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Internacional

Postado em 17/07/2017 8:42

Para NÃO ESQUECER o que se disputou e quem ganhou e quem perdeu na guerra pela Síria

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Acordo secreto estúpido EUA-sauditas sobre a Síria

F. William Engdahl,* Boiling Frogs (Global Research, longa citação já traduzida em 2014, emRedecastorphoto [NTs])

Artigo a reler em 2017, para ver com mais clareza (1) a extensão da derrota, hoje, de todos os projetos dos EUA e Israel na Eurásia; e (2) a enormíssima importância que – nesse quadro de derrota dos EUA em outros fronts internacionais – ganham, em 2017, a América Latina em geral; e o Brasil em particular.
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(…) Emergem detalhes [2014] de um novo acordo secreto e estúpido, entre EUA e sauditas e o chamado Estado Islâmico. Envolve o controle de petróleo e gás em toda a região, para enfraquecer Rússia e Irã, com os sauditas afogando o mercado mundial com petróleo barato. (…)

Os sauditas querem vender para a Ásia com desconto e, em particular, ao seu principal freguês asiático, a China, onde se sabe que os sauditas já oferecem seu cru foi reles $50-$60 o barril, em vez do preço anterior de cerca de $100. [1] Aquela operação financeira saudita de descontos por sua vez, segundo tudo indica, está sendo coordenada com uma operação de guerra financeira do Tesouro dos EUA, via seu Gabinete de Inteligência para Terrorismo e Inteligência Financeira, em cooperação com um punhado de atores insider em Wall Street que controlam o comércio dos derivativos do petróleo. O resultado é um pânico no mercado, que cresce diariamente. A China não se incomoda de comprar petróleo barato, mas dois de seus mais próximos aliados, Rússia e Irã, estão sendo duramente atingidos.

O acordo

Segundo Rashid Abanmy, presidente do Centro Saudita para Políticas do Petróleo e Expectativas Estratégicas da Arábia Saudita, com sede em Riad, o colapso dramático dos preços está sendo causado deliberadamente pelos sauditas, os maiores produtores da OPEC. Publicamente, dizem que se trataria de conquistar novos mercados num mercado global no qual decresce a demanda por petróleo. Mas a verdadeira razão, segundo Abanmy, é pressionar o Irã no programa nuclear; e a Rússia, para pôr fim ao apoio que dá a Bashar al-Assad na Síria.[2]

O acordo secreto Kerry-Abdullah

Dia 11 de setembro de 2014, o Secretário de Estado Kerry dos EUA reuniu-se com o rei saudita Abdullah em seu palácio no Mar Vermelho. O rei convocou para a reunião o ex-chefe da inteligência saudita, príncipe Bandar. E ali acertaram um negócio pelo qual os sauditas apoiariam os ataques aéreos sírios contra o ISIS, sob a condição de que Washington apoiaria os sauditas no golpe para derrubar Assad, firme aliado da Rússia e também, de facto, do Irã, e obstáculo aos planos sauditas e dos Emirados Árabes Unidos para controlarem o emergente novo mercado de gás natural da União Europeia e destruírem o lucrativo comércio da Rússia com a União Europeia.

Matéria no Wall Street Journal observava que “foram meses de trabalho por trás das coxias entre líderes árabes e dos EUA – os quais concordaram sobre a necessidade de trabalharem juntos contra o Estado Islâmico, mas não sobre como ou quando agir.

O processo deu aos sauditas condições de alavancagem para arrancar dos EUA novo compromisso de que treinarão rebeldes para lutar contra o presidente Assad, cuja derrubada do poder ainda é tema de alta prioridade para os sauditas” [3].

Para os sauditas, a guerra é entre dois antiquíssimos vetores concorrentes, dentro do Islã. A Arábia Saudita, guardadora das cidades sagradas de Meca e Medina, exige para ela uma supremacia de facto no mundo islâmico do Islã sunita. Os sunitas sauditas seguem o wahhabismo, modalidade ultraconservadora do sunismo, que leva o nome de um fundamentalista beduíno islâmico fundamentalista, ou salafista, do século 18, Muhammad ibn Abd al-Wahha. Os Talibã são ramificação do wahhabismo, com a ajuda de instrução religiosa paga pelos sauditas. Os emirados do golfe e o Kuwait também aderem ao wahhabismo sunita dos sauditas, assim como o Emir do Qatar.

O Irã, por outro lado, é historicamente o coração de um ramo menor do Islã, o xiismo. A população do Iraque é majoritariamente (61%) xiita. O presidente da Síria Bashar al-Assad segue um ramo satélite do xiismo, chamado alawita. Cerca de 23% da Turquia também são muçulmanos alawitas. Para complicar ainda mais o quadro, separado da Arábia Saudita apenas por uma ponte, está o pequeno país-ilha do Bahrain, onde quase 75% da população é xiita, mas a família Al-Khalifa governante é sunita, firmemente ligada à Arábia Saudita. Além disso, a região mais rica em petróleo da Arábia Saudita tem população majoritariamente xiita – e são xiitas todos os sauditas que trabalham nas instalações de petróleo em Ras Tanura.

Guerra no Oleogasodutostão

Todas essas subdivisões históricas do Islã passaram muito tempo adormecidas, até serem ‘despertadas’ e estimuladas até se converterem em guerra aberta e furiosa, depois que o Departamento de Estado e a CIA dos EUA inventaram sua “Guerra Santa Islâmica” – que o ocidente foi adestrado para chamar de “Primavera Árabe”. Os neoconservadores de Washington infiltrados no governo Obama como uma espécie de rede secreta do “Estado Profundo” e as mídia-empresas a eles aliadas, como o Washington Post, trabalharam para conseguir que os EUA garantissem cobertura secreta a um dos projetos mais prestigiados dentro da CIA, conhecido como a “Fraternidade Muçulmana”.

Como detalho em meu livro mais recente Amerikas’ Heiliger Krieg [al. no original, “A Guerra Santa dos EUA], já desde o início da década dos 1950s a CIA cultivou laços com a Fraternidade Muçulmana terrorista e seu culto da morte.

Hoje, se mapeamos os recursos das reservas conhecidas de gás natural em toda a região do Golfo Persa, tornam-se rapidamente mais claros os motivos pelos quais Qatar e Emirados Árabes Unidos, liderados pelos sauditas e incluindo o ISIS também sunita, financiam com bilhões de dólares a oposição a Assad. O gás natural tornou-se uma fonte preferencial de “energia limpa” para o século 21, é a União Europeia é o mercado que mais cresce no mundo para esse gás – razão mais do que suficiente para que Washington passe a só pensar em quebrar a relação de dependência que une a UE, como consumidora, e a Gazprom russa, como fornecedora, para assim enfraquecer a Rússia e manter pleno controle sobre a União Europeia mediante ‘representantes’ caninamente fiéis como o Qatar.

A maior reserva conhecida de gás natural de todo o planeta está no meio do Golfo Persa, parte em águas territoriais do Qatar e parte em águas territoriais do Irã. A parte iraniana é chamada Pars Norte. Em 2006, a estatal chinesa CNOOC firmou um acordo com o Irã para desenvolver o campo de gás de Pars Norte e construir a infraestrutura para gás natural liquefeito para levar o gás até a China.[4]

O lado Qatar da reserva no Golfo Persa, chamado Campo Norte, guarda a terceira maior reserva conhecida de gás natural do planeta, menor só que as reservas da Rússia e do Irã.

Em julho de 2011, os governos de Síria, Irã e Iraque assinaram um acordo histórico no campo da energia, para construir um gasoduto – que praticamente nem foi noticiado, ofuscado pela guerra que a OTAN, os sauditas e o Qatar faziam para derrubar Assad. O gasoduto, com custo estimado de $10 bilhões e com prazo de três anos para estar concluído, começaria no porto iraniano de Assalouyeh, próximo do campo Pars Sul de gás no Golfo Persa, e iria até Damasco, Síria, atravessando território iraquiano. Esse acordo faria da Síria o centro de produção e distribuição de gás liquefeito, trabalhando também com as reservas do Líbano. É um espaço geopoliticamente estratégico que se abre pela primeira vez, e vai do Irã ao Iraque, incluindo Síria e Líbano.[5]

Como escreveu o correspondente de Ásia Times Pepe Escobar: “O gasoduto Irã-Iraque-Síria – se algum dia for construído – solidificaria um eixo predominantemente xiita, costurado por um cordão umbilical econômico, de aço.”[6]

Pouco depois de assinar o acordo com Irã e Iraque, o ministro do petróleo do governo Assad da Síria anunciou, dia 16/8/2011, a descoberta de um campo de gás na área de Qarah na região central da Síria, perto de Homs. A Gazprom, com Assad no poder, seria a principal investidora ou operadora dos novos campos de gás na Síria. [7] O Irã, evidentemente, planeja estender o gasoduto de Damasco até o porto mediterrâneo do Líbano, de onde será entregue ao gigantesco mercado da União Europeia. A Síria comprará gás iraniano, paralelamente ao acordo hoje vigente para comprar gás iraniano do campo de Pars Sul.[8]

Qatar, hoje o maior exportador de gás natural liquefeito do mundo, principalmente para a Ásia, quer o mesmo mercado da União Europeia sobre o qual Irã e Síria estão de olho. Para isso construirão gasodutos para o Mediterrâneo. Eis porque é essencial livrarem-se de Assad, que é pró-Irã. Em 2009, o Qatar aproximou-se de Bashar al-Assad para propor a construção de um gasoduto do campo Norte do Qatar, através da Síria até a Turquia e a União Europeia. Assad recusou – e citou a longa relação de confiança entre seu país e a Rússia (e a Gazprom).

Essa recusa, combinada ao acordo para construir o gasoduto Irã-Iraque-Síria em 2011, foi o detonador do ataque violentíssimo de sauditas e qataris contra o poder de Assad (presidente eleito da Síria), financiando terroristas, recrutando fanáticos jihadistas dispostos a assassinar ‘infiéis’ alawitas e xiitas por salário mensal de $100 e uma Kalishnikov.

Os reacionários neoconservadores em Washington, dentro e em torno da Casa Branca de Obama, com seus aliados na ala mais à direita do direitista governo de Netanyahu, festejaram nas arquibancadas, quando a Síria começou a ser incinerada, depois da primavera de 2011.

Hoje [2014], as guerras que os EUA apoiam e financiam na Ucrânia e na Síria são apenas dois fronts da mesma guerra estratégica para pôr de joelhos Rússia e China e destruir qualquer contrapolo eurasiano que se erga contra a ‘Nova Ordem Mundial’ controlada pelos EUA. Em cada um daqueles fronts, o objetivo estratégico é controlar os gasodutos e oleodutos – dessa vez, principalmente os gasodutos de gás natural – da Rússia para a União Europeia via Ucrânia, e do Irã e Síria para a União Europeia via Síria.

O verdadeiro objetivo do ISIS, patrocinado por EUA e Israel é dar pretexto para bombardear os silos de armazenagem de grãos, vitais para Assad, e as suas refinarias de petróleo, preparando assim uma eliminação ao estilo do que fizeram a Gaddafi, também de Bashar al-Assad, aliado de Rússia, China e Irã.

Em sentido estrito, como os neoconservadores em Washington veem as coisas, quem controlar a Síria poderá controlar o Oriente Médio. E a partir da Síria, portão de entrada para a Ásia, terá a chave que abrirá a Casa da Rússia, e também a China, via a Rota da Seda [em 2017, já se sabe que os EUA não conseguiram nenhum desses objetivos; que terão de se contentar com tentar golpes ‘midiáticos’ no Brasil, servindo-se dos Moros e Têmeres de ocasião que encontrem para comprar a preços módicos. Isso é fracasso (E viva Assad, viva Putin, viva Xi Jinping, viva Maduro, viva Cuba… Que avançam rumo a maior felicidade dos povos!) (NTs)]

Guerras religiosas historicamente têm sido as mais selvagens de todas as guerras e a guerra que EUA e Israel estão construindo no Oriente Médio não escapa à regra, sobretudo porque lá estão em jogo trilhões de dólares em ganhos de petróleo e gás.

Por que o acordo secreto de Kerry-Abdullah sobre a Síria levou ao 11 de setembro, estúpido? Porque os brilhantes estrategistas e táticos em Washington e Riad e Doha e, por extensão, em Ancara, são incapazes de ler os pontos em que se interconectam toda a desordem e a toda a destruição que eles fomentam pelo mundo. Porque são incapazes de ler além do próprio projeto de controle sobre os fluxos de petróleo e gás, única miserável base apodrecida, sobre a qual querem construir o seu próprio poder ilegítimo. Se se examina bem, logo se vê que os Kerry-Abdullah do mundo estão plantando as sementes da sua própria destruição.*****

Notas

[1] M. Rochan, Crude Oil Drops Amid Global Demand Concerns, IB Times, 11/10/ 2014    http://www.ibtimes.co.uk/crude-oil-drops-amid-global-demand-concerns-1469524

[2] Nihan Cabbaroglu, Saudi Arabia to pressure Russia Iran with price of oil, 10/10/2014, Turkish Anadolu Agency, http://www.aa.com.tr/en/economy/402343–saudi-arabia-to-pressure-Rússia-iran-with-price-of-oil

[3] Adam Entous and Julian E. Barnes, Deal With Saudis Paved Way for Syrian Airstrikes: Talks With Saudi Arabia Were Linchpin in U.S. Efforts to Get Arab States Into Fight Against Islamic State, Wall Street Journal, 24/9/2014, http://online.wsj.com/articles/deal-with-saudis-paved-way-for-syrian-airstrikes-1411605329?mod=WSJ_hp_LEFTTopStories

[4] POGC, North Pars Gas Field, Pars Oil and Gas Company websitehttp://www.pogc.ir/NorthParsGasField/tabid/155/Default.aspx

[5] Imad Fawzi Shueibi , War Over Gas–Struggle over the Middle East: Gas Ranks First, 17/4/2012  http://www.voltairenet.org/article173718.html

[6] Pepe Escobar, “Por que o Qatar quer invadir a Síria”, Asia Times, 27/9/2012, (traduzido em redecastorphoto)

[7] Ibid.

[8] F. William Engdahl, Syria Turkey Israel and the Greater Middle East Energy War, Global Research, 11/10/2012, http://www.globalresearch.ca/Síria-turkey-israel-and-the-greater-middle-east-energy-war/5307902

* O autor recebe e-mails e comentários em www.engdahl.oilgeopolitics.net

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