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Postado em 08/01/2017 8:24

Quatro coisas que o Papa Francisco diz aos pobres

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Ignacio Ramonet*
“Após os dois primeiros encontros – Roma, em 2014 e Santa Cruz (Bolívia), – o III Encontro Mundial dos Movimentos Populares foi sediado em Roma, de 3 a 5 do Novembro passado. Participaram do evento cerca de 200 ativistas dentre os mais pobres da Terra (catadores, recicladores de lixo, vendedores ambulantes, camponeses sem terra, indígenas, desempregados, favelados, moradores de assentamentos precários, etc.) pertencentes a 92 movimentos populares procedentes de 65 países dos cinco continentes”,
Assim como nos dois encontros anteriores, os temas abordados foram os chamados três “T”s: “Trabalho, Teto e Terra”, dos quais foram agregados, nesta vez, questões relacionadas à “democracia e ao povo”, o “cuidado ao meio ambiente e à natureza” e “imigrantes e refugiados”.
Os participantes se reuniram durante os dois primeiros dias no Pontifício Colégio Internacional Maria Mater Ecclesiae, localizado na Via Aurélia Antiga, em Roma, (sede e principal seminário dos “Legionários de Cristo”).
Entre os participantes estavam: Juan Grabois, representando a Confederação de Trabalhadores da Economia Popular (CTEP) e do Movimento dos Trabalhadores Excluídos (MTE) da ArgentinaJoão Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Brasil e da organização internacional Via CampesinaVandana Shiva, filósofa e ecologista indiana, Prêmio Nobel Alternativo em 1993; e José “Pepe” Mujica, ex-presidente do Uruguai.
No 5 de novembro, já no Vaticano, depois de uma missa na Basílica de São Pedro, a qual foi acessada pela Porta Santa da Misericórdia, todos os participantes e mais de três mil ativistas dos movimentos sociais  italianos foram recebidos em audiência, no imenso Salão Paulo VI, pelo Papa Francisco.
Em seu discurso de síntese, Francisco começou recordando “os dez pontos de Santa Cruz de la Sierra, onde a palavra mudança estava repleta de grande conteúdo, estava conectada à coisas fundamentais: o trabalho digno para os excluídos do mercado de trabalho; a terra para os camponeses e povos indígenas, a habitação para as famílias sem teto; a integração urbana para os bairros populares; a erradicação da discriminação, a violência contra as mulheres e as novas formas de escravidão; o fim de todas as guerras, do crime organizado e da repressão; liberdade de expressão e comunicação democrática; ciência e tecnologia à serviço dos povos”.
E definiu “um projeto de vida que rejeite o consumismo e recupere a solidariedade, o amor entre nós e o respeito pela natureza como valores essenciais. É a felicidade de ‘viver bem’ o que as pessoas reivindicam, a ‘vida boa’, e não esse ideal egoísta que enganosamente inverte as palavras e nos propõe a ‘boa vida'”.
O que o Papa disse realmente aos pobres? Essencialmente quatro coisas:
1) Rebelem-se contra a tirania do dinheiro! “Há um terrorismo de base que emana do controle global do dinheiro sobre a terra e ameaça toda a humanidade. Desse terrorismo básico se alimentam os terrorismos derivados, tais como o narco-terrorismo, o terrorismo de Estado e que alguns erroneamente chamam de “terrorismo étnico” ou “religioso”, mas nenhum povo, nenhuma religião é terrorista. É verdade, existem pequenos grupos fundamentalistas em todos os lugares. Mas o terrorismo começa quando ‘foi rejeitada a maravilha da criação, o homem e a mulher, e foi posto ali o dinheiro’. Toda a doutrina social da Igreja se rebela contra a idolatria do dinheiro que reina ao invés de servir, tiranizando e aterrorizando a humanidade.
Nenhuma tirania se sustenta sem explorar nossos medos. Esta é a chave. Por isso que toda a tirania é terrorista. E quando esse terror, que foi semeado nas periferias com massacres, saqueamentos, opressão e injustiça, explora nos centros com diferentes formas de violência, inclusive com atentados odiosos e covardes, os cidadãos que ainda conservam alguns direitos são tentados pela falsa segurança dos muros físicos ou sociais. Muros que confinam uns e expulsam outros. Cidadãos amuralhados, aterrorizados, de um lado. Excluídos, exilados, mais aterrorizados ainda, do outro.
Precisamos ajudar a curar o mundo de sua atrofia moral. Este sistema atrofiado pode fornecer certos implantes cosméticos que não são um verdadeiro desenvolvimento: crescimento econômico, avanços tecnológicos, maior “eficiência” para produzir as coisas que são compradas, usadas e descartadas, englobando à todos em uma dinâmica vertiginosa do descarte… mas este mundo não permite o desenvolvimento do ser humano em sua totalidade, o desenvolvimento que não se reduz ao consumo, que não se reduz ao bem-estar de uns poucos, que inclui todos os povos e indivíduos na plenitude de sua dignidade, desfrutando fraternalmente da maravilha da Criação. Esse é o desenvolvimento que necessitamos: humano, integral, respeitoso da criação, desta casa comum”.
2) Sejam solidários! “O que há de errado com o mundo de hoje que, quando um banco declara bancarrota, imediatamente surgem somas escandalosas para salvá-lo, mas, quando é a humanidade que declara essa falência, quase não há uma milésima parte para salvar a esses irmãos que sofrem tanto? E assim, o Mediterrâneo converteu-se um cemitério, e não apenas o Mediterrâneo… tantos cemitérios junto dos muros, de paredes manchadas de sangue inocente. O medo endurece o coração e se torna crueldade cega que se recusa a ver o sangue, a dor, o rosto do outro.
O que fazer frente a esta tragédia dos migrantes, refugiados e exilados? Peço-lhes que exercitem essa solidariedade tão especial que existe em vocês com aqueles que têm sofrido. Vocês sabem recuperar fábricas da bancarrota, reciclar o que os outros descartam, criar postos de trabalho, cultivar a terra, construir casas, integrar bairros segregados e reivindicar sem descanso tal qual a viúva do Evangelho, que pede justiça insistentemente (1). Talvez com seu exemplo e sua insistência, alguns Estados e organizações internacionais abram os olhos e adotem as medidas adequadas para acolher e integrar plenamente todos aqueles que, por uma razão ou outra, buscam abrigo longe de seus lares. E também para enfrentar as causas profundas pelas quais milhares de homens, mulheres e crianças são expulsos todos os dias de suas terras natais”.
3) Revitalizem a democracia! “A relação entre povo e democracia. Uma relação que deveria serNATURAL e fluída, mas que corre o perigo de desfigurar-se até se tornar irreconhecível. A lacuna entre os povos e nossas formas atuais de democracia amplia-se cada vez mais como consequência do enorme poder dos grupos econômicos e midiáticos que parecem dominar. Os movimentos populares não são partidos políticos e, em grande medida, é aí que reside a sua riqueza, porque expressam uma forma distinta, dinâmica e vital de participação social na vida pública. Mas não tenham medo de entrar em grandes discussões, em Política escrita com maiúscula, e cito Paulo VI: ‘A política oferece um caminho sério e difícil -ainda que não seja o único- para cumprir o importante dever que os cristãos e cristãs possuem de servir os outros’ (2). Ou aquela frase que repito tantas vezes: ‘A política é uma das formas mais altas de caridade, de amor'”.
Vocês, as organizações dos excluídos e tantas outras organizações de outros setores da sociedade, estão convocados à revitalizar, a refundar as democracias que passam por uma verdadeira crise. Não caiam na tentação do espartilho, que os reduz a atores secundários, ou pior, a meros administradores da miséria existente. Nestes tempos de paralisia, desorientação e propostas destrutivas, a participação ativa dos povos que buscam o bem comum pode se sobressair, com a ajuda de Deus, aos falsos profetas que exploram o medo e a desesperança, que vendem fórmulas mágicas de ódio e crueldade ou de um bem-estar egoísta e uma segurança ilusória.
Sabemos que, enquanto não se resolvam radicalmente os problemas dos pobres, renunciando a autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, e atacando as causas estruturais da desigualdade, não se resolverão os problemas do mundo e, em última análise, nenhum problema. A desigualdade é a raiz dos males sociais”.
4) Sejam austeros! Fujam da corrupção! “Assim como a política não é um assunto dos ‘políticos’, a corrupção não é um vício exclusivo da política. Há corrupção na política, há corrupção nas empresas, há corrupção nos meios de comunicação, há corrupção nas igrejas e também existe corrupção nas organizações sociais e movimentos populares. É justo dizer que há uma corrupção naturalizada em alguns âmbitos da vida econômica, em particular nas atividades financeiras, e que está menos em voga do que a corrupção diretamente ligada à esfera política e social. É justo dizer que muitas vezes os casos de corrupção são manipulados por más intenções. Mas também é justo esclarecer que aqueles que optaram por uma vida de serviço tem uma obrigação adicional, que se soma à honestidade com que qualquer pessoa deve atuar na vida. A haste é mais alta: é preciso viver a vocação de servir com um forte senso de austeridade e humildade. Isto vale para os políticos, mas também se aplica aos líderes sociais e para nós, os pastores.
A qualquer pessoa que tenha muito apego pelas coisas materiais ou pelo espelho, a quem gosta o dinheiro, os banquetes exuberantes, as mansões suntuosas, os ternos refinados, os carros de luxo, devo aconselhar-lhe que perceba o que está acontecendo em seu coração e reze para que Deus liberte-o dessas amarras. Aquele que tenha afeição por todas as coisas, por favor, que não se meta na política, que não se meta em uma organização social ou em um movimento popular, porque vai fazer muito mal para si próprio e para os outros, além de manchar a nobre causa pela qual levanta uma bandeira. Que tampouco se meta no seminário. Frente à tentação da corrupção, não há melhor antídoto que a austeridade, essa austeridade moral e pessoal.
A corrupção, a soberba, o exibicionismo dos líderes aumentam a descrença coletiva, a sensação de desamparo e retroalimenta o mecanismo do medo que suporta este sistema perverso”.
Em conclusão, o Papa Francisco citou o falecido líder afro-americano, Martin Luther King, que escolheu o amor fraterno, mesmo no meio das piores perseguições e humilhações: “Quando te elevas ao nível do amor, de sua grande beleza e poder, a única coisa que buscas derrotar são os sistemas malignos. Você ama as pessoas presas nesse sistema, mas trate de derrotar esse sistema. (…) Ódio por ódio apenas intensifica a existência de rancor e do mal no universo. Se eu bater em você e você me bater, e se eu te devolver o golpe e você me golpear de novo, e assim sucessivamente, é evidente que isso chegará ao infinito. Simplesmente nunca termina. Em algum lugar, alguém deve ter um pouco de sentido, e essa é a pessoa forte. A pessoa forte é a pessoa que pode quebrar a corrente de ódio, a cadeia do mal” (3).

*Ignacio Ramonet, jornalista, escritor e Diretor do “Le Monde Diplomatique” em espanhol
http://www.monde-diplomatique.es/?url=editorial/0000856412872168186811102294251000/editorial/?articulo=2f707790-007c-465a-8a8b-ff4b394b6719
Tradução: Henrique Denis Lucas

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