existência conceitual.” Jesus de Nazaré, “que não existiu historicamente”, torna-se o “Cristo Pantocrator” (palavra grega: “aquele que tudo governa”), “cristalizando sob seu nome quase dois mil anos de uma história ocidental saturada dele.”

São Paulo ridicularizado e expulso da ágora

Eis pois o mapa da jornada: o Cristianismo como história oficial do ocidente – num conflito quase perpétuo com a filosofia grega antiga. E então mais uma vez a retraçar os passos de como o humanismo – e o Iluminismo – elevaram por breve tempo o espírito humano, até que o matadouro que foi o século 20 levou ao que temos hoje, o fim da ideologia, à Era da Raiva [Age of Anger].

Comecei em Turim num jantar com o grande Gianni Vattimo, um dos mais destacados últimos intelectuais europeus. Frágil, mas ainda agudíssimo, Vattimo é como uma encarnação viva de um mundo que agoniza. Ofereci minha homenagem ritual a Nietzsche (“não há fatos, só interpretações”), aplicado admirador dos pré-socráticos, na casa onde ele escreveu Ecce Homoantes de sucumbir à loucura. Em Milão, vi a Rota da Seda ao contrário na Porta Nuova, no momento em que a cidade reforça cada vez mais os mil laços que a unem à China.

Andando para o sul, rumo a Florença, não conseguia parar de pensar – numa obsessão à Nietzsche – sobre São Paulo, naquelas suas incontáveis peregrinações a Éfeso, Antióquia, Corinto, Pérgamo, Tiro, reunindo-se com pitagóricos, platônicos, epicúreos, estoicos, cínicos, em ágoras nas quais davam aulas da art de vivre deles segundo a razão, sempre misturados aos mercadores, tecelões, pescadores locais.

Paulo odiava os filósofos. O Novo Testamento refere-se a Paulo na ágora em Atenas onde se desenrolaram um dia os elogiados diálogos entre Sócrates e Platão, Platão e Aristóteles, e tantos e tantos debates neoplatônicos. Aquela cidade cheia de “ídolos” o horrorizava. Ele pregava a “ressurreição da carne”, a abolição do paganismo e de uma multidão de deuses tolerantes, substituídos por um deus único e intolerante. Puro delírio: aquilo só podia ter saído de seguidores de Zenon ou de Epicuro, para gargalhadas gerais.

Depois, foi Helena, mãe do imperador Constantino, que converteu a Cruz em grande negócio político. Helena inventou não só a peregrinação à Terra Santa, mas também as Cruzadas – aquela duradoura instância histórica da jihad cristã.

Constantino, estrategista oportunista, cínico, compreendeu que para pôr fim à fragmentação política do Império Romano e domar a ira popular a melhor maneira seria adotar uma seita judaica menor, obscura, que garantisse que os pobres permanecessem pobres (é o desejo de Deus [Deo vult, Deo non vult (NTs)] e que o poder existe porque Deus o conferiu aos que o possuem (tudo a ver com o excepcionalismo americano?)

Quando, dia 22 de maio de 337, Constantino converte-se ao cristianismo, converte também todo o império; mata Roma como o centro do mundo (não deveria esquecer que Augusto, fundador do Império Romano fora discípulo devotado do Apolo pagão); cria a civilização judaico-cristã; e abre o caminho para o que virá a ser o Ocidente.

Onfray sintetiza: Roma durou 11 séculos. Até que “a Loba foi comida pelo Cordeiro” – e “esse foi o festim inaugural de nossa civilização judaico-cristã.”

Epicúreos pela Toscana

Cínicos – e epicúreos – preferiam outras modalidades de comemoração. Àquela altura eu já chegara à Toscana, armado com uma edição de bolso das Cartas de Epicuro. Diante de mim o sublime Vale de Orcia, digno de uma obra prima renascentista; Baco pulando de dentro de uma garrafa perfeita de Brunello na fortaleza em Montalcino; a mágica simples de água e farinha saboreada numa [massa] pici de Siena.

E, como espetáculo paralelo, num registro pagão romano revisitado, lá estava eu a braços com rememorações de La Dolce Vita. Como Luchino Visconti dirigiu Cineccitta. Como Antonioni retratou o eclipse do sentimento transpondo para a tela a vida que vivera com Monica Vitti. Como Fellini foi preso pela polícia de New York no Cadillac preto de seu produtor Dino de Laurentiis, só para ser homenageado pelos policiais como Deus vivo.

Nas suas Cartas, Epicuro ensina uma antinomia radical à cristandade. Tudo o que existe são átomos, nada além de átomos que caem sobre o vácuo (nada de ressurreição da carne, nunca mais); só se alcança a serenidade pelo estudo da física atomista (nada de homens governados pelo temor a Deus); e ainda mais subversivamente, o prazer é a origem do bem e reside na satisfação dos desejos naturais e necessários (nada de ascetismo cristã, penitência, pecado original – e infindável expiação do pecado).

Não surpreende que, por séculos, o cristianismo teve de sufocar essa filosofia e hedonista, sensualista. Só três cartas de Epicuro sobreviveram à Inquisição Católica, porque haviam sido incluídas num volume do século 3º por um historiador da filosofia, Diógenes Laércio. E o epicurismo reapareceu nos 7.415 versos de De Rerum Natura, de Laércio. Que extraordinária virada histórica: a destruição do trabalho de Epicuro O Grego pelos cristãos foi em grande medida impedida por um poema imenso escrito por Lucrécio O Romano.

De Rerum Natura foi descoberto por Poggio Bracciolini em janeiro de 1417 num monastério alemão. A primeira edição é publicada em Brescia em 1473. Dentre seus leitores entusiastas estão Erasmo, Montaigne, Maquiavel, Spinoza, Pascal, Galileu, Newton. A Europa desperta realmente para a vida, quando o humanismo ultrapassa o cristianismo.

Poggio Bracciolini viajou por toda a Europa, como Petrarca, que procurava por manuscritos gregos e romanos desde os anos 1330s. Quando Poggio redescobre Lucrécio, constrói a Europa intelectual; a visão de mundo que põe o homem no centro onde, já fazia um milênio, o cristianismo havia instalado Cristo. Retórica, história, poesia, filosofia, letras, arquitetura, todas essas disciplinas que haviam brilhado antes de Cristo – e viraram ferramentas para os fantasmagóricos autos-de-fé cristãos – finalmente foram libertadas.

Nenhum lugar é melhor que Florença para refazer os passos dos humanistas que criaram a Europa sem cristãos. Tomem Niccolo Niccoli; quando morreu, em 1437, havia recolhido 800 manuscritos, a mais espetacular coleção de Florença. E ele mesmo, sozinho, inventou o conceito de biblioteca pública, de onde qualquer um pode tomar emprestado o livro que quiser.

Onfray sintetiza magnificamente: “Constantino e seus seguidores puseram porta a fora o pensamento antigo; Petrarca, Niccoli e Poggio o trouxeram pela janela, novamente para dentro.”

Cara, você vai carregar esse peso!

E em nenhum lugar mais e melhor do que na Toscana se pode reviver o modo como a mitologia cristã foi vendida às massas – muito diferente do destino que tiveram as eulógias do paganismo grego. A perfeição estética do David adolescente, espetacularmente insolente, de Donatello; aPrimavera neoplatônica de Botticelli ou o Mercúrio de Giambologna brilham tanto quanto aAnunciação de Leonardo e, mais que todas, a Adoração dos Magos, inacabada, restaurada meticulosamente com a mais alta e complexa tecnologia.

E então ela nos derruba: uma obra prima de Piero Della Francesca, a Lenda da Verdadeira Cruz , na Basílica de São Francisco em Arezzo.

São Francisco venerava absolutamente o símbolo da Paixão. Toda a saga está pintada numa espécie de cinemascope renascentista, em séries 4K de afrescos – também meticulosamente restaurados. Piero baseou a ‘narrativa’ em lendas associadas à madeira da cruz na qual Cristo foi crucificado, incluídas nos Evangelhos Apócrifos originados na Ásia e conhecidos como “A Lenda Dourada”.

Impossível não ver o simbolismo: Deus intervém sempre; é Ele quem garante a redenção e, no final, as forças do mal serão destruídas.

Não surpreende que a Lenda Dourada tenha tido tanto sucesso durante as Cruzadas. Um dos capítulos, a profanação da Terra Santa por infiéis foi usada como propaganda muito efetiva para a conquista militar.

Mas Piero, com rigor formal inigualado, transcende a propaganda e a converte num épico, num orgasmo estético modernista tipo ‘menos é mais’, mesmo que a mensagem continue a ser um mito. A Anunciação de Piero – o ponto alto, pode-se dizer do ciclo de afrescos – simboliza um rito de passagem para o homem: condenado pelo pecado original, de Adão até Cristo, ele afinal chega à era da Cristandade, quando a fé na salvação, possível pelo sacrifício do Redentor, é sinal de esperança.

Mas bem mais de um século antes de Piero, o ciclo Ambrogio Lorenzetti de afrescos, pintados entre 1338 e 1339 no Palazzo Pubblico em Siena já sinalizava fenômeno muito mais revolucionário: o triunfo da política, sensível, humana, nada divina.

Essa meticulosa intervenção do homem que constrói uma concepção ético-estética de sociedade civil ainda hoje é coisa de arrasar a cabeça de qualquer um. Em sua Alegoria do Bom Governo[Allegory of Good Government], Lorenzetti pintou nada menos que os efeitos do bom governo, numa espécie de utopia: uma cidade medieval solar, serena, laboriosa, numa relação simbiótica com a região interior, produtiva. Algo que o Ocidente perdeu – talvez para sempre.

Ao longo da história, o Ocidente foi elevado e preservado como uma fábula preciosa, imaginada até a morte, celebrada como fonte de civilização, profundamente religiosa, exemplo de secularismo, imperial, colonial, política. É muito fácil esquecer que, para aqueles cristãos que ‘descobriam’ o novo mundo, o ocidente não era a antítese do oriente, mas seu sucessor divino. Agora, o pêndulo oscila de volta para o ponto de onde partiu.

De volta para Paris, atravessando a epicúrea Bolonha – lar dos tortellini definitivos –, tive tempo para reviver um clamor menos modernista, via uma edição bilíngue, de bolso, dos Cantos de Piza[Pisan Cantos, 1948] de Pound, uma espécie de pré-réquiem para o Declínio do Ocidente. As a lone ant from a broken ant-hill/ from the wreckage of Europa, ego scriptor [aproximadamente, apenas para ajudar a ler: “Como formiga solitária de um formigueiro partido / do naufrágio da Europa, ego scriptor (latim no orig.: “eu escrevi”/”eu escritor”) (NTs)].

Pull down thy vanity [aproximadamente, apenas para ajudar a ler: “Derruba tua vaidade” (NTs)], repetida como feitiço no canto LXXXI, soa como mensagem pungente aos dois milênios do cristianismo. E logo, entrando no trem, vejo o novo faraó francês, Ramsés Macron, estudadamente e cinematograficamente andando para sua pirâmide no Louvre, para celebrar mais um triunfo ocidental rumo a um Bravo Novo Mundo Neoliberal.******
[1] Valha o que valer, há longa matéria em português sobre o autor, em IHU-Unisinos, 25/2/2017, http://www.ihu.unisinos.br/565253-a-beira-do-cristianismo-michael-onfray-contempla-a-morte-do-ocidente (reportagem de Jean-Pierre Denis, publicada em La Vie, 12/1/2017, trad. de André Langer [NTs].
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L’armata Brancaleone – Lo nero periglio che vien da lo mare

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