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Internacional

Postado em 31/10/2017 12:05

Utopias e distopias – o mundo pós 1990

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por Pedro Augusto Pinho*
Em 9 de novembro de 1989 foi demolido o Muro de Berlim. A imprensa ocidental saudou esta ocorrência como o fim das guerras, o início do mundo da paz.
Também, com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, se iniciava o mundo novo, o fim da história, o triunfo do liberalismo, a era do privado, do indivíduo, sobre o público, o social, o Estado Mínimo sobre o Estado Controlador.
Mas, era esta a verdadeira disputa que se instaurara após a II Grande Guerra, lá em 2 de setembro de 1945?
Não é minha compreensão.
Esta guerra (1939-1945), que envolveu um grande número de  nações, mostrou o poder industrial, do desenvolvimento de tecnologias de fabricação, o tipo de desenvolvimento a ser perseguido pelas nações. Um novo modelo colonial a ser adotado. E este era o pano de fundo que destruía, o que parecia ser definitivamente, o velho modelo colonial mercantil-financeiro.
Aquele antigo modelo, que tivera origem na Inglaterra, enriquecera um pequeno número de famílias, no Reino Unido e também fora dele. Apenas recordando alguns dos nomes mais conhecidos, como a real família dos Windsor,e, também na velha Albion, os Rothschild, os Manners, os Cecil, os Wriothesley, a família real holandesa e, naquele país, os Orange e os Van Duyn, enfim, não mais de 40 famílias que, do velho continente, dominavam as finanças e a economia mundial até o início do século XX.
O novo modelo colonial estava fundado na produção industrial, no consumo de massa, e tinha duas vertentes para distribuição dos lucros: a privada, cujo grande exemplo eram os Estados Unidos da América (EUA), e a pública, para o Estado, na URSS.
O velho capitalismo financeiro, que doravante chamarei “banca”, entendeu que havia um espaço, naquela disputa sobre a destinação dos ganhos, para que reassumisse seu poder colonial. E, deste modo, enquanto os EUA e a URSS buscavam maior número de colônias e travavam combates indiretos pelo mundo, a banca ia à cata de alianças que destruíssem, não o comunismo, mas o empoderamento do industrialismo.
A respeito desta ressurreição da banca e de seus novos objetivos já dediquei outros artigos. Passo a narrar a história recente de seu poder mundial. Apenas registro que capitais de origem  industrial, como dos Rockefeller e dos Vanderbilt, nos EUA, passaram a vestir a camisa da banca.
Se o século XX construíra a utopia da sociedade do consumo ou, numa etapa seguinte, a galbraithiana sociedade afluente, de um lado, e da sociedade protetora, socialista, do outro, faltou a esta a crítica de agir também como um império colonial.
Mas a sociedade que se nos descortina no século XXI é distópica, de ilhas de bem estar, no universo de miséria, lutas e mortes. Nem a propósito uma das designações deste mundo financeiro é Clube das Ilhas (Britânica, Manhattan e Honshu, Japão).
Antes de tratar dos temas deste artigo – poder da banca e poder nacional – é necessário mostrar a significativa mudança nas propriedades empresariais.
Ficamos acostumados a ver as grandes corporações industriais por seus produtos, por suas fábricas, por suas patentes. Era evidente, então, sua condução pelos empreendedores, pelos inventores, por “engenheiros”.
De modo acelerado, a partir de 1990, muitas empresas – Royal Dutch Shell, Coca-Cola, Imperial Chemical, Unilever, Nestlé, Rio Tinto Zinc, e seriam páginas a enumerá-las – passaram a ser propriedades de fundos de investimentos. Isto poucas vezes significou mudança de proprietários – as vantagens tributárias obtidas pós Thatcher-Reagan foram o  efetivo incentivo – mas um novo modelo de controle de gestão que tornava mais anônima a efetiva propriedade.
Passam a ser os executivos, mesmo em permanente mudança, os retratos corporativos mais conhecidos.
Isto conduzirá à ficção dos “mais ricos do mundo”, os que deixaram de se esconder, por vaidade ou ignorância, nos fundos de investimentos. Os bilionários  Windsor são conhecidos por sua realeza, não por sua riqueza.
Cuidemos, agora, nas palavras do “assassino econômico” John Perkins (“A História Secreta do Império Americano”, Cultrix, SP, 2008) da “verdade sobre a corrupção global” ou de como criar a dívida que escravizará Estados Nacionais.
Em 1997 ocorreu mais uma crise desencadeada pela banca. Esta na Ásia.
Crises são as ações provocadas pelo sistema financeiro para aumentar seus ganhos e dominar os países. Atuam nas crises organismos internacionais – como o FMI, o Banco Mundial (WB), o Banco Central Europeu (BCE) – e agências de espionagem e golpes – Agência de Segurança Nacional (NSA) e Agência Central de Informações (CIA), nos EUA, MI6 (Inteligência Militar Seção 6) , no UK – além das empresas agenciadoras e diretamente interessadas.
Diz Perkins. “Quando cheguei à Indonésia, em 1971, o objetivo da política externa dos EUA era claro: acabar com o comunismo e apoiar o presidente (Suharto)”. “Meu trabalho era criar os estudos econômicos necessários à obtenção de financiamento junto ao WB, ao Banco de Desenvolvimento da Ásia e à Agência Norte-americana para o Desenvolvimento Internacional (USAID)”.
A Indonésia é um arquipélago de mais de 17 mil ilhas, 300 grupos étnicos e, soube-se em 1960, “nadava em petróleo”.
Perkins, nesta época, trabalhava para MAIN, e o “governo Suharto apreciava nossa presteza no fornecimento de relatórios que garantiam empréstimos imensos, os quais beneficiavam as corporações norte-americanas e os governantes indonésios. Eles pouco se importavam que esses empréstimos fossem deixar o país profundamente endividado. Para os bancos, isso era parte do plano. No que se referia a Suharto, ao investir sua fortuna que crescia a cada dia em paraísos fiscais, ele se protegia contra o futuro de uma Indonésia falida”. E, refletindo sobre seu trabalho, acrescenta: “criáramos uma nova classe de elite no Terceiro Mundo, os lacaios da corporatocracia”. E, acrescenta, “segundo o relatório do WB e as séries estatísticas do IFS (International Financial Statistics), a Indonésia sempre ostentou a maior dívida externa (em percentual do PIB) de todos países asiáticos. Durante o período crítico de 1990-1996, esse número ficou sempre perto ou acima dos 60% (em comparação aos 15% da China e 10% de Cingapura)”. O Brasil, hoje, após um ano e meio de governo golpista, atingiu a dívida bruta de 73,9% do Produto Interno Bruto (PIB).
Empresas como a Nike, Adidas, Ralph Lauren, Gap usam a miséria reinante na Ásia para explorar trabalhadores, espancá-los ou matá-los quando protestam;  corporações internacionais incentivam privatizações e isenções de impostos para empresas estrangeiras.O Governo Golpista no Brasil buscou alterar a legislação que pune o trabalho em condições análogas ao da escravidão.
Comentando a América Latina (AL), onde também agiu como “assassino econômico”, escreve: “A Guatemala com Arbenz, o Brasil com Goulart, a Bolívia com Estenssoro, o Chile com Allende, o Equador com Roldós, o Panamá com Torrijos – todos os países do hemisfério que fossem abençoados com recursos que nossas corporações cobiçavam e que tinham líderes determinados a usar esses recursos para o bem de seu povo ….. viram esses líderes serem depostos por golpes ou assassinados e substituídos por governos marionetes de Washington”.
As chegadas de Hugo Chávez, na Venezuela, e de Evo Morales, na Bolívia, provocaram uma reviravolta na América do Sul, na entrada do século XXI. Mas a banca, neste momento, estava provocando as guerras no Oriente Médio. O passado de golpes neste subcontinente pode tê-la tranquilizado sobre a reversão fácil daqueles países para seu domínio imperial.
As primaveras árabes, no conjunto geográfico mais rico em petróleo do mundo, pareceu a estratégia adequada para eliminar líderes nacionalistas, derrubar estruturas locais de poder e transformar o Oriente Médio no novo modelo colonial: países sob governo direto das corporações, no modelo da distopia de ilhas corporativas produtoras no mar de miséria. Perkins denomina corporatocracia.
O exemplo da Indonésia se repete em todos os continentes. Afinal a dívida é a verdadeira arma, o grande instrumento de dominação e escravização adotado pela banca.
Talvez o mais infeliz, se houver um menos infeliz continente, tenha sido a África. Transcrevo um diálogo de Perkins com irmãos sudaneses que recusaram ir para os EUA.
“Precisamos lutar pela independência do Sudão”. “Mas o Sudão ficou independente em 1956”. “O Sudão não existe. Somos dois países, e não esse único que britânicos e egípcios criaram. O norte faz parte do Oriente Médio. O sul é a África”. “Mas onde fica o Egito?” “Antes o Egito ficava na Europa, agora fica no colo dos EUA”.
Não sendo novidade, não é, no entanto, do conhecimento geral a ação das corporações e dos organismos internacionais dominando Estados Nacionais, promovendo golpes de estado, assassinatos de líderes nacionais, matando, em verdadeiro genocídio, populações e etnias inteiras. Se há testemunho de turistas ou estes são vítimas, as ações dos “assassinos econômicos”, das corporações e “órgãos de inteligência”, o crime se transforma em ações de fanatismo étnico ou religioso. Foi assim que o MI6 criou a Irmandade Muçulmana.
Nada detém nem há qualquer pudor em matar e destruir vidas e países pelas corporações, hoje majoritariamente de controle anônimo dos fundos de investimentos. Um exemplo francês: a Compagnie Française pour le Developpement des Textiles (CFDT) vende pesticidas, herbicidas, juntamente com arados, fertilizantes e sementes para o Mali, dominando a produção de algodão daquele país. Nem um pouco me surpreenderia sabê-la atuante no recente conflito que apareceu como um caso dos islâmicos contra o Governo Malinês.
O Brasil de hoje, após o golpe de 2016, é um caso a mais da ação da banca. Não são os risíveis membros do executivo, legislativo e judiciário brasileiros que teriam a audácia de entregar nossas riquezas insubstituíveis e, adicionalmente, aumentar a dívida financeira brasileira. Falta-lhes inteligência e coragem. Eles cumprem, e aí estão as trapalhadas permanentes, ordens da corporatocracia.
Mas eles sentem a segurança de ter a proteção das polícias, forças armadas e da espionagem estrangeira atuante.
Tenho conhecimento pessoal de um caso. Durante muitos anos joguei golfe. Embora com medíocre desempenho, foi o único esporte que me interessou praticar. Você fica, por quatro horas, caminhando com outros três parceiros. É inevitável a conversa e, com as parcerias que se formam, um conhecimento maior dos outros jogadores. Um destes, tinha um “curioso trabalho” na representação francesa no Brasil: articular a venda e treinamento, por empresas francesas, de material e tecnologia para a polícia brasileira. Um trabalho que tivera início após os governos militares. Não posso adiantar mais, nem me interessou aprofundá-lo, e creio que, sendo o único parceiro com quem podia falar em seu idioma materno, foi-me dada ao longo de várias partidas esta  inconfidência.
Não há acordo possível com a banca. Os interesses nacionais e deste sistema são opostos e incompatíveis. Se foi possível o Partido dos Trabalhadores conduzir, por treze anos, o executivo brasileiro deveu-se ao pouco aprofundamento nas mudanças e às parcerias com os quem iria trai-lo na primeira oportunidade. Valeu a máxima que as pompas do poder cegam.
O que me parece fundamental, além da didática apresentação da nova realidade, é a consistência e aceitação consciente, pela maioria da população, de um projeto de mudança que não se limite à área econômica, mas atinja toda estrutura de poder: político, militar, psicossocial, midiático, científico, tecnológico e, principalmente, com a construção da cidadania brasileira.
*Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado 

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