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MK Bhadrakumar

Postado em 25/08/2017 9:42

Triângulo Rússia-Turquia-Irã ganha tração 

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MK Bhadrakumar, Indian Punchline

A geopolítica do Oriente Médio assiste a uma mudança tectônica, com a emergência de um eixo turco-iraniano que até recentemente pareceria inacreditável. A visita de três dias que fez semana passada à Turquia o comandante do Estado-maior do Irã general Mohammad Hossein Bagheri foi a primeira nas relações Irã-Turquia desde a Revolução Iraniana em 1979. Durante a visita de Bagheri, os dois países assinaram um acordo militar, dia 17 de agosto. O presidente Recep Erdogan da Turquia revelou na 2ª-feira que discutiu com Bagheri a possibilidade de ações conjuntas turco-iranianas contra militantes curdos.

“Ação conjunta contra grupos terroristas que se tenham tornado uma ameaça sempre é item de agenda. A questão foi discutida entre os dois chefes militares, e eu discuti (com Bagheri) mais amplamente o modo como se deve fazer isso” – disse Erdogan. Turquia e Irã têm forte convergência no serviço de impedir a emergência de uma entidade curda independente na região no Iraque ou na Síria. Os dois países estão em luta contra grupos curdos separatistas ativos dentro das respectivas fronteiras.

O que torna urgente para os dois países a necessidade de cooperar é a suspeita, que acomete turcos e iranianos de que EUA e Israel estão, provavelmente, escalando seu antigo projeto para estabelecer um Curdistão independente na região, com agenda ulterior para criar com vistas ao longo prazo, uma situação que promova seus interesses no mapa regional.

Os EUA recusaram-se a dar atenção às preocupações da Turquia e armaram e equiparam os militantes curdos no norte da Síria. Forças Especiais dos EUA e milícias curdas estão conduzindo conjuntamente a atual ofensiva sobre Raqqa, que foi a capital do ISIS. Washington desprezou a oferta turca, para assumir as operações em Raqqa, região de árabes sunitas, e preferiu aliar-se não aos turcos, mas a milícias curdas não árabes.

O objetivo dos EUA parece ser assumir o controle sobre os campos de petróleo na região adjacente a Raqqa, o que garantiria a viabilidade econômica de uma entidade curda no norte da Síria. A Turquia teme que o próximo passo dos EUA seja lançar operações no norte da Síria, ao longo da fronteira turca, com vistas a arrancar dali um Curdistão contínuo, que teria acesso ao Mediterrâneo Oriental. A Turquia percebe corretamente que um Curdistão na porta ao lado seria pressão intolerável contra sua integridade e estabilidade.

O que inspirou a Ancara e Teerã o senso de urgência que se vê hoje é o referendum que está em planejamento pelos curdos iraquianos, para dia 25 de setembro e que decidirá sobre a criação de um Curdistão como estado independente. Quase 1/5 da população do Iraque são curdos e o resultado do próximo referendo – se chegar a ocorrer – é praticamente fechado.

Contudo, a emergência do eixo turco-iraniano tem consequências muito mais amplas. Para começar, é forte sugestão que a Turquia dá de que está pondo fim conclusivo e efetivo ao apoio que deu a grupos sírios rebeldes. Turquia e Irã estão trabalhando juntos na direção da iniciativa russa para criar zonas de desescalada na Síria. Mais uma vez, a Rússia não parou de fortalecer a cooperação bilateral que mantém com Turquia e Irã respectivamente nos anos recentes. Assim sendo, a cooperação militar turco-iraniana está-se cristalizando sob o amplo guarda-chuva russo, pode-se dizer, que visa a estabilizar a situação na Síria. Com efeito, pode-se dizer que está sendo construído um triângulo russo-turco-iraniano para pôr fim ao conflito sírio e construir um efetivo acordo para a Síria.

Tudo isso tem implicações de longo alcance, porque o triângulo russo-turco-iraniano também já dá sinais de estender as próprias asas para além do problema sírio, de modo a construir uma cooperação regional de base ampla, com potencial para impactar toda a dinâmica do poder no Oriente Médio.

Assim, há uma semana, empresas russas, turcas e iranianas assinaram um acordo de $7 bilhões para perfurar e extrair petróleo no Irã. Similarmente, depois de muitos adiamentos, Irã e Rússia mexem-se na direção de implementarem seu acordo deswap pelo qual o Irã fornecerá mensalmente 100 mil barris/dia de petróleo à Rússia; em troca a Rússia exportará para o Irã bens no valor de $45 bilhões por ano. Por outro lado, a cooperação econômica entre russos e turcos expande-se também rapidamente. Na verdade, a finalização do acordo de $2 bilhões, mês passado, pelo qual os turcos compraram da Rússia o sistema S-400 Triunf de mísseis antibalísticos significamudança estratégica de toda a política exterior turca, uma vez que a Turquia é potência membro da OTAN e aliada dos EUA.

Historicamente, as relações entre Rússia, Turquia e Irã sempre foram voláteis. Houve longos períodos na história durante os quais foram rivais. Mas naquele momento os arranjos contemporâneos tinham sem dúvida características muito específicas, que acarretavam maior congruência. Claro, viviam em cooperação econômica de complementaridade, dadas as respectivas base de recursos, respectivos estágios de desenvolvimento e condições de mercado. Essas três grandes potências vivem hoje relações muito tensas com os EUA. As três têm interesses equivalentes em conseguir impedir que se consolide a hegemonia ocidental sobre o Oriente Médio Muçulmano. Ao mesmo tempo, também são potências ressurgentes, cada uma ao seu modo. Sabem que são avalistas da estabilidade e da segurança regionais e que interessa muito mais às três cooperar que competir no Oriente Médio, como a experiência síria comprova.

Será situação de “ganha-ganha” se essa entente for levada adiante, o que também ameniza o isolamento regional desses três países. Claro que ainda se trata de um grande “se”, mas num momento em que o Oriente Médio está em grande tumulto –, com os três grandes bastiões do ‘arabismo’ (Iraque, Síria e Egito) muitíssimo enfraquecidos; com a Arábia Saudita numa deriva arriscada; o Conselho de Cooperação do Golfo em processo de desmanche irreversível –, o eixo formado de Rússia, Turquia e Irã guarda pleno potencial para operar como uma âncora de estabilização regional. Será situação de “ganha-ganha”, se os três países puderem manter o ímpeto de suaentente, a qual também ameniza o seu isolamento regional.*****

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