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Postado em 14/04/2017 5:25

Os bons “ruídos” de Daniel Ilirian Carvalho (1981-2017)

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Era 13 de outubro de 2014, data em que o título mais memorável na história do Corinthians – o Campeonato Paulista de 1977 – completava 37 anos. Sentei-me em frente ao computador e escrevi para um dos corintianos mais fanáticos que já conheci, Daniel Ilirian Carvalho. Só que, embora o Timão fosse, até então, um assunto recorrente, quase dominante, em nossas conversas, o pretexto da mensagem daquela tarde era outro.
Eu planejava entrar no mestrado da PUC-SP, que ficava a poucos quarteirões de casa e tinha aberto processo seletivo para a pós-graduação. A PUC, de quebra, era a universidade onde minha esposa, Julia Delibero, fazia doutorado, depois de já ter concluído lá duas graduações e também o mestrado. O único porém é que a Julia era da Educação, e eu me dividia entre Ciências Sociais e História. Daí a ideia de ir atrás de outros “filhos da PUC” que se pós-graduaram em uma dessas áreas.

O primeiro nome que me ocorreu foi justamente o do Daniel, que tinha feito o mestrado em História. Abri o coração na mensagem. Disse que estava “100% perdido e inseguro”. O tema que me empolgava – a atuação do escritor Mário de Andrade à frente do Departamento de Cultura de São Paulo (1935-1938) – não parceria fazer sentido no programa do curso. O prazo de inscrição estava prestes a vencer, e eu não conhecia um único professor de História.

Para minha surpresa, Daniel respondeu não apenas com rapidez – mas também com animação. Disse que falaria com sua orientadora – “ela me indicará um nome certamente”. Um dia depois, ele me passou o contato da professora Yvone Dias Avelino.

Quanto ao tema de minha escolha – e à minha preocupação de temer “causar ruídos com a linha da PUC” –, a intervenção de Daniel foi ainda mais alentadora. Ele lembrou que sua tese foi sobre o Partido Comunista, mais precisamente a cisão de 1962 – assunto muito mais polêmico aos olhos da PUC do que o meu. “Meu caro, seu tema é bom e bem interessante. Pode ter um nariz torcido ou outro. Faz parte. E é bom causar um ruído de vez em quando.”

Daniel era um cara tímido, discreto. Tinha ares de “lonesome rider”, aquele personagem tão comum em certos faroestes. Mas, à sua maneira – e à moda dos bons westerns –, sabia “causar um ruído de vez em quando”.

Talvez tenha causado tantos bons ruídos que a notícia de sua morte precoce, nesta quinta-feira (13), aos 36 anos, comoveu inúmeras pessoas que compartilharam de sua companhia e amizade. Muitos citaram diversas passagens em comum com o Daniel, peças de um mosaico. Não faltaram relatos que o apontavam como um verdadeiro “ombro amigo”, extremamente solícito e encorajador até com pessoas nem tão próximas (como eu, no episódio de 2014).

Um brasileiro de origem albanesa

Historiador, poeta e militante do PCdoB, Daniel nasceu em Tirana, capital da então República Popular Socialista da Albânia, no sudeste europeu. Corriam os anos 1980. O Brasil vivia sob o governo João Baptista Figueiredo, o último general-presidente do regime militar. Mesmo com o anúncio do pluripartidarismo, os partidos comunistas continuavam a enfrentar a clandestinidade. Esse contexto de repressão é fundamental para entendermos o local do nascimento de Daniel.

Na década de 1970, o regime comunista albanês, sob a liderança de Enver Hodja (1908-1975), abriu um espaço estratégico para o PCdoB na programação da Rádio Tirana. Como suas transmissões em ondas curtas podiam ser captadas por alguns aparelhos receptores simples no Brasil, o Partido usaria a emissora para furar a censura da ditadura e transmitir informes em português. Os ouvintes estariam igualmente protegidos, já que essa emissão não podia ser rastreada.

No entanto, antevendo a inevitável dificuldade de adaptação de militantes num país de cultura e língua tão pouco familiares como a Albânia, a direção optou por enviar apenas jovens casais comunistas para a missão. O primeiro par de militantes-jornalistas deslocados, Bernardo Jofilly e Olívia Rangel, chegou a Tirana em 1974. Encarregados, ainda, de levar materiais do PCdoB na bagagem, eles esconderam os papéis no berço da filha, Mariana, de 8 meses de vida. Conseguiram driblar os militares brasileiros, voaram pelo Atlântico e se instalaram na Albânia. Ali permaneceram por cinco anos, tocando a Rádio Tirana até 1979.

O casal indicado pelo PCdoB para substituí-los, José Reinaldo Carvalho e Maria da Conceição Tupinambá, não tinha filhos. Poucas semanas depois de desembarcarem na Albânia, eles já participaram, em março de 1979, da segunda fase da 7ª Conferência Nacional do PCdoB, realizada excepcionalmente em Tirana, devido à repressão da ditadura aos comunistas.

No ano seguinte, Conceição engravidou. Daniel viria a nascer no dia 4 de fevereiro de 1981, em pleno outono europeu. Seu sobrenome de batismo, Ilirian, foi uma homenagem a Illiri, filho de Enver e Nedjmie Hodja.

Tirana, a terra natal de Daniel, era uma cidade tão montanhosa quanto pacata. Bernardo Joffily conseguia ler livros enquanto pedalava, diariamente, sua bicicleta. As famílias albanesas cultivavam o “shetitje” – hábito de passear a pé, assimilado pelos brasileiros que ali residiram. Capital de um Estado oficialmente declarado ateu, a cidade não tinha igrejas nem mesquitas, mas contava com uma incipiente zona industrial, o Complexo Têxtil Stálin (hoje extinto), a Universidade de Tirana e os principais hospitais públicos do país.

De todo modo, o fato que mais impactaria os primeiros meses de vida de Daniel foi a decisão do PCdoB de encaminhar à Albânia o terceiro (e último) casal em missão da Rádio Tirana. No mesmo ano de 1981, a casa onde Zé Reinaldo, Conceição e Daniel moravam passou a abrigar também Agenor Silva (o “Gê”) e Madalena Guasco Peixoto, além da pequena Elenira, filha deles, um ano mais velha que Daniel. Juntas, as duas famílias passeavam e se entretinham pelas ruas de Tirana, num “shetitje” brasileiro.

Os anos 2000

De volta ao Brasil em 1982, a família de Daniel foi morar na Vila Mariana, na zona sul de São Paulo, onde ele cresceu. O contato com Elenira, onipresente em Tirana, praticamente se perdeu na capital paulista. Curiosamente, eles voltariam a se ver com frequência quase duas décadas depois, quando os dois se tornaram estudantes da PUC.

“Tínhamos uma intimidade meio doida”, recorda Elenira. “Moramos na mesma casa da Albânia, por um ano e meio. Depois, não convivíamos mais. Aí entramos na PUC. Ele era tão bacana comigo, sempre me tratava muito bem, com alegria de me ver”. Em seu perfil no Facebook, ao comentar a morte de Daniel, Elenira acrescentou: “Ele sempre me olhava como se fossemos cúmplices dessa experiência [a infância na Albânia] e de acreditar que um mundo mais justo era possível”.

Foi nos corredores da PUC que Daniel conheceu Julia, minha esposa. Embora fossem de cursos diferentes, aproximaram-se graças à militância estudantil – os dois participavam do núcleo da União da Juventude Socialista (UJS) da PUC. “O Daniel era um menino atencioso, sensível, estudioso e inteligente. Uma vez, fizemos na casa dele uma edição da Boemia Vermelha, espécie de sarau com os amigos da UJS”, conta Julia.

Seus interesses eram diversos. “Ele gostava de Raul Seixas, mas já manifestava a queda pela poesia. E gostava de filmes. Fomos juntos ao cinema uma ou outra vez. Do nosso grupo, ele era um dos que menos bebiam – só tomava vinho de vez em quando.” A outra paixão era Salvador, onde morava boa parte de sua família – tanto Zé Reinaldo quanto Conceição são baianos. De acordo com Julia, Daniel adorava visitar a “capital da alegria” e contar histórias vividas lá. “Ele viajava para Salvador nas férias e falava com carinho dos primos.”

Nos anos 2000, Daniel foi consultor parecerista do Ministério da Cultura, arquivista do Centro de Estudos e Memória da Juventude (CEMJ), coordenador do projeto “Escola Cidadã de Osasco” (vinculado ao Instituto Paulo Freire), entre outros trabalhos. Mas, em termos de projetos pessoais, a grande descoberta de Daniel, junto à turma da PUC, foi à Confraria dos Poetas – um coletivo de jovens artistas voltados ao estudo e à divulgação da poesia.

Daniel ainda era aluno de História quando começou a mostrar os próprios poemas aos amigos, conforme evoca Éric Meireles de Andrade, seu contemporâneo de PUC e parceiro de Confraria: “Ele desabotoou seus primeiros versos livres em 2003, com um tino imensurável à lírica”. A Confraria dos Poetas surgiu um pouco depois, em fevereiro de 2004. Daniel aderiu no ano seguinte.

“Já tínhamos montado a Confraria, mas a aproximação dele com a gente foi um processo muito rico. O Daniel atuou poeticamente e também como militante cultural. Há oito anos, ele cumpria o papel de vice-presidente nacional da entidade”, afirma Eric.

O envolvimento de Daniel foi tanto que, em meio a dezenas de autores, apenas ele e Eric contribuíram, com seus poemas, para as quatro antologias nacionais publicadas pela Confraria dos Poetas. “O estilo de versos que ele fazia eram versos livres. Tinha uma temática variada, mas acentuada em temas de amor e de luta. Tinha um forte sotaque humanista. Era uma pessoa querida por todos os confrários”, resume Eric.

Seus versos oram exaltam os livros (“delírios de uma vida”, “viagens deslumbrantes”), ora falam de lutadores do povo como João Amazonas (“Belenense sereno de modos simples e altruísta / Fez-se assim comunista, marxista e leninista”), ora abordam o passado (“Quando a inocência / era nossa companheira / nas calçadas, nas ruas / em todos os lugares”).

De suas criações poéticas, minha preferida é “Sorte”, composta em algum momento da década passada, mas incrivelmente premonitória destes dias duros, em que um câncer, aos poucos, ceifava a vida de Daniel. O poema agradece à sorte “de viver entre amigos / tão queridos como só eles são”; de ter mulheres, “companheiras ou amigas”; “de ter visto sempre um norte” e “de saber que ainda pulsa o coração”.

O coração de Daniel – que funcionava, nos últimos dias, com a ajuda de aparelhos – deixou agora de pulsar. Perdemos um jovem camarada, historiador, poeta e, acima de tudo, amigo. É como se pudéssemos usar os próprios versos de Daniel e lhe dizer:

Nesta São Paulo fria e imponente que não perdoa quem está doente
Doente na alma e no coração, mas espera por dias melhores que virão
Pra você que está tão longe apenas ofereço minha gratidão

*André Cintra é jornalis

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