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Postado em 18/03/2017 10:49

A pirotecnia dos investigadores e a desfaçatez dos investigados,

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 por Helena Chagas
Jornal GGN – Causa perplexidade ver, de um lado, o comportamento da Polícia Federal no Brasil pós Lava Jato, em que jogar o nome de um cacique político na roda para atrair mídia vale mesmo quando este cacique não é suspeito, investigado ou acusado de qualquer ato ilícito. Caso de Osmar Serraglio e a mais nova ação a PF, a operação Carne Fraca, que apura pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura para evitar fiscalização em frigoríficos.
De outro lado, também choca a desfaçatez com que investigados agem, sob a luz do dia, tramando anistias sob a batuta de parte do Judiciário. É o que aponta a jornalista Helena Chagas, em artigo publicado nesta sexta (17).
Curitiba parece nao querer mesmo sair do mapa midiático, e aproveitou para comemorar os três anos da Lava Jato, hoje, com uma super-mega-power operação, a maior da PF em toda a sua história, contra grandes frigoríficos do país, que teriam pago propina a fiscais do Ministério da Agricultura para fazer vista grossa à venda de carne deteriorada.
É revoltante saber que estamos consumindo carne podre, misturada com papelão e produtos químicos. Quem faz isso merece cadeia, e ponto final. Não há o que discutir quanto ao mérito da operação. Mas também não há como não notar, mais uma vez, certa movimentação pirotécnica dos investigadores da Carne Fraca, que estão sob a jurisdição de um colega do também paranaense Sergio Moro, o juiz federal Marcos Josegrei.
É aí que a coisa pega, nas precipitações que podem levar a informações  que não se confirmam, jogando tudo e todos na mesma vala e produzindo danos às vezes irreparáveis em reputações de pessoas e empresas. O nome do ministro da Justiça, Osmar Serraglio, por exemplo, começou a rolar desde cedo nos onlines como suspeito da Carne Fraca por ter sido grampeado em conversa com um dos acusados, a quem chamou de “grande chefe”. A investigação, porém, nada apurou contra ele, segundo delegados e procuradores, que explicaram que ele não é investigado no caso.
Da mesma forma, os investigadores informam que o dinheiro da propina dos fiscais agropecuários ia, em parte, para o PMDB e para o PP. É totalmente lógico e provável que isso tenha acontecido, para quem conhece esses partidos. Mas eles não sabem, ou não dizem, quem recebeu o dinheiro, como e nem quanto. Com isso, estão todos os ex-ministros – a maioria do PMDB – e dirigentes do Ministério da Agricultura nos últimos anos sob suspeita. É justo?
Certamente não, assim como não são também justos os vazamentos diários e seletivos que jogam na mídia nomes da Lista de Janot – cujo sigilo agora está sob a guarda  do STF -, juntos e misturados, sem dizer do quê estão sendo acusados. Como se sabe, entre os crimes listados há desde caixa 2 em sua modalidade mais simples até corrupção pesada.
Do outro lado do balcão, o dos investigados, a reação causa perplexidade e pode acabar por dar razão aos exageros dos juízes e procuradores que prendem antes e perfuntam depois. Em Brasília, investigados e investigadores do primeiro escalão da República se reúnem diariamente para tramar saídas para garantir a sobrevivência dos acusados na Lava Jato. Eles próprios vêm a público defender uma reforma política a toque de caixa, instituindo soluções polêmicas, como o financiamento público das campanhas e a eleição em lista fechada para deputados, com o claro objetivo se salvar a própria pele.
Acusados e julgadores confraternizam, ministros palacianos incluídos na Lista de Janot agem como se nada estivesse acontecendo, o Congresso trama anistias para caixas 1,2 e 3 e a vida segue.
Entre a sanha pirotécnica de uns e a desfaçatez de outros, está o cidadão perplexo e a cada dia mais descrente nas instituições e em seus representantes. Nitroglicerina pura.

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