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Postado em 17/06/2017 6:49

Vida e morte de Che Guevara aos olhos do irmão mais novo (EXCLUSIVO)

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CC0 / Alberto Korda / Guerrillero Heroico
No dia 14 de junho de 1928 nascia na cidade de Rosário, em Argentina, Ernesto Guevara de la Serna, mais conhecido como Che. Spuntnik conversou com o seu irmão mais novo, Juan Martín, sobre a vida de Che Guevara e sobre o mito que se formou durante a Revolução Cubana de de 1959.

Juan Martin já está acostumado a ser reconhecido irmão do “mitológico Che”, um dos comandantes da Revolução Cubana. Ele é 15 anos mais novo do que o primogênito da família e é autor do livro “Meu irmão Che”.

Huan Martín revelou sobre os encontros que teve com Che. No dia 14 de junho ele estaria comemorando 89 anos. Após uma tentativa frustrada de revolução na Bolívia, Che foi morto nesse país latino-americano aos 39 anos de idade.

Juan Martín Guevara com seu livro, Meu irmão Che
© FOTO: JUAN MARTÍN GUEVARA
Juan Martín Guevara com seu livro, “Meu irmão Che”

O irmão mais novo de Guevara lembrou emocionado a força do abraço de sua mãe, quando esta reencontrou o jovem revolucionário em Havana, logo ao desembarcar do avião, no dia 6 de janeiro de 1959. Esse encontro foi registrado em filme, que o interlocutor da agência teve a oportunidade de conhecer recentemente.

Da esquerda para direita: Celia Guevara, mãe de Che. Juan Martín Guevara (irmão). Ernesto Guevara. Roberto Guevara (irmão). Julio César Castro, jornalista e Carlos Figueroa, amigo da família. Punta del Este, Uruguai.
© FOTO: JUAN MARTÍN GUEVARA
Da esquerda para direita: Celia Guevara, mãe de Che. Juan Martín Guevara (irmão). Ernesto Guevara. Roberto Guevara (irmão). Julio César Castro, jornalista e Carlos Figueroa, amigo da família. Punta del Este, Uruguai.

“Não posso contar muita coisa sobre quem foi Ché. Posso contar quem foi Ernesto. Ernesto é meu irmão de sangue, Che é meu companheiro ideológico. Nós, em nossa família, nunca tivemos nenhum problema com a sua maneira de pensar e de ser. É muito difícil entender o fato do seu irmão de repente se transformar em tudo aquilo que é o Che. É difícil de explicar, pois para mim ele continua sendo meu irmão”, disse Martín.

“Encontrei com ele já sendo Che quando eu já tinha feito 15 anos. Isso aconteceu em Havana, em janeiro de 1959, onde ficamos por três meses. Não passamos juntos tanto tempo assim, pois eram os primeiros dias da Revolução e ele estava imerso nesta nova etapa. Todavia, conversamos e ficamos com a minha mãe, meu pai, minha irmã e um cunhado”, contou Martín, ao recordar a sua primeira visita à Havana.

“Depois nós encontramos em Montevidéu, em 1961, quando eu já tinha 18 anos. Ali também ele estava ocupado, mas as nossas conversas foram muito mais intensas, sobre temas distintos da época em que fomos à Cuba. Esta foi a última vez que o vi, mas minha mãe viajou diversas vezes para Havana. O meu elo de comunicação com ele era ela, porque eu vivia com minha mãe”, explicou o irmão mais novo do Che.

No seu livro, Martín narra que a família veio para Havana, em 1959, a pedido de Fidel, pois todos comemoravam a vitória da Revolução com as respectivas famílias, menos Che.

“Acontece que a ditadura de Fulgencio Batista em Cuba foi muito sangrenta, violenta, e havia um grande número de exilados. Imediatamente depois do triunfo da revolução, Fidel decidiu enviar um avião especial para recolher de toda a América Latina os exilados do Movimento 26 de julho. Camilo Cienfuegos, que foi encarregado de organizar esse voo, decidiu que nós também deveríamos viajar. Cienfuegos contou não ter dito a Ernesto que estaríamos neste avião, pois supôs que ele iria ficar contra, já que era para os exilados e não para sua família. Por isso, Che só ficou sabendo da nossa vinda quando já estávamos chegando”, revelou.

 

“Eu já tinha visto as fotografias da nossa chegada [à Cuba] e do abraço da minha mãe com Che. No entanto, recentemente pude ver um filme, com imagens de arquivo que registraram essa cena. Eu tenho a lembrança deste abraço como eterno, e  na película dá para ver que foi mesmo. Hoje, ao ver o vídeo, sinto a mesma emoção ao ver eles se abraçando depois de anos e de tantas vezes dele ter sido dado como morto e de todas as coisas que saíram sobre ele nos jornais”, desabafou o irmão, ao narrar as lembranças de Havana.

​”O meu livro tem por objetivo humanizar a sua figura. Foi construído um mito, que muitas vezes não possui conteúdo. E a melhor maneira de oferecer isso é humanizá-lo. Dizer que ele pertencia à uma família, que tinha um pai, uma mãe, irmãos. O seu rigor vem muito mais de minha mãe, do que do meu pai. Mas os dois possuíam um caráter muito forte”, disse Martín, destacando que ambos os pais eram muito avançados para o seu tempo e que não havia espaço para conservadorismo em sua casa.

Juan Martín lembrou de como ficou sabendo da morte do irmão.

“Naquele dia, de manhã cedo, eu fui trabalhar entregando laticínios. Não lembro bem, acho que era dia 10 de outubro, quando apareceu aquela famosa fotografia e foram divulgadas as notícias de sua morte em combate. Primeiro eu duvidei da fotografia pois, naquele tempo, já tínhamos recebido muitas notícias de sua morte, que acabaram por se provar falsas. À noite nós reunimos com a família e alguns afirmaram que a foto era falsa. Mas eu, quando vi a foto, ela me impactou e eu logo pensei que era verdadeira”, revelou.

Capa do jornal argentino Clarín, de 10 de outubro de 1967, anuncia a morte de Ernesto Che Guevara
Capa do jornal argentino Clarín, de 10 de outubro de 1967, anuncia a morte de Ernesto “Che” Guevara

Os restos mortais de Che foram encontrados somente 30 anos depois e enterrado no mausoléu na cidade de Santa Clara (Cuba).

“Estivemos lá em 1997. Desde aquela época eu só retornei uma vez para lá, porque, na verdade, culto aos mortos não me atrai muito. Mas o mausoléu é um lugar impressionante, com um fogo eterno, silêncio, e seu companheiros, mortos em La Higuera, na Bolívia, também estão lá. É como entrar em um lugar sagrado. Estivemos ali durante a cerimônia, na qual discursou Fidel”.

“Quando meu irmão Roberto esteve na Bolívia, para reconhecer o corpo, que na época não foi encontrado, ficou clara a intenção. Queriam fazer com que Che não sobreviva. Queriam não só acabar com os vestígios físicos dele, como com qualquer possibilidade de existência de um lugar para venerá-lo, para que não sobre nem imagem, nem pensamento. Eles não conseguiram”, afirma Martín que, por outro lado, comentou a comercialização da imagem do seu irmão.

Ernesto Che Guevara
© FOTO: CORTESÍA DE LA EMBAJADA DE LA REPÚBLICA DE CUBA EN RUSIA
“A comercialização da imagem foi empreendida para que a juventude não seja uma referência para os jovens. Faz parte do capitalismo. Não é somente o Che que está sendo comercializado. Tudo que pode dar dinheiro sempre é utilizado por alguém. Ou seja, se juntam duas coisas. O objetivo de banalizar Che e o objetivo de que não seja referência. Vale se questionar, no entanto, o por quê da permanência dessa imagem [baseada na célebre fotografia de Alberto Korda, tirada em 1960]. Essa é uma das fotografias mais famosas no mundo. Talvez seja tão conhecida, quanto a imagem de Cristo. Eu diria que são os jovens que fazem com que o Che renasça”, conclui Juan Martín, que ficou preso durante a ditadura na Argentina por quase nove anos.

“Sempre me perguntam o que aconteceria hoje na América Latina se Che estivesse vivo. O continente seria livre, soberano, independente e socialista? Mas ele não está mais vivo. Então os jovens de hoje que precisam assumir aqueles mesmos ideais e tentar mudar as coisas de forma concreta. Porque o mundo continua sendo desigual, ou talvez seja muito mais desigual, do que naqueles anos”, lamentou o irmão mais novo do Che em entrevista à agência Sputnik.

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