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Postado em 01/05/2019 6:27

Pés de anta: as mulheres indígenas no ATL

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José Ribamar Bessa Freire

No momento em que as mulheres indígenas da Ilha do Marajó eram reverenciadas na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói (RJ), acontecia em Brasília a Plenária das Mulheres Indígenas no Acampamento Terra Livre (ATL). Quatro delas se sobressaíram: Tuíra Kayapó, que com um discurso em língua Mēbengokrê fez a barba e o bigode de um deputado ruralista; Alessandra Munduruku que deixou o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, com cara de égua, além de Sônia Guajajara e da deputada Joênia Wapichana, que renovaram nossas esperanças no Brasil.

Índias do Marajó

Já as mulheres indígenas do Marajó, anônimas, não tiveram seus nomes registrados, nem suas etnias mencionadas no fato narrado em meados do séc. XVIII pelo jesuíta João Daniel no seu “Tesouro Descoberto do Rio das Amazonas” – uma espécie de Bíblia ecológica da região. No capítulo “Da língua que se deve falar nas missões do Amazonas”, ele recomenda que “se o que se pretende nos índios é civilizá-los e fazê-los gente, este fim só, ou mais depressa e com mais facilidade se consegue com a língua portuguesa do que com a linguagem dos índios”(Tomo II, p.227).

O jesuíta revelou que os missionários, mesmo os que dominavam a Língua Geral, confessavam as “tapuias” por meio de intérpretes, por desconhecerem eles as línguas particulares faladas pelas mulheres, como o Sacaca e o Aruan, o que criava problemas, entre eles a violação do segredo da confissão. Conta que para forçá-las a abandonar a língua materna, “seu missionário mandou dar palmatoadas até elas dizerem ‘basta’ ao menos pela língoa geral, antes se deixavam dar até lhes inchar as mãos e arrebentar o sangue” (T.I, p.272).

João Daniel concluiu que as mulheres – a quem o mundo deve a preservação de muitas línguas com os saberes nelas registrados – eram mais resistentes que os homens, que migravam de uma língua a outra com mais frequência. Por isso, a primeira língua é simbolicamente chamada de “materna”, a língua da mãe. Desta forma, embora mais de mil línguas tenham sido extirpadas a ferro e fogo, outras permaneceram graças às mães e avós que enfrentaram a palmatória do colonizador.

Por tal resistência, as índias do Marajó foram lembradas no Centro de Artes da UFF, na palestra deste locutor que vos fala, no evento “Brasil: a margem 2019 – Teko Porã Cosmovisão e Expressividades Indígenas” realizado de 24 a 30 de abril, com exposições de arte contemporânea de artistas indígenas, projeção de filmes, encenações teatrais, minicursos, rodas de conversa, shows, oficinas, feira de artesanato e gastronomia. A abertura foi feita por Daniel Munduruku e o encerramento com conferência na terça (30) de Davi Kopenawa “Flecha para tocar o coração da sociedade não-indígena”.

O facão da Tuira

Quem sangrou as mãos, mas permaneceu fiel à língua Mēbengokrê foi Tuira Kayapópresente no 15° Acampamento Terra Livre (ATL). O evento organizado anualmente pela Articulação dos Povos Indígenas (APIB) reuniu na Esplanada dos Ministérios mais de 4.000 índios de 170 etnias. Neste ano, foi hostilizado pelo presidente Jair Bolsonaro que produziu fake news similar à mamadeira de piroca, quando disse que o movimento era “financiado por dinheiro público”. O ministro da Justiça Sérgio Moro autorizou o emprego da Força Nacional de Segurança para intimidar os manifestantes.

Quem não se intimidou foi Tuira Kayapó. O Brasil inteiro lembra quando em 1989, numa audiência pública em Altamira, ela passou o seu facão no rosto do diretor da Eletronorte José Antônio Muniz Lopes e quase fez a barba e o bigode dele. Com as mãos pintadas de preto, dois colares de miçangas coloridos e uma faixa de contas no cabelo sobre a testa, ela fez um discurso indignado contra o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, brandindo o facão.

Agora, com sua língua afiada, partiu pra cima do deputado ruralista José Medeiros (Pode-MT vixe vixe) que, em audiência na Câmara, defendia a abertura das Terras Indígenas aos grandes projetos econômicos e foi vaiado pelos índios presentes.  Dona de rara eloquência, Tuira se levantou, imponente e, cantando, se dirigiu ao microfone. Falou na língua Mēbengokrê:

– Deputado, ouça as minhas palavras, eu sou Kayapó, tem que ouvir minhas falas. Fiquei ouvindo você falar do dinheiro e agora vou dizer pra você. É vocês aqui, deputado, que estão roubando dinheiro. Não fomos nós, Kayapó, que roubamos o dinheiro. É aqui nesta Casa que vocês deputados desviam o dinheiro. Nós, Mebengokré, não estamos vendendo minério. É vocês, Kuben, que gostam de extrair minério. Deputado, leva minha mensagem pro seu chefe nos respeitar.

Alma Munduruku

O outro discurso foi de Alessandra Korap Munduruku da aldeia Sawré Muybu, no Médio Tapajós (PA), na reunião de 15 líderes indígenas com o presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia (DEM vixe vixe)). Estudante de Direito na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), ela criticou a entrega da demarcação das terras indígenas à ruralista Tereza Cristina, ministra da Agricultura, aquela que recomendou o povo comer manga para não passar fome. Espinafrou a ministra Damares Alves, pastora evangélica, cujo ministério é hoje responsável pela Funai. Em discurso contundente, em português, ritmou suas palavras com socos na mesa:

– Estão invadindo nossas terras. É pra grilagem. E nossas terras não são demarcadas (…). Os nossos caciques estão ficando doentes porque a gente não consegue mais fazer uma roça (…). Estão entregando a Funai aos ruralistas. A Damares, aquela mulher não representa nós indígenas não. Os evangélicos estão entrando em nossas terras pra dividir o nosso povo, tirando a nossa cultura, agora quer tirar a nossa alma. Ela não conhece o que é o indígena. Não conhece a terra indígena. Não conhece o índio. A Damares não sabe o que é vida. A Tereza Cristina não sabe”.

No final, olhando para Rodrigo Maia que com cara de égua envergonhada fingia rabiscar um papel, mandou um recado ao presidente da República:

– E aquele Bolsonaro, dizer pra ele que respeite nosso território, respeite os nossos antepassados, porque desde 519 anos nós estamos resistindo”.

Ela repetiu com outras palavras o que já havia dito em audiência pública no dia anterior, num discurso que viralizou, com os copos e celulares sobre a mesa dançando com os sopapos dados:

– Querem arrancar nossas raízes, mas as nossas raízes são fortes, nossas raízes estão lá dentro, no fundo. Cada vez que tiram nossas raízes, a semente ela brota, ela cai, e cada vez nasce mais. Vocês precisam deixar a Amazônia em paz. Sawe!

As entrevistas da deputada Joênia Wapichana e de Sônia Guajajara constituíram o eixo do documento final do 15º ATL, que lista 13 reivindicações e critica a política de terra arrasada do governo Bolsonaro e de outros órgãos do Estado contra os nossos direitos”, além de manifestar “o nosso veemente repúdio aos propósitos governamentais de nos exterminar, como fizeram com os nossos ancestrais no período da invasão colonial, durante a ditadura militar e até em tempos mais recentes, tudo para renunciarmos ao nosso direito mais sagrado: o direito originário às terras”.

As mulheres Munduruku, entre elas Alessandra, com câmera nas mãos, caminharam nas trilhas com os pés descalços para auto demarcar suas terras, o que era obrigação do Estado, como mostra o documentário “Pés de Anta – as cineastas Munduruku” (2017) da “Amazônia Real”, dirigido por Kátia Brasil. Foram chamadas de Pés de Anta pelos homens que reconheceram a capacidade delas de andar sobre pedras e espinhos.

A Marcha das Mulheres Indígenas sobre o asfalto de Brasília está marcada para o próximo mês de agosto com o tema “Território: nosso corpo, nosso espírito”. Abençoados pés que marcham, abençoadas mãos que sangram para defender a floresta, o clima, o ar que respiramos, a água que bebemos. Benditas mulheres, vanguarda da humanidade, que dão uma lição de Brasil e de ética a todos nós. Se Bolsonaro conseguir fechar os cursos de ciências sociais, qualquer estudante poderá se graduar ouvindo os discursos dessas mulheres indígenas.

P.S. Imperdíveis essas falas, para ouvir cada vez que começamos a perder a esperança:

  1. Discurso de Tuira Kayapó: (2 minutos)

https://www.youtube.com/watch?v=OVJTh9Wtvq4

  1. Dois discursos de Alessandra Munduruku:
  1. https://www.youtube.com/watch?v=qD1S7pIgm7Y (7 minutos)
  2. https://www.viomundo.com.br/denuncias/lider-indigena-coloca-damares-vera-cristina-bolsonaro-e-maia-no-devido-lugar-veja-o-video.html  (l minuto e meio)
  1. Pés de Anta: as cineastas Munduruku (9 minutos)

https://www.youtube.com/watch?v=f4gLP6Yq9f8

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