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Postado em 01/11/2017 1:58

‘Revolução Russa foi muito importante para a História do Brasil’, diz especialista

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© AP Photo/ Ivan Sekretarev

A Revolução Russa de 1917 teve uma importância muito grande para o Brasil. Quem faz esta afirmação é o professor João Cláudio Pitillo à Sputnik Brasil. Ele prepara o lançamento do livro A Grande Revolução, narrando fatos que marcaram a radical transformação política da Rússia.

A Rússia e o mundo estarão celebrando em 7 de novembro o centenário da Revolução Russa, que teve fortíssimas consequências não só para a Rússia mas também para seus vizinhos e outros países de todos os continentes, inclusive o Brasil.

Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Pitillo explica como o Império Russo com um histórico de séculos deu lugar a uma república socialista soviética, criada logo após a Revolução de 1917, além de comentar a influência do movimento no Brasil e na América Latina.

“O Brasil, como o mundo todo, sofreu as consequências da Revolução Russa. Apesar de estarmos falando de uma época em que não havia internet e o telégrafo funcionava muito mal, a Revolução chegou aqui como uma onda. Não foi à toa que o Governo brasileiro, adiante, rompeu relações com a União Soviética”, afirmou o especialista.

Segundo o historiador João Cláudio Pitillo, “o Brasil de 1917 não queria nem ouvir falar de Revolução Comunista na Rússia. Era uma Revolução que estava fazendo reforma agrária, empoderando os camponeses, e o Brasil agrário não queria ouvir falar nesses temas”.

Contudo, o Brasil de 1917 já tinha uma forte influência do pensamento anarquista. O movimento, explica Pitillo, era muito forte e chegou ao país junto com os imigrantes europeus. Até que, em 1922, foi fundado em Niterói, então capital do Estado do Rio de Janeiro, o Partido Comunista do Brasil, depois, a partir dos anos 1960, chamado de Partido Comunista Brasileiro.“O movimento comunista nasceu no Brasil, como partido político, na mão de intelectuais e de um grupo que tinha acesso à leitura. Num primeiro momento, o PCB não foi um partido de operários, mas, sim, um partido de quadros intelectuais que tentavam entender as circunstâncias políticas do país”, destaca Pitillo.

“Mas é mesmo a partir de 1922, com a criação do PCB, que o Brasil vai ter uma participação no movimento comunista mundial, justamente com a sua figura de proa, Luís Carlos Prestes, e que vai convergir para o Levante de 1935, quando os comunistas tentaram tomar o poder no Brasil”, afirma.

Segundo ele, “há semelhanças entre o que aconteceu na Rússia em 1917 e o que aconteceu no Brasil em 1935”. “E, depois, isso se espalhou por vários países da América Latina. Portanto, não há como negar, a Revolução Comunista Russa foi muito importante para o Brasil”, completa.

Um marco na História da Rússia

A Revolução Comunista Russa de 1917 marcou o fim da monarquia que vigorou durante séculos no país e deu lugar a uma república em que pontificaram operários e camponeses sob a liderança de Vladimir Ilyich Ulyanov, mais conhecido como Lenin. Ao decretar o fim da aristocracia e da autocracia reinantes na Rússia, Lenin dizia que a partir daquele movimento, que vinha sendo articulado desde a transição do século XIX para o século XX sob a influência dos pensadores Karl Marx e Friedrich Engels, autores do Manifesto Comunista de 1848, operários e camponeses estavam no poder.

À frente do movimento bolchevique, que pregava a tomada do poder pela via revolucionária e pela força das armas (no sentido oposto ao do movimento menchevique, que pretendia tomar o poder sem gestos extremos de violência), Lenin fundou o POSDR, Partido Operário Social Democrata Russo, embrião do futuro PCUS, Partido Comunista da União Soviética.

  • Manifestação de soldados em Petrogrado durante a revolução de fevereiro na Rússia
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  • Parada militar na Praça Vermelha em 7 de novembro de 1990
  • Parada militar em 7 de novembro de 1941 na Praça Vermelha, em Moscou
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© SPUTNIK/
Manifestação de soldados em Petrogrado durante a revolução de fevereiro na Rússia

Historiadores costumam registrar a sucessão de fatos que culminou com a Revolução Comunista de 1917 a partir da gestão modernizadora do Imperador Alexandre II (1855-1881). Entre outras medidas, o imperador decretou o fim da servidão agrária, beneficiando 40 milhões de camponeses, incentivou o ensino elementar, concedeu autonomia às universidades e deu maiores poderes às províncias administrativas. Com o assassinato de Alexandre II em 1881, seu sucessor Alexandre III (1881-1894) como que anulou os avanços do antecessor, e as forças conservadoras reafirmaram seu poder perante a monarquia. Simultaneamente, ganhava força o movimento republicano, e as forças revolucionárias começavam a se organizar, o que se consolidou no reinado de Nicolau II (1894-1917), à medida que o conservadorismo se fortalecia e capitais externos, procedentes da Alemanha, Inglaterra, França e Bélgica, entravam no país.

Em 1905, aconteceu a primeira insurreição. Os revolucionários tentaram tomar o poder, porém Nicolau II levou a melhor sobre eles. Comprometeu-se a estabelecer um governo constitucional e a convocar eleições para o Parlamento (a Duma). O Partido Constitucional Democrata, também conhecido como Partido dos Cadetes, deu-se por satisfeito com as promessas supostamente liberalizantes do imperador e deixou o Partido Operário praticamente só na oposição à monarquia. Mais uma vez, o imperador se fortalecia. Na frente externa, a Rússia estava em guerra com o Japão, que tentava assumir o controle da Manchúria.

Os revolucionários de 1905 não conseguiram levar seu movimento até o final. Concluíram que, para ser vitorioso, o movimento precisava aprender com os erros e estabelecer bases concretas para o triunfo da pretendida revolução.

Voltaram então à cena somente em fevereiro de 1917, desencadeando a chamada Revolução Branca. Explodiram protestos do movimento operário em várias cidades russas, principalmente Petrogrado (hoje, São Petersburgo), e Nicolau II ordenou violenta repressão contra os manifestantes. Para sua surpresa, partes significativas dos militares apoiaram as reivindicações populares, e em uma questão de dias, mais precisamente em 15 de março de 1917, Nicolau II, toda a sua família e a aristocracia foram obrigados a deixar o poder. Liberais, burgueses e movimentos de esquerda haviam se unido para depor o imperador.Com a derrubada do czar, foi instalado um governo provisório sob o comando do Príncipe Georgy Lvov, tendo como ministro da Guerra Aleksandr Kerensky. Ambos haviam assumido o compromisso de manter a Rússia dentro da Primeira Guerra Mundial, decisão que irritou Lenin e as demais lideranças esquerdistas. Lenin, que havia voltado à Rússia com ajuda da Alemanha, dividiu os militares e conseguiu que parte significativa da tropa se juntasse aos operários. Ganhou força sua pregação pela abolição da propriedade privada, socialização da terra e de todos os bens, estatização da indústria e dos bancos, e o país se viu em meio a uma enorme divisão.

Àquela altura, Lenin, já contando com financiamento alemão (tem-se como certo ter ele obtido 40 mil goldmarks para implantar a Revolução na Rússia), manteve controle total sobre as forças revolucionárias. Unido aos companheiros Grigory Zinoviev e Karl Radek, e tendo conquistado a adesão dos anarquistas e dos socialistas revolucionários, Lenin depôs o governo então nas mãos de Kerensky e decretou uma nova forma de gerir o país. A Rússia deixou, definitivamente, de ser uma monarquia para se transformar numa república socialista.Enquanto Kerensky fugia da Rússia, muitos que com ele governavam foram presos. Ao mesmo tempo, Lenin instalou o Conselho dos Comissários do Povo (Sovietes), e teve início concreto o que mais adiante se transformou na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas.

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