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Papo do Dia

Postado em 10/01/2019 8:58

O PODER MANDA, O GOVERNO EXECUTA, A INFORMAÇÃO ILUDE

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Pedro Augusto Pinho*

Pimeira Parte: O Poder

O Poder não é um princípio imaterial. Quando alguém se refere ao poder do comunismo, deverá estar se referindo a um Estado, a um partido ou a uma liderança que seja capaz de conduzir alguém para o sistema comunista.

Mas também não pode ser tão vago que deixe dúvida. Que comunismo? O das populações primitivas? O de missões de jesuítas na América do Sul? O materialismo dialético de Marx-Engels?

Ao afirmar que o poder que nos pressiona e conduz, atualmente, é o poder do sistema financeiro internacional (banca), devo definir os objetivos e os agentes deste poder. Se não o conseguir, terá sido uma afirmação vã, como o comunismo que ameaça o Brasil.

Comecemos por definir os objetivos da banca.

Como sabem meus esclarecidos leitores, as fontes de rendas são diversas. Há aquelas decorrentes do trabalho, que denominamos salários e direitos autorais; as obtidas de propriedades imobiliárias, os alugueis; as cobradas pelos Estados, os tributos; as resultantes das atividades industriais, comerciais, de serviços, os lucros, e outras.

A banca pretende e age para que todas estas rendas sejam canalizadas para o sistema financeiro.

Como faz isso?

Pela dívida. A dívida, como já pude detalhar em artigos anteriores, é a principal arma para conquista do poder pela banca. E ela consegue inúmeros adeptos, na grande maioria absolutamente ingênuos, sem saber o quanto estão perdendo de usufruir vida melhor pelas ações da banca. Exemplo: o vendedor que lhe procura convencer a pagar a prazo, o que você pode pagar a vista, pois você ficará com mais dinheiro para outras despesas.

E para construir a dívida, inclusive dos Estados, a banca usa e abusa da corrupção. Pode-se afirmar, sem receio ou erro, que a grande corrupção, a propagação dos ilícitos, nessa nossa existência, deve-se primordialmente à banca.

Outro objetivo da banca é promover a permanente concentração de renda. É objetivo autofágico.

Agora sabemos o nome do poder, como age e quais seus objetivos.

Há outro dado importante: a vinculação da banca com atos ilícitos.

Quando Margaret Thatcher e Ronald Reagan (governos), agindo por instruções da banca, promoveram as desregulações no sistema financeiro, colocaram os ganhos ilícitos – tráfico de drogas, de órgãos humanos e de pessoas, contrabando de armas, caixas 2 e outras ações políticas e corruptas – em instituições da banca. Uma pesquisa sobre movimentações financeiras de fonte não identificada, na década 1990/99, leva-nos a concluir que o aporte dos ilícitos à banca foi da ordem de US$ 4 trilhões. Podemos acrescentar que as atividades ilícitas e a banca atuam em comunhão de interesses.

Vejamos, agora, quem é a banca.

A concentração de renda e a contínua especulação com os valores financeiros  dificultam a hierarquização da banca por seus patrimônios.

Há vinte e cinco/trinta anos seria um pouco mais fácil, pois a banca era composta pelas trilionárias famílias, como os Windsor britânicos, os Orange holandeses, os Rothschild judaicos etc. Hoje, ou melhor, a partir deste século XXI, são empresas que administram os fundos, formados não só por estas famílias como por trabalhadores e todos que imaginam ser possível, no modelo da banca, melhorar suas condições de vida.

O chamado mercado nada mais é do que o enorme cassino onde a banca faz suas apostas. Quanto mais apostadores, maior a probabilidade da banca se apoderar das poupanças alheias. É por esta razão que a banca promove campanhas de privatizações, a extinção de previdências públicas, para só as ter privadas, colocar nas pessoas medo de um futuro fora do “mercado”, restringir orçamentos públicos com “tetos”, “austeridades”, “limites de gastos”, exceto para os gastos com juros e encargos financeiros.

Não há, fora da teoria, qualquer competitividade. Pois a banca está em todos os conselhos de todas as empresas. E as pessoas que pertencem a famílias ricas ou de classe média confortável podem ter professores, tempo para frequentar ambientes culturais, dinheiro para viajar e levam enorme vantagem sobre os que precisam trabalhar e estudar simultaneamente. Os pobres aprovados em concursos de avaliação cognitiva são minorias ínfimas, quando acontece haver algum.

Em relação a competição entre empresas, a Presidente Dilma ofereceu um caso notável, reportado pelo jornalista Luis Nassif, em artigo de setembro de 2014, “Como Dilma conseguiu perder o apoio da indústria”. Ao qual respondi, no mesmo GGN, de Nassif, em 03/08/2018, com “Assim é (se lhe parece)”, de onde transcrevo:

“A FIAT tem como seus cinco maiores acionistas:

1 – Exor NV (empresa italiana de investimentos);

2 – Baillie Gifford & Co.;

3 – Harris Associates LP;

4 – Blackrock; e

5 – The Vanguard Group.

A VOLKSWAGEN tem como cinco maiores acionistas:

1 – Qatar Investment Authority;

2 – The Vanguard Group;

3 – Causeway Capital Management;

4 – Amundi Asset Management; e

5 – Blackrock.

A GENERAL MOTORS tem como cinco maiores acionistas:

1 – The Vanguard Group;

2 – Blackrock;

3 – Harris Associates;

4 – State Street Corporation; e

5 – Berkshire Hathaway.

A FORD tem como cinco maiores acionistas:

1 – The Vanguard Group;

2 – Blackrock;

3 – Newport Trust;

4 – Street State Global Advisors Funds Management; e

5 – Wellington Management.

A RENAULT é empresa de economia mista. Aqui diríamos que é uma estatal.  Dois acionistas, o Governo da França e a Nissan Motor, tem, cada um, 15% das ações. O terceiro maior acionista é a própria Renault que com o fundo de seus empregados possuem 4,20% do capital da companhia. Mas é curioso saber que The Vanguard Group e Blackrock também compartilham ações da Renault”.

Inúmeros outros exemplos poderia oferecer a meus caros leitores. Mas prefiro apresentar os principais membros da banca, conforme pesquisa por mim realizada, neste mundo maravilhoso das comunicações virtuais.

Há diversos sites que, como apontaria Chacrinha, “vieram para confundir e não para explicar”. Havendo interesse, recomendo que busquem as composições acionárias das empresas negociadas em bolsa, destacando seus proprietários institucionais.

Meus dados são do início de dezembro de 2018. Diferentes dos que coletei em agosto do mesmo ano. Este fato comprova minhas afirmativas sobre a autofagia da banca e sobre o cassino que é o “mercado”.

Empresas, com mais de um trilhão de dólares em aplicações, que controlam não só as economias internacionais e nacionais, mas as empresas de comunicação de massa, da indústria cultural e muitos governos sejam de países desenvolvidos ou colonizados:

BlackRock, a maior, com cerca de US$ 8 trilhões (apenas para ter o significado  deste valor, o Produto Interno Bruto do Brasil, para o ano findo, está avaliado em US$ 2,2 trilhões, o dos Estados Unidos da América (EUA) possivelmente superior a US$ 20 trilhões). Seguem o Vanguard Group com mais de US$ 6 trilhões, a Charles Schwab com US$ 4 trilhões, o JP Morgan com mais de US$ 3 trilhões, o State Street Global Advisors, que teve um ano ruim, com US$ 3 trilhões, o Fidelity, também com perdas, mas se mantém próximo aos US$ 3 trilhões. A estes seis grandes, elencamos, com mais do que US$ 1 trilhão: Allianz, BNY Mellon, Wellington eAmundi. Também podemos considerar membros de destaque da banca: o BNP Paribas, o Santander, o Bank of America e o Goldman Sachs.

Certamente meu arguto leitor está sentindo a ausência de empresas/investidores asiáticos. Há, obviamente, explicações.

A Ásia adotou modelos diferentes de economia. No Japão é o Estado que orienta os megaconglomerados, cujos bancos agem como verdadeiras tesourarias e arrecadadores e investidores. Há 50 anos, aproximadamente, não era assim. Mas os Governos japoneses tiveram a sabedoria de não entrar no cassino (“mercado”). Isto mantém uma economia equilibrada que atende, com sua escassez de recursos naturais, o País e sua população.

A China está voltada para seu desenvolvimento. Seus bancos financiam suas empresas que procuram, como qualquer país colonizador, comprar e vender, tendo nesse colonialismo mercantilista seus recursos em divisas. Nunca esquecer que a China precisa alimentar 20% da população da Terra.

O sudeste asiático vem sendo castigado pelas políticas da banca e dos interesses geoestratégicos estadunidenses. O mesmo acontece com a Índia, que não pode promover um processo de capitalização nacional capaz de a impulsionar seu desenvolvimento para novo patamar.

Ficamos assim, Atlântico Norte e Atlântico Sul sujeitos ao jogo e à corrupção da banca.

Nos próximos artigos trataremos do Governo e da Informação.

Informação II

O fato histórico, oculto pelas pedagogias colonizadoras, é a construção das estruturas de governo pelo poder. Não irei reproduzir a formação dos Estados, a partir da Idade Média. Basta verificarmos o que ocorreu no Brasil, a partir dos Governos Militares.

O golpe desfechado em 1964 foi, ainda, realizado pelo poder do capitalismo industrial estadunidense, o que comprovam a intromissão da CIA (Central Intelligence Agency), as ações do Embaixador Lincoln Gordon, as referências nas memórias do Coronel Vernon Walters e toda a documentação dos arquivos do governo dos Estados Unidos da América (EUA) já divulgada. O golpe seguinte ocorreu em 1967 e recuperou boa parte do controle do Governo Brasileiro para as Forças Armadas nacionais e para indústria, especialmente a do Estado de São Paulo. O terceiro golpe foi aplicado no Presidente Geisel e no Comando Militar para escolher o General Figueiredo para a presidência. O poder, então, já não era do Estado representante do capitalismo industrial mas do sistema financeiro internacional, que denomino banca.

A banca orientou a Constituição de 1988 para que o governo brasileiro ficasse nas mãos do poder sem voto: o judiciário. Lembremos que o poder militar fora alvo de golpe pela banca.

Apenas o Poder Militar, nos dias de hoje, 2019, ameaça o governo do judiciário que atende prioritariamente à banca.

Vejamos exemplos da ação dos Governos, após o Presidente Geisel, que comprovam o poder que tomou conta do Brasil.

Os Estados nacionais são os maiores, se não o maior inimigo da banca, ou, como alguns preferem designar, da Nova Ordem Mundial (NOM).

Daí a estupidez dos Estados Mínimos.

O que significa Estado Mínimo, desburocratização do Estado Nacional, simplificação tributária e outras expressões do vocabulário da banca? Que o Brasil, ou qualquer outro Estado, abrirá mão de seu poder de governar para reproduzir, no País, a uniformidade administrativa que facilita a gestão e aumenta os lucros da banca.

Se cada país, mesmo acolhendo os capitais especulativos, fixar taxas diferentes, com requisitos distintos, multas diferenciadas, formulários com dados diversos, a banca terá enorme ônus para se adaptar às formalidades destes países. Mas se tiver um Estado Mínimo, com legislações e administrações padronizadas, o que fizer para Bélgica, Ruanda, Samoa, Costa Rica, servirá também para o Brasil. Enorme economia e simplificação administrativa, maiores lucros. E a soberania nacional? Ora, a soberania ……

Portanto são estes engodos que levam muitas pessoas a considerar avanço civilizatório a submissão aos interesses da banca.

Em outras palavras, colocar nos governos “técnicos” que prometem simplificar “a vida” (sic) de cada um. E o coitado, que nem sabe o que é o “swap cambial”, pensa que está votando numa solução técnica quando está apoiando o interesse político estrangeiro, para a mais eficiente apropriação dos nossos recursos. Paulo Guedes, por exemplo, ou Henrique Meirelles, ou Pedro Malan, ou Joaquim Levy, ou Ivan Monteiro, ou Marcos Lisboa, ou Armínio Fraga, ou, ou, ou todas estas gerações formadas pela banca, eles a representam e não o Brasil.

A classe média sempre reclama da (falta de) educação, imagina que exista competitividade, no mundo de monopólios e acordos de acionistas, que o saber diferenciado fará diferença na vida. Mas não se pergunta: que saber é esse? Que diferença – ou usando a palavra de Pierre Bourdieu – de que distinção se trata?

Podemos identificar os anos 1960 como da arrancada da banca para o domínio mundial, conseguido em 1990. Foi naquela década que houve a grande crítica e a crise do ensino, da cultura, do saber.

Na França, nos EUA, na Inglaterra, mesmo no fechado mundo soviético, surgiram reflexões sobre o conhecimento e os usos do conhecimento.

A banca teve a inteligência de perceber a possibilidade de transformar o saber em outro instrumento de dominação (nunca esquecer que a dívida é a arma principal da banca). E foram os governos destes mesmos países, da academia e da juventude críticas, que acabaram por promover a nova pedagogia colonial.

A sempre competente Vila Mandinga, em Nota do Tradutor, ao primoroso trabalho da entrevista de Henry Giroux, feita pelo professor Mitja Sardoč (“A linguagem da educação neoliberal”, Counterpunch, 25/12/2018), escreve:

“Os imperativos econômicos do neoliberalismo, combinados com as tecnologias da Nova Administração Pública provocaram mudanças profundas na organização dos locais de trabalho em muitas sociedades capitalistas contemporâneas. Práticas de mensuração, incluindo ‘indicadores de desempenho’ e ‘benchmarking’ [tabelas de desempenho comparativo] são cada vez mais usadas para medir e reformar organizações do setor público, e melhorar a produtividade e as condutas de indivíduos em inúmeras profissões. Esses processos resultaram no desenvolvimento de uma cada vez mais penetrante invasiva ‘cultura de auditagem’, que extrai sua legitimidade da ideia de que estaria promovendo a ‘transparência’ e os mecanismos e processos para cobrar e prestar contas [ing. transparency and accountability]. A partir de exemplos do Reino Unido, particularmente da reforma das universidade pós-1990s, esse artigo (“Audit culture and Illiberal governance: Universities and the politics of accountability” [Cultura da auditagem e governança não liberal], Cris Shore, 2008) propõe-se a analisar as origens e a disseminação dessa ‘cultura da auditagem’, e teoriza algumas implicações dela para a construção de subjetividades acadêmicas. As perguntas que faço são: Como essas tecnologias da auditagem estão remodelando o ambiente de trabalho e que efeitos têm elas sobre o comportamento (e a subjetividade) dos acadêmicos? O que a análise da ascensão do gerencialismo [ing. managerialism] nos diz sobre processos históricos mais amplos de poder e mudança em nossa sociedade? E por que os acadêmicos são aparentemente tão cúmplices e tão incapazes de resistir contra esses processos?”

Neste século XXI, alunos e professores de economia, de renomadas universidades inglesas, portuguesas e estadunidenses, como Harvard, foram à rua e à imprensa denunciar o ensino do que seria a ciência econômica, transformada em marketing financeiro.

A universidade é o local privilegiado do pensamento, onde surgem as ideias e as críticas que serão um dia a comunicação, o transporte, a produção sem riscos e acessíveis a todos os seres humanos. Transformar este local simplesmente em formadores de agentes de venda é verdadeiro crime contra a humanidade.

O administrador é antes de tudo um incentivador e orientador de trabalho; criativo, inovador, transformador para o próprio executante. Como sobreviver à régua equalizadora das auditagens e “accountabilities”?

E observe o atilado leitor que nem trato do simplismo de um Fernando Collor, de um Fernando Henrique Cardoso, de um Michel Temer, meros encaminhadores das ordens do poder – a banca – repetindo, como papagaios, sem qualquer contribuição pessoal, as ignomínias do tripé macroeconômico, dos superavits fiscais, do câmbio flutuante, do mercado contra o Estado Nacional. Embora não tenha incluído Lula neste rol, apenas por não ter feito a defesa da banca, sua ação em momento algum impediu a atuação perniciosa do sistema financeiro internacional no Brasil.

A estrutura de governo brasileiro continua, mais de cinco séculos de domínio colonial, assentada nos pilares trazidos em 1549 pelo Governador Geral Tomé de Souza: finança,  justiça e defesa,  esta última sistematicamente empobrecida pela defasagem científica e tecnológica.

No Brasil, as castas exportadoras de produtos primários, aliadas dos colonizadores, sejam portugueses, ingleses, estadunidenses, agora a banca, sempre combateram a industrialização. E por que? Pela transformação social que a produção e o consumo trazem necessariamente. A industrialização exige o consumo de massa. Atribuo boa parte da derrocada soviética à ausência da perna do consumo, desequilibrando o corpo estrutural do governo industrial.

Vejo também na estrutura de organização de governo, sem a vinculação das partes ao todo, de ações importantes – a bolsa família, a ação integral do SUS, a construção de habitações populares – desvinculadas do projeto maior de construção da cidadania, uma de suas fragilidades e a facilidade com que são eliminadas e corrompidas. O mesmo ocorre com os períodos de industrialização e de desenvolvimento científico e tecnológico, desvinculados da construção do Estado Nacional Soberano.

Não se justifica, desde o trabalho de Ludwig von Bertalanffy (1901-1972) sobre a Teoria de Sistemas (“General System Theory”, George Braziller, New York, 1968), que se construa uma organização do Estado desvinculada de seu propósito maior. A meu ver, as estruturas organizacionais do Estado Nacional Brasileiro deveriam estar reunidas nos três principais objetivos do governo nacionalista: a construção da soberania nacional, a construção da cidadania e as seguranças (da pessoa, do patrimônio e dos direitos). Para estes três grandes grupos haveria a manifestação da população, sob a forma de legislativos ou conselhos, e a estrutura executiva seria o detalhamento para as ações.

Penso que o País, assim estruturado, teria maior facilidade no enfrentamento de colonizadores. O Governo passaria a ser executor do interesse nacional, definido pelo voto, sem a nefasta influência da informação subordinada aos desejos destes colonizadores, como veremos no último artigo desta série.

Informação III

Os vinte anos que medeiam a descoberta da fissão nuclear e o lançamento do Sputnik I (1938-1957) foram de extraordinária importância para a vida humana. Foram os anos da energia nuclear, do conhecimento aeroespacial e da mudança no conceito e usos de informação. Neste artigo vou me limitar à informação, como passou a ser tratada após os trabalhos inaugurais dos matemáticos Norbert Wiener (“Cybernetics or Control and Communication in the Animal and the Machine”, The M.I.T. Press, 1948, Cambridge) e Claude Shannon e Warren Weaver (“The Mathematical Theory of Communication”, University of Illinois Press, 1949, Urbana).

Ao prefaciar a 2ª edição de “Cybernetics”, em 1961, Wiener escreveu “as noções da informação estatística e da teoria do controle eram novidade e, talvez, até tivessem chocado as noções à época (1948) estabelecidas” (“The notions of statistical information and control theory were novel and perhaps even shocking to the established attitudes of the time”).

Por que o capitalismo industrial, o poder naquela época, não soube se apropriar da riqueza de aplicações, que a teoria da informação descortinava, como seu opositor, o capitalismo financeiro, o fez?

Só posso constatar que o industrialismo – capitalista e socialista – restringiu ao trabalho, à robotização, sua compreensão da informação (comunicação e controle). O que chamo banca, o sistema financeiro, viu muito mais aplicações e recursos na separação suporte/semântica na informação, como denominaria o matemático francês Louis Couffignal (“Les Notions de Base”, Gauthier-Villars, 1958, Paris).

O modelo apresentado por Shannon tratava da difusão de mensagens quanto ao suporte. Suas preocupações eram as codificações/decodificações e o meio físico, com os ruídos inevitáveis e as redundâncias necessárias. A influência destas mensagens nos receptores estaria no âmbito de outras disciplinas, como ficou evidenciado no importantíssimo encontro de 1962, em Royaumont, perto de Paris, sobre o “Conceito de Informação na Ciência Contemporânea”.

Além de Norbert Wiener, este encontro acolheu o historiador Giorgio de Santillana, o sociólogo Lucien Goldmann, o pedagogo Helmar Frank, o microbiologista e Prêmio Nobel André Michel Lwoff, o engenheiro e físico Abraham Moles, os filósofos François Bonsack e Gilles-Gaston Granger, os matemáticos Henryk Greniewski e Louis Couffignal entre outros.

John R. Pierce (“Symbols, Signals, and Noise: The Nature and Process of Communication”, Harper and Brothers, 1961, NY), no ultimo capítulo deste seu livro, face à riqueza de soluções abertas pela teoria da informação, escreve que “é certamente maravilhoso que uma nova noção possa contribuir para a solução de tão larga gama de problemas”, como da linguagem, da psicologia e das artes.

Vejamos um caso prático, absolutamente possível da aplicação, desta separação da mensagem na votação, sem comprovação, em “urna eletrônica”, como feito no Brasil. O tratamento da mensagem é estatístico, o que permite, por exemplo, a cada três grupos semântica/suporte idênticos, introduzir uma variação na semântica, ou seja, para o mesmo suporte computar outra semântica (nome de outro candidato). Os exemplos seriam numerosos e fraudariam a vontade popular de modo técnico, com a aplicação dos recursos da teoria da informação. Talvez seja a razão do poder judiciário, que melhor do que qualquer outro advoga os interesses da banca no Brasil, seja o que mais se opõe ao voto impresso.

Também a banca percebeu a contribuição destas descobertas para a pedagogia colonial, forma de dominação tradicional, utilizada pelos poderes para manter os colonizados ou dominados sem capacidade de refletir sobre suas situações ou alterá-las.

A banca passou a ser dona de grande número de empresas de comunicação de massa e a influenciar também a indústria cultural, que estava em crescimento extraordinário com o filme colorido para o cinema (1935) e a televisão (1939). Foi, por conseguinte, com as armas fornecidas pelas teorias apresentadas nos anos 1940 que a banca passou a conquistar cada vez maior poder até dominar, não só a economia, mas a política, o psicossocial dos povos, e os próprios governos a partir de 1990.

Foram também as possibilidades abertas pela teoria da informação que possibilitaram a ciência da computação, os estudos sobre fractais e tantas outras  tecnologias e ferramentas, colocadas neste século XXI à disposição dos que tenham recursos para utilizá-las. Podemos afirmar que este conhecimento, apropriado pelo capitalismo financeiro, tornou-se mais um elemento de concentração de poder.

Nas últimas eleições nos Estados Unidos da América (EUA) e no Brasil, foram inúmeras as acusações de interferências, nem sempre lícitas ou controláveis, no processo de convencimento dos eleitores. Surgiram “demonstrações” da ação de empresas, como a Cambridge Analytica, de personalidades como seu fundador Steve Bannon, dos usos dos whatsApp, das fake news pelas redes virtuais e outras aplicações da teoria da informação.

Tudo, no entanto, pode ser resumido no controle que o poder da banca exerce sobre os sistemas de informação e das comunicações. Há a ausência indesculpável dos Estados Nacionais sobre esta sua responsabilidade frente aos cidadãos e, ouso afirmar, sobre a própria humanidade.

No Brasil, o estadista Presidente Ernesto Geisel bem tentou, pelo Estado com a Cobra, e pela empresa privada com a Itautec, promover a capacitação brasileira. Teve êxito, pois o Brasil chegou a construir, com tecnologia e materiais nacionais, os minicomputadores. Se não tivesse ocorrido o golpe de 1979 e a destruição do sistema de informática nacional, talvez meu caro leitor não estivesse escravo da Apple, da Microsoft, da Samsung, do Windows e de toda esta invasão estrangeira na informação brasileira. Ainda nos anos 1990, a Marinha de Guerra desenvolvia linguagem com base no Linux. Não sei como estará agora, com tantos governos da banca desde então.

Vejamos outro aspecto da comunicação, o psicossocial, que acontece agora, no momento que escrevo este artigo. “Acusam” um filho do General Hamilton Mourão, funcionário concursado, há 18 anos no Banco do Brasil, por ter sido escolhido para cargo comissionado, para o qual preenche os requisitos.

Um ingênuo leitor apontaria o PT ou “as esquerdas” pela divulgação e pelos ataques. Claro que há bobos e maus-carateres para isso. Mas a quem interessaria, mais do que a qualquer outro poder, esta farsa?

O Vice-Presidente representa, na heterogênea composição do Governo Bolsonaro, a única força que pode se opor à banca: os militares.

Entre os principais representantes do capital financeiro, está o Ministro da Economia, que responde a processos pelos eventuais atos ilícitos que teria praticado no cassino ou no “mercado”. Parece-me evidente que, tendo a banca o controle dos meios de comunicação, um ataque ao General Mourão, como para outros militares no Governo (não no Poder, como já espero ter deixado claro nos artigos anteriores) surjam a conta gotas.

Não seria o caso do General Augusto Heleno, no uso das atribuições de seu Ministério, investigar as informações produzidas pela banca? Ou apenas se considera oposição as estilhaçadas esquerdas, se estas já não se acumpliciaram com a própria banca, como pensam alguns bem informados e bons analistas da imprensa virtual?

CONCLUSÃO

Não tenho a paranoia de ser dono da verdade. Muito ao contrário. Permanentemente me interrogo sobre as conclusões a que chego, confiro-as com outras, principalmente opostas. Porém o mais de meio século de diferentes experiências profissionais, a formação acadêmica também diversificada, permitem-me colocar, mais do que respostas, as perguntas que suponho adequadas ao Brasil deste século.

São, entre várias, as que apresento no título destes artigos: quem é o poder? quem executa suas ordens? como sabemos o que ocorre?

Devemos deixar de perseguir fantasmas. Espero ter aberto, a outros mais capazes e igualmente interessados no Brasil, esta mesma curiosidade.

Seria muito gratificante começar a ler outras perspectivas, outros rumos de pesquisa, para o esclarecimento maior, mais completo, que contribua para independência nacional.

É como concluo estas reflexões.

*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado (janeiro de 2019)

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